— Como assim “ele é o assassino”? Foi a pergunta que Durval fez a Dolores assim que entraram em casa.

Ele a acompanhou até a cozinha onde ela lhe preparava um sanduíche de queijo com tomate.

— Quer leite também?

— Sim, meia caneca — ele respondeu.

No momento em que ela abriu a geladeira, Durval ouviu um miado. Olhou para o chão e lá estava a gata branca.

— E essa gata? O que faz aqui?

— Ela estava na porta da frente quando cheguei. Parecia que queria entrar. Não sei de quem é, mas deve ser de alguém. Tem até uma fitinha no pescoço.

Dolores colocou a caneca com leite no micro-ondas.

De fato, havia uma fita vermelha no pescoço da gata. Parecia até que tinha alguma coisa escrita com letras brancas na fita. Mas Durval não estava com nenhuma vontade de abaixar-se para ler.

— Me fale de uma vez, mulher! O que você quis dizer com o Botelho ser o assassino? Não me deixe assim nessa agonia!

— Fui até a casa do Heitor hoje a tarde.

Dolores serviu o sanduíche com leite para Durval.

— O Heitor marido da Melinda? Então era lá que você estava… O que foi fazer lá?

Durval deu uma bocada no sanduíche e bebeu um gole de leite.

— A Melinda veio até aqui e disse que eles queriam falar comigo. Então fui ali na casa deles na esquina.

— E? — Durval perguntou mastigando uma nova bocada do sanduíche.

— Eles me mostraram uma fotografia do Botelho quando ele era novo. Num laboratório. Parecia coisa do exército. Tinha uns homens de farda atrás. Ele estava de jaleco branco ao lado de uma maca. E na maca, havia um…

— Um o que, mulher?!

— Parecia ser um… corpo.

— Como assim “parecia”? Era ou não era um corpo?

— É que tinha… — Dolores colocou a mão na boca e sentou-se.

Durval parou de mastigar.

— Tinha… chifres, Durval.

— Chifres?

— Sim. Parecia ser uma pessoa com chifres.

Durval deu uma risada curta.

— Uma pessoa com chifres.

— Sim. Eram chifres como os de um bode ou carneiro. Mas devia estar morta, a coisa. Os olhos fechados.

— Isso não faz o menor sentido, Dodô. Você sabe que não faz — Durval deu outra mordida no sanduíche.

— Não sei, não. Vá que o Botelho era metido com alguma coisa de experiência genética do governo, sei lá.

Durval explodiu numa risada que o fez soltar um monte de migalhas de pão pela boca.

— Experiência genética? E então ele fez um híbrido de homem e bode?

— Eu não sei! Só sei que não confio mais nele.

— E por que ele seria o assassino? Se fez experiência genética isso não o incrimina como assassino, não é mesmo?

— É. Mas o Heitor e a Melinda me contaram uma outra coisa sobre ele.

— Contaram o que? — Durval parou de comer de novo.

— Disseram que no dia que o cadáver sumiu da nossa cozinha, o viram colocando um saco preto grande na carroceria da camionete dele.

— Lixo.

— Mas ele estava tirando o saco preto pelos fundos do nosso quintal.

Episodio XXVII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com
jagramos@gmail.com