Ex-primeiro-ministro de Portugal, António Guterres, foi escolhido por aclamação como o próximo secretário-geral das Nações Unidas. Guterres deverá assumir o cargo em 1º de janeiro de 2017. Ele conversou com a Rádio ONU sobre sua visão para o posto, os principais desafios do mundo e como as Nações Unidas devem responder às ameaças mundiais. Guterres também falou sobre a língua portuguesa e como ser português ajuda a promover o diálogo entre várias culturas.

Ao comentar a reforma da ONU e de seus três pontos para executar a proposta ele ressaltou a importância de uma implementação inclusiva.

Rádio ONU: Secretário-geral designado António Guterres, parabéns pela sua nomeação. Se fosse possível, eu gostaria que nós nos transportássemos para o dia primeiro de janeiro de 2017. O mundo marcado por vários conflitos na África, na Síria, no Iêmen e outras partes. Impasse no Conselho de Segurança em alguns temas. O maior número de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Qual será sua primeira medida como novo líder da ONU?

António Guterres: Eu não diria uma medida. Eu diria uma estratégia. E esta estratégia passa por um impulso muito forte à diplomacia para a paz. Nós assistimos hoje, como disse, a uma multiplicação terrível de conflitos. Os velhos conflitos não terminam. E os conflitos estão ligados não só entre si como ao terrorismo internacional. E por isso é preciso… E o secretário-geral não pode resolver este problema sozinho. Não tem instrumentos de poder para o fazer. Mas é preciso pôr toda a sua capacidade de persuasão como um catalisador, como um construtor de pontes no sentido de levar a que aqueles Estados, que têm influência sobre a situação de conflitos que existem, compreendam que hoje as divisões que possam ter entre si significam muito pouco face à unidade de interesses que tenham para restabelecer uma segurança coletiva da humanidade. E que esta unidade de interesse os deve levar a colaborar ativamente para pôr fim aos conflitos trágicos a que estamos a assistir.

RO: O Sr. é descrito pelos seus pares como alguém que fala com todos e ouve todos. Alguns embaixadores dos países de língua portuguesa dizem que esta é também uma tradição de seu país de origem: de construir pontes, de dialogar com povos diferentes. Até que ponto falar português deve ajudar o seu trabalho como próximo secretário-geral?

AG: Há com certeza no passado colonialista português muitas questões negativas que têm que também ser assumidas. Mas se alguma coisa é verdadeira na história de Portugal é esta lógica de ser uma permanente encruzilhada de civilizações. É a miscigenação permanente em todas as partes do mundo e no próprio país. E isso ajuda muito a compreender o mundo que é hoje em toda parte multicultural, multiétnico e multireligioso. E a compreender que as diferenças são enriquecedoras e a compreender que todos têm alguma coisa importante a dizer e que todos têm que ser ouvidos para que o mundo possa progredir de uma forma positiva. E neste sentido, confesso que gosto muito de ser português. Tenho um grande orgulho nisso. E o mundo de língua portuguesa é um mundo de uma variedade extraordinária em todos os continentes e que tem dado contributos muito importantes à civilização universal.

RO: O Sr. aposta no sucesso da reforma da organização e cita três passos: implementação, implementação, implementação. Como ela deve ocorrer na prática?

AG: Bem, isso é muito cedo para responder efetivamente. Na medida que essas coisas têm que ser feitas com boa auscultação, com boa participação de toda a gente. Com grande determinação para tornar a organização mais eficaz e sobretudo para os recursos cada vez mais orientados para aqueles que devemos servir. Mas, como digo, isso não é feito numa lógica autoritária de cima para baixo. Ela tem que ser feita numa lógica participativa, de diálogo e de persuasão também para ter êxito. Uma reforma que não é assumida por todos como sua é uma reforma que tende a falhar. E eu espero que seja possível nas Nações Unidas fazermos um grande esforço para tornar a organização mais eficaz e sobretudo mais virada para aqueles que dela necessitam. Mais descentralizada, mais ligada aos problemas das pessoas em todos os cantos do mundo, onde as Nações Unidas hoje desempenham um papel tão importante.