O caminho até a casa de Botelho era intrincado e de difícil acesso. Morava em um sítio afastado do centro da cidade. Durval tinha um mapa, mas mesmo assim sempre se perdia. Por sorte o dia estava firme; as ruas de terra ficavam intransitáveis quando chovia, e o Corcel vermelho 78 de Durval não tinha tração para sair de um atoleiro de lama como já tinha acontecido uma vez.
     Durval sabia que o amigo professor de Biologia poderia lhe dizer se aquela mancha vermelha que tinha encontrado perto da poltrona era sangue mesmo ou não. Afinal seria uma forma de provar a si mesmo que não estava caduco como o delegado fizera parecer. Ele, sua mulher e a empregada Joana tinham encontrado um cadáver na cozinha da casa. Mas, como se isso não fosse surpreendente o bastante, o cadáver havia simplesmente desaparecido algumas horas depois.
     Durval sabia que a porta da cozinha era fácil de abrir por fora e, enquanto esperavam pelo delegado, alguém poderia ter entrado e retirado o corpo. Por outro lado, por que o delegado tinha demorado tanto na cozinha se não tinha encontrado nada lá? E aquela gata branca que estava o tempo todo ao lado do corpo? Durval nunca a tinha visto por ali antes. Será que era da vizinha?
     Durval estava se sentindo na ativa de novo. Adorava a sensação de investigar, e um caso de assassinato era o melhor que havia. Após anos de aposentadoria jogando Buraco com a mulher e Bocha com os tediosos amigos no bar da esquina, ele se sentia animado por estar envolvido em uma investigação de verdade.
     Depois de algumas estradas de terra sem saída e vários retornos, Durval chegou finalmente à casa de Botelho. A entrada do sítio tinha um portão de madeira entalhado em arco. E, acima, havia uma placa onde se lia “Quinta da Neblina”. De fato, à noite, não se enxergava nada naquele lugar. Durval deu uma buzinada e o caseiro manco veio abrir o portão. Se fosse noite, pensaria que estava prestes a entrar no castelo do Doutor Franskenstein.
     Botelho estava esperando sentado em uma cadeira de vime no terraço da casa. Ao ver o amigo, levantou-se e veio em sua direção. Era um homem alto e magro, com os cabelos brancos, meio amarelados, compridos e presos em um rabo de cavalo. Suas mãos eram grandes e ossudas e sempre chamavam a atenção de Durval quando o cumprimentava.
     — Botelho! Há quanto tempo…
     — Aqui não — interrompeu o professor de Biologia, e olhou para os lados. — Melhor conversarmos lá dentro.
     O caseiro manco era de confiança, estava com Botelho há anos. Mas, Durval já conhecia bem as manias e paranóias de Botelho. O homem era mais precavido que uma raposa velha. Quando mencionou o cadáver por telefone, o amigo nem quis conversar mais, achando que os telefones poderiam estar grampeados. Durval tinha consciência que se havia um cadáver, havia também um assassino, e que o sujeito não ia gostar de saber que alguém estava investigando. Mas o professor exagerava na precaução.
     Na sala da casa, Botelho fechou as janelas tomando o cuidado de não deixar nem uma fresta entre as cortinas.
     — Onde está a amostra? — foi logo perguntando.
     Durval tirou o plástico com o pedaço de tapete manchado de vermelho de dentro da mochila e entregou para Botelho.
     — A mancha está seca. Dá para saber se é sangue? — perguntou Durval.
     — Sangue é sangue, não importa se seco ou molhado. Vamos para o laboratório.
Episodio VII continua na próxima edição.
JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
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