A camionete de Botelho pulava para cima e para baixo a cada buraco da rua de terra. Durval procurava manter sua perna engessada apoiada no assoalho do veículo, mas ela saltava para cima a cada tranco. Olhou para Botelho, o professor mantinha os olhos fixos no caminho, as duas mãos no volante e uma expressão sisuda no rosto, nem piscava. Era estranho ver Botelho calado, sempre tão falador e animado.

No meio dos dois, Dolores parecia ter se contaminado com o clima fechado de Botelho, a mulher estava imóvel olhando para frente, apertava a mão de Durval a cada solavanco do veículo.

“Encontrei o cadáver”.

A frase não saía da cabeça de Durval. Era certo que Botelho não batia lá muito bem da bola, cheio de paranoias, mas o professor de biologia havia dito em alto e bom som: “Encontrei o cadáver”. Depois da revelação bombástica, não houve muito tempo para conversas ou explicações, Botelho insistira em mostrar-lhes pessoalmente para não acharem que estava inventando.

Durval nem acreditava que depois de semanas de perrengues estava prestes a resolver o mistério. No entanto, não se sentia muito à vontade com o fato de Dolores ter teimado em vir junto. A mulher não tinha estrutura para se ver frente a frente com um cadáver, principalmente porque, depois de semanas, o dito não devia estar lá muito aprazível de se ver. Ia acabar desmaiando ou passando mal. Por outro lado, Durval ficaria ainda mais preocupado se não estivesse com Dolores por perto, vá que o assassino resolvesse ir até sua casa. O sujeito já havia tentado assassiná-lo empurrando-o de uma ribanceira, quem sabe o que poderia tentar agora?

Por outro lado, e Durval sentiu um frio na espinha quando o pensamento lhe ocorreu, eles poderiam estar exatamente ao lado do próprio assassino agora mesmo. Afinal, quando havia despencado da ribanceira dentro do carro, avistara nitidamente uma camionete F1000, igualzinha a de Botelho. Vá que o professor estava levando os dois para o cafundó do Judas para se livrar deles? Durval sentiu-se uma besta por não ter sido mais precavido.

Olhou mais uma vez para Botelho.

— É muito longe?

— Já estamos chegando. Paciência — disse o professor.

Durval olhou para a frente. A rua continuava em uma descida íngreme de terra. Olhou pela janela, o retrovisor do lado do passageiro mostrava o rastro de poeira que a camionete deixava para trás. Já deviam estar há mais de cinco quilômetros do centro, mais e mais embrenhavam-se pela periferia deserta da cidade. Um lugar perfeito para um duplo homicídio de um casal de velhos.

E então Botelho parou a camionete.

Durval olhou ao redor. Não havia nada. Só uma mata densa de um lado e um paredão de terra do outro.

— É aqui? — perguntou Durval.

Botelho não respondeu. Olhou pelo retrovisor, como que para certificar-se de que não haviam sido seguidos. Então puxou o freio de mão e saiu do carro. Foi até o lado do passageiro e olhou na direção da mata, depois virou-se para Durval e fez um sinal com um movimento da cabeça para que eles saíssem.

Dolores apertou com força a mão de Durval. O que quer que fosse acontecer, não havia mais volta. Durval abriu a porta e desceu da camionete.

Episodio XVI continua na próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
jagramos@gmail.com