Durval virou-se e viu Botelho parado no início do corredor. O professor de biologia estava ofegante, com a boca aberta, a língua para fora e os olhos arregalados, parecia que tinha visto um fantasma. Uma mão apoiada na parede, o corpo alto e magro meio tombado para frente como se fosse desmaiar a qualquer momento.

Durval apressou-se para ajudar o amigo, mas era difícil andar rápido com a perna engessada, mesmo firmando-se na bengala. Foi mancando até o professor e tratou de segurá-lo.

— Que houve, meu velho? O que aconteceu? Perguntou Durval.

— Eles…

— Quem?

— Descobriram…

— Quem descobriu o que?

As pernas do professor amoleceram e ele caiu no chão. Durval desequilibrou-se ao tentar amparar o amigo e acabou desabando por cima de Botelho. A bengala não adiantou nada para dar apoio, escorregou de sua mão indo parar no meio do corredor.

Enroscados no chão, Durval não sabia dizer se a perna à sua frente era dele ou do professor, mas devia ser do outro, já que o pé estava virado para trás. Apoiou a mão em cima da barriga de Botelho que soltou uma bufada de ar e um gemido, com a outra mão apoiou-se na parede e tentou erguer o corpo. Joana segurou o braço de Durval procurando levantá-lo. Parecia que estavam enroscados num enorme novelo de pernas e braços.

Por fim, Durval conseguiu ficar em pé segurando em Joana. Botelho permaneceu sentado no chão com a cabeça baixa, estava sussurrando alguma coisa meio abobalhado. Durval queria ir para o sofá descansar, havia perdido o fôlego com a queda e as tentativas de levantar, mas a curiosidade foi maior.

— O que ele está dizendo? — perguntou para Joana.

— Num sei, não — disse a empregada.

— Parece que está em choque.

Então, Durval lembrou-se como toda aquela confusão havia começado. Ele estava caminhando pelo corredor indo na direção da cozinha, pois havia ouvido a empregada cochichando ao telefone. Aquele devia ser o dia de todos cochicharem.

— Alías — disse Durval, — com quem você estava falando ao telefone agora à pouco na cozinha?

— Uai, seu Durval! Tá desconfiando de mim, sô? Tava falando com a minha mãe, benza Deus!

— Sua mãe? Você nunca falou na sua mãe.

— E eu lá preciso falar na minha mãe pro senhor?

— Tudo bem, tudo bem… Vamos ver se o levamos até o sofá.

Os dois levantaram Botelho pelos braços e o colocaram no sofá de dois lugares. Durval sentou-se na poltrona enquanto Joana foi até o corredor e trouxe a bengala, depois ela voltou para a cozinha.

Botelho encarava Durval com os olhos injetados por cima dos óculos redondos, como se tivesse alguma coisa séria e grave para revelar. As sobrancelhas grossas franzidas e erguidas no meio da testa.

— Fala, homem — disse Durval. — O que aconteceu, pelo amor de Santa Maria? Descobriram o que?

Botelho olhou em volta para ver se havia alguém ouvindo o que ele estava prestes a dizer. À exceção de Dolores que dormia no outro sofá e Joana na cozinha, não havia mais ninguém na casa. Então Botelho inclinou o corpo para frente e disse:

— Encontrei o cadáver.

Episodio XV continua na próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
jagramos@gmail.com