Dona Dolores estava dormindo no sofá da sala. Tinha se aconchegado no colo do marido que roncava alto. Seu Durval estava com a cabeça jogada de lado e babava pelo canto da boca. Em cima da mesa de centro, espalhadas, várias cartas de baralho do jogo de buraco que tinha ido até altas horas. No chão, duas taças de vinho. Uma delas estava pela metade. Dona Dolores tinha azia quando bebia álcool, então evitava.
            A claridade da manhã já iluminava a sala através da cortina quando Joana, a empregada, entrou na sala com os olhos esbugalhados, tremendo. Ela sempre procurava evitar fazer barulho quando o casal despencava no sofá. Evitava até passar pela sala, dava a volta por trás, pelo quintal. Mas dessa vez, a mulher de quase cento e trinta quilos avançou desembestada pela porta e deu um grito:
            – Seu Durval! Tem um homem morto na cozinha!
            Durval pulou do sofá ainda dormindo, com os olhos abertos, em choque.
            – O que, mulher?
            Dolores acordou e soltou um grito junto com uma tosse, segurou o braço do marido.
            Joana não esperou pela resposta, saiu correndo pela porta da frente rumo ao quintal.
            Durval olhou sério para a mulher:
            – Ela disse que tem um morto na cozinha ou ainda estou dormindo?
            – Chama a polícia, Durval! Liga para polícia!
            – Calma! Não pode ter homem nenhum morto na cozinha. A Joana enlouqueceu de vez.
            – Mas ela acabou de dizer que viu.
            – Lembra quando ela jurava ter visto um porco branco tentando entrar pelo portão da frente? Era uma menina de triciclo! A filha do Heitor!
            – A menina era gordinha…
            Durval olhou para o corredor que ia dar na cozinha.
            – E estava de vestido amarelo, qualquer um podia confundir…
            – Com um porco?
            Durval encarou mais uma vez o corredor.
            – Bom, vamos resolver esse mistério.
            Dolores estava com medo. Não sabia se fugia pela porta da frente indo atrás de Joana ou se ficava firme com o marido. Estavam casados há quase cinquenta anos, não abandonaria o homem agora. Segurou no braço de Durval e lá foram os dois pelo corredor.
            A porta da cozinha era um vão aberto em arco. A luz do sol entrava marcando a parede do corredor com sua luz amarela. Se havia um morto na cozinha, estava bem iluminado.
            O coração de Durval já havia sofrido dois enfartes, mas o homem tinha coragem, avançava passo a passo fitando a entrada da cozinha que ficava maior e revelava a enorme mesa de cedro envelhecida. O fogão de seis bocas encostado na parede. A geladeira, último modelo, de aço, com saída para água gelada sem precisar abrir a porta. A bicicleta ergométrica que Durval usava para se exercitar enquanto conversava com Dolores sempre que ela fazia bolos e guloseimas. E… o corpo. Estirado bem no meio do chão da cozinha. Estava de bruços, não dava para ver o rosto, mas parecia ser de homem. Usava calça jeans e camisa azul clara. Em volta da cabeça uma poça de sangue vermelho escuro.
            Ao lado do corpo, uma gata branca lambia o sangue.
Episodio II continua na próxima edição.
JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
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