— É uma pegada, não há dúvida — disse o professor.
O laboratório de Botelho ficava no porão da casa. O teto era baixo e Durval mantinha o corpo curvado para frente para não bater a cabeça nas vigas de madeira que sustentavam a casa em cima. As paredes eram repletas de prateleiras empoeiradas, abarrotadas de frascos de vidro, tubos de ensaio e aparelhos com mostradores de ponteiro. Alguns recipientes tinham líquidos amarronzados. Olhando de perto, Durval percebeu que havia pedaços de alguma coisa boiando nos líquidos, era mais uma massa arredondada parecendo embolorada, cheia daqueles pelinhos verdes que crescem no pão mofado.
— Brócolis! — disse Botelho.
— O que? — perguntou Durval.
— Dentro do balão que você está olhando. É brócolis. Usei para uma cultura de Rota Pulchra — falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Ahh…
— Fungo. Essa coisa verde que você está vendo em cima do brócolis. Minha ideia era desenvolver memórias para computador baseadas em proteínas vegetais. Microchips de espinafre — ele riu.
— Não deu certo?
— Deu sim! Mas… — Botelho abaixou a voz. — Não me deixaram continuar.
Durval já conhecia bem as paranoias e manias do amigo, mas achou educado perguntar.
— Quem não deixou?
Botelho aproximou-se de Durval e sussurrou:
— O governo, quem mais?
Durval arregalou os olhos e balançou a cabeça em sinal de concordância.
— Fui afastado da Universidade, obrigado a me aposentar. Nem lecionar mais eu pude. Um absurdo! Mas foi melhor do que ter minha memória apagada.
— Sem dúvida, sem dúvida — disse Durval.
— Bem, vamos voltar para sua mancha no tapete.
Botelho tirou um capacete da gaveta e colocou na cabeça. A traquitana não tinha a parte de cima, e na frente havia duas lentes que se encaixavam nos olhos, e uma lâmpada no centro da testa. Ele aproximou o pedaço de tapete das lentes.
— Hrum! — fez Botelho e apontou para a mancha.
— Acredito que seja do sapato do delegado — disse Durval.
— Esse delegado usa sapato de salto alto?
— Como é?
— Veja a marca, parece que isso é de um sapato de salto alto.
Realmente a mancha tinha duas partes, duas meias luas, uma para cada lado, uma maior e outra menor. Como se fosse a parte da frente do sapato e o salto logo atrás. Mas ninguém na casa usava salto alto. Dolores, desde que teve artrite nos tornozelos, usava só tênis. E Joana não arriscaria seus cento e trinta quilos em cima de um salto. Se não era do delegado, será que a mancha já estava no tapete antes de Moreira chegar? Uma mulher teria entrado na sala enquanto eles dormiam?
— Agora vamos ver se isso é sangue mesmo ou ketchup — disse Botelho.
Ele tirou dois comprimidos brancos de uma gaveta e começou a amassá-los com um pilão dentro de um recipiente pequeno.
— O que é isso? — perguntou Durval.
— Purgante.
— Purgante?
— Sim, ele tem uma substância chamada fenoftaleína. Eu preferia usar Luminol, que emite aquela luz azul quando reage com sangue que você nos filmes. Mas aqui usaremos purgante e soda cáustica de sabão.
Botelho misturou o pó em que os comprimidos se transformaram com álcool e com soda cáustica em um tubo de ensaio e agitou com suas mãos compridas.
Pegou um palito de madeira, molhou no líquido e passou na mancha. Levantou o palito no ar, olhando-o através das lentes do capacete.
E então, como por mágica, a ponta do palito acendeu como uma chama, tornou-se cor-de-rosa vivo. Parecia um chiclete luminoso de morango preso no palito de tão forte e brilhante que ficou.
— Sangue, meu caro! — disse Botelho.
Episodio VIII continua na próxima edição.
JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
jagramos@gmail.com