Durval estava todo espremido no banco de trás do Fusca de Joana. A mulher havia empurrado o assento do motorista todo para trás a fim de caber com seus cento e trinta quilos atrás do volante. Durval matutou como ela conseguia manobrar o carro com a direção espremida na barriga daquele jeito.

Ao lado dela, no banco da frente, Dolores estava animada. Contava um caso antigo em que Durval havia quebrado a perna ao subir no sótão da casa, queria descobrir a origem de um barulho que sempre ouviam durante a noite. Ele se lembrava bem, era um gambá que havia feito um ninho no forro da cozinha. A descoberta lhe custara três meses de gesso na perna.

Durval olhou para o gesso na perna esticada em cima do banco traseiro do Fusca, balançava para cima e para baixo com o trepidar do carro. Depois olhou para o braço também engessado. Pensou que pelo menos da outra vez havia descoberto o gambá.

Recapitulou as pistas que tinha até o momento. Uma pegada de salto alto no tapete da sala. Um cadáver desaparecido da cozinha de sua casa. Uma camionete Ford F1000. Duas pessoas no alto da ladeira, uma alta e magra, a outra baixa. Seriam Botelho e seu caseiro manco? Afinal Botelho tinha uma F1000.

Durval olhou pela janelinha do Fusca. Estavam atravessando o centro da cidade quando ele viu uma F1000 parada na frente de uma loja de materiais de construção. Um homem alto usando uma jardineira de brim desbotada carregava a carroceria com sacos de cimento. Durval pensou em pedir para Joana parar a fim de falar com o sujeito, mas quantas F1000 haveriam na cidade? Mais à frente viu outra parada no semáforo. Engraçado como não notamos essas coisas quando não pensamos nelas.

Quando chegaram em casa, Joana entrou com o Fusca na garagem e parou atrás do Corcel destruído. Durval saiu do carro auxiliado pelas duas e passou pelo Corcel antes de entrar na casa pela porta da cozinha. O Corcel mais parecia um amontoado de lata amassada. A porta do motorista estava entreaberta e ele pôde ver o volante retorcido como um pretzel. Uma pena. Era um bom carro, Durval o comprara zero. Gostava do formato quadradinho e da frente que parecia sorrir com o para-choque.

– Quem trouxe?, perguntou Durval.

– O Geraldo do guincho, disse Dolores.

Durval não quis pensar no que faria com o carro. Limitou-se a entrar em casa e ir até o sofá, onde desmontou com um gemido. Apoiou a perna engessada em cima da mesinha de centro e pegou o controle da TV.

– Quer alguma coisa, meu bem?, perguntou Dolores.

– Não, Dodô, estou bem.

– Chegou uma carta para você enquanto estava no hospital.

– Carta?

Dolores foi até a escrivaninha sob a janela da sala e trouxe o envelope. Era quadrado e feito de papel pardo. Na frente o nome e endereço de Durval, atrás não havia remetente. Durval gelou ao imaginar de quem poderia ser.

Abriu o envelope e tirou um papel branco. Ao terminar de ler, virou-se para Dolores:

– Ligue para a polícia, mulher.

Episodio XIII continua na próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
jagramos@gmail.com