A trilha pelo meio da mata era estreita e Durval mantinha uma das mãos à frente do rosto para que os galhos não furassem seus olhos. A outra mão segurava a bengala, melhor tomar todo o cuidado do mundo, não queria quebrar a outra perna numa queda. Dolores vinha atrás gemendo de irritação e impaciência. De vez em quando Durval a ouvia cuspir algum inseto que entrara na boca — o lugar era infestado de mosquitos. Botelho ia na frente, pisava com determinação e nem olhava para trás. Bem mais alto que Durval, parecia um louva-deus marchando na direção da presa.

Durval não estava nada à vontade com a ideia de embrenharem-se na mata com Botelho. Apesar de conhecer o professor de biologia há mais de três décadas, ele era justamente o único suspeito do assassinato que ocorrera em sua cozinha algumas semanas antes.

De qualquer forma, agora era tarde para arrependimentos. A insegurança que Durval sentia só era menor que a curiosidade que crescia a cada passo. Seria possível estarem prestes a encontrar o cadáver? E como o corpo teria desaparecido de sua cozinha para reaparecer a mais de cinco quilômetros de distância?

— Estamos quase chegando — disse Botelho sem olhar para trás. — Só mais alguns metros.

Durval começou a ouvir o barulho de água corrente, deviam estar perto de um rio. Se pelo menos tivesse algo com que se defender. Com a perna quebrada não poderia fazer muita coisa contra Botelho, mas mesmo assim, enquanto caminhava, vasculhou o chão ao redor, se encontrasse pelo menos um galho caído, quem sabe pudesse dar uma paulada em Botelho se ele tentasse alguma coisa.

O barulho da água ficou mais forte e logo Durval viu um rio caudaloso que cruzava a mata. Devia ter quase cinco metros de largura. Botelho foi margeando o rio até uma pequena ponte de madeira e parou esperando por Durval e Dolores.

— Pode confiar que a ponte é firme — disse Botelho. — Está velha, mas aguenta. Como nós, meu amigo! — Ele gargalhou antes de atravessar segurando nas laterais com suas mãos longas e ossudas.

Durval olhou para Dolores.

— Eu não piso nisso aí — disse a mulher.

Durval colocou o pé nas primeiras tábuas da ponte e deu três batidas com o calcanhar.

— É firme, viu? Pode vir.

Dolores suspirou e cuspiu outra asa de mosquito. Segurou-se em Durval e o casal atravessou a ponte de mãos dadas.

Chegando do outro lado, avistaram Botelho alguns metros à frente recurvado sobre uma pilha de galhos e folhas. Desajeitadamente tirava os galhos da pilha e jogava-os do lado. Estavam ainda verdes, parecendo ter sido cortados há pouco tempo para cobrir o que quer que Botelho estava prestes a revelar. E então, da folhagem, apareceu um caixão.

Dolores gemeu e deu um passo para trás de Durval apertando sua mão com força.

Mas não era um caixão comum, desses de madeira entalhada que se usa em enterros. Parecia ser de metal. Estava enferrujado, com limo e lodo grudados. Tinha duas alças de cada lado e a tampa era ligeiramente abaulada na parte de cima. Também possuía duas trancas na lateral como uma mala de viagem. Botelho destravou as duas com destreza e abriu o caixão.

Episodio XVII continua na próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
jagramos@gmail.com