Muitas vezes temos a impressão de que as pessoas andam sem ter nada a dizer, ou a nos responder, diante das mais simples e até mesmo obvias indagações. Chego a ficar com a sensação de que o maior problema do mundo, tem sido a busca de se tentar fugir dos próprios problemas. Nada a dizer, nada de sonhar, nada que valha a pena debater e principalmente, nada de querer compreender-se. Lógico que só é possível se entender alguma coisa ou alguém se tivermos um termo de comparação. Precisa-se sempre de um padrão, mesmo que imperfeito, para que possamos vir a ter uma visão comparativa e posteriormente uma possível compreensão. Então como nos compreendermos, se em nossos dias andam tão raras as oportunidades de se encontrar padrões, referências, ou em outras palavras, valores que estejam bem desenhados, a ponto de nos servirem de parâmetro? Quanto à expressão “talvez” se torna mais comum que as expressões “certo” ou “errado”; quando a idéia defensiva e covarde do “sei lá” parece ser a mais simpática e aguardada por todos, chegamos à infeliz conclusão de que estamos diante de uma espécie de “globalização dos desejos e das expressões”, em detrimento do aflorar das verdadeiras necessidades e características individualidades de cada humano.

Repare que para se obter um acorde musical harmônico, os músicos partem da somatória de notas individuais e diferentes, que se completam. Cada dedo precisa estar posicionado de maneira sólida e bem definida sobre cada corda ou tecla do instrumento. Se imaginássemos um acorde em que todos os dedos repetissem a mesma nota, sem dúvidas teríamos um som “tosco” e despersonalizado.

Também as pessoas, quando insistem em acalentar sonhos e expressões comuns e repetitivas aparentemente “comuns a todos” acabam por se tornar, se é que podemos usar essa palavra, despersonalizadas. De tanto se cultivar o receio de ser reconhecido em suas verdadeiras características, muitos acabam por se esquecer quem realmente são, e ai o que sobra é um vazio. Cuidado! De tanto olhar para fora, pode se acabar ficando com saudade de si mesmo.

Desconhecer-se enquanto ser único e por outro lado temer a incapacidade de se tornar mera réplica de uma maioria, só nos garante uma certa “sem graceza” do existir. A vida sem graça e sem perspectivas sempre será uma porta escancarada para a entrada de “certas coisas estranhas” que ilusoriamente serviriam para completar esse nosso ser. Dentro desse quadro, problemas como a desatenção escolar, a apatia e a agressividade generalizadas, bem como a necessidade do uso de drogas parecem ser alguns dos remédios ou ações mais fáceis e práticas, na hora de se tentar aliviar a sensação de impotência.

A impotência de se auto gerenciar.Se a impotência de se viver com esse vazio parece ser assustadora, experimente pensar a respeito de uma frase escrita por Gilberto Gil: “… é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar“. Será, por mais antiquado que isso pareça, que não está passando da hora de se retornar ou buscar alguns novos valores; afim de que podendo nos comparar a alguns parâmetros bem definidos, possamos vir a reencontrar e redesenhar nossa própria e interessante personalidade, com toda as suas sutilezas e importância para a harmonia desse nosso mundo.

Quanta coisa boa poderá acontecer quando cada um de nós se predispor a gastar um “tempinho” a mais, tentando descobrir o “ar” de seu próprio copo?

GUILHERME DAVOLI
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