O ex-ministro do Fome Zero no Brasil conversou com a ONU News na Conferência Global sobre os Oceanos, que juntou centenas de representantes de países em Nova Iorque.

Graziano da Silva falou da visita a nações africanas em parceria com o Programa Mundial de Alimentação, PMA. O Sudão do Sul foi o mais recente destino do chefe da FAO que também esteve no nordeste da Nigéria e na Bacia do Lago Chade para acompanhar a assistência a países africanos. Ele conversou com Monica Grayley e Eleutério Guevane, da ONU News.

ONU News (ON): Qual é a mensagem da FAO para esta Conferência sobre os Oceanos, uma vez que os oceanos têm papel fundamental na cadeia alimentar de todos, em todo o mundo?

Graziano da Silva (GS): A mensagem é exatamente esta: nós queremos chamar a atenção que os oceanos representam uma contribuição muito importante hoje. E vão ser mais importantes ainda no futuro da alimentação da população terrestre. Os oceanos ocupam 3/4 da nossa terra e hoje os seus recursos estão sendo dilapidados. Se nós não encontrarmos uma maneira de reverter essa situação, de cuidar melhor dos nossos oceanos e preservar essa riqueza para o futuro, isso vai comprometer a sustentabilidade do planeta. Essa é a mensagem da FAO.

ON: E o senhor tem falado também sobre a questão da contaminação nos oceanos. O que é que a FAO pode fazer com os governos, com a sociedade civil, mas também com cidadãos, como cada cidadão pode ajudar nessa tarefa?

GS: Os oceanos têm sido tratados como uma lixeira. Tudo o que a gente não quer na terra a gente joga no mar. Essa concepção, que vem de longa data, não é de hoje, tem acumulado, literalmente, um montão de lixo nos nossos oceanos. As estimativas são que, em 2050, se nós continuarmos na mesma tendência, nós vamos ter a mesma quantidade de plástico nos oceanos, em peso, que de peixe. Então, temos que reverter essa situação, temos que encontrar uma forma de parar e de limpar os oceanos. Não basta só parar. O grande desafio também é como evitar que essa acidificação em curso e que outras formas de poluição, principalmente a do plástico, sigam crescendo. Há recursos para isso, a tecnologia hoje é dominada, não há dificuldade. Há uma questão financeira, sem dúvida, é mais barato jogar o lixo no oceano do que tratá-lo, reciclá-lo, mas a tendência aponta numa reversão. Hoje, por exemplo, é econômico a reciclagem do plástico. O problema está na coleta seletiva. E aí o cidadão pode contribuir muito: se você joga plástico junto com outros componentes (metálicos ou mesmo orgânico), comece a separá-lo. Comece a separar ele na sua casa, põe a sacolinha, fale na sua cidade com o departamento de lixo se eles têm um setor separado, específico, para a coleta disso. Milhares de pessoas no mundo hoje vivem dessa coleta seletiva e da renda gerada pela reciclagem de resíduos plásticos. Você pode contribuir muito para isso e ajudar a preservar o planeta e os oceanos.

ON: Diretor-geral, existiria, no caso, uma possibilidade de taxação maior sobre indústrias ou sobre quem polui os oceanos e mares, de uma maneira geral?

GS: Olha, a taxação é um mecanismo, sem dúvida, que pode ser utilizado. Mas ele tem se revelado ineficiente especialmente a partir de um certo nível. Toda vez que você taxa há uma forma ilícita de burlar essa taxação. E o controle é muito caro. Toda taxa tem um mecanismo de controle que é muito custoso, então eu não sou contra a taxação, não, acho que é parte do arsenal que tem que ser utilizado, mas acho que o principal é, realmente, a educação dos consumidores. Nós podemos fazer muito mais do que estamos fazendo e acho que aí é que está o segredo. Se nós aprendermos que, em vez de jogar fora o plástico do nosso sanduíche, da nossa embalagem, começarmos a utlizar outras formas, isso pode contribuir muito. Se nós mesmos banirmos o plástico do nosso uso no dia-a-dia, quando vai ao supermercado, leve a sua sacola. A gente fazia isso antes, por que é que não pode fazer isso agora? Eu acho que são formas de contribuição pequenas, mas que, quando colocadas em conjunto, são significativas para combater essa poluição.

ON: E agora vamos falar de Economia Azul. Nós conversávamos com a ministra do Mar de Portugal e ela mencionava que o equivalente ao Produto Interno Bruto de Portugal da Economia Azul é um pouquinho mais de 3%, ela dizia que existe muito potencial para aumentar essa performance não só em Portugal mas também em outros países. A FAO pode ajudar nessa equação?

GS: Nós temos trabalhado muito com os países nórdicos e também com os países europeus para disseminar uma série de tecnologias. Vale lembrar que nós conhecemos do mundo o bacalhau, né, criado pelos nossos antepassados portugueses, uma forma simples de preservação do peixe que hoje está disseminado em todo o mundo. Essa tecnologia, por exemplo, tem sido levada pela FAO à África, também a tecnologia da defumação, hoje nós temos mulheres na África, que aquele peixe pequeno, que antes era jogado fora e era desperdiçado, hoje é utilizado como um defumador, inventado, digamos, pela FAO e disseminado nos países africanos, que tem gerado uma boa renda para as mulheres e tem ajudado muito na alimentação. O peixe é o futuro da nosssa alimentação. O peixe, pelas qualidades, pela proteína que tem, é o futuro da alimentação humana.

MONICA GRAYLEY
ONU News em Nova Iorque para o The Brasilians Newspaper