Durval percebeu que não havia bebido nem um gole sequer do suco de melancia que Melinda havia lhe servido. Apoiara o copo em cima da perna engessada e lá ele ficou enquanto Heitor contava sobre sua incursão ilícita nos tais laboratórios do exército onde Botelho havia trabalhado.

— Não vou dizer que me arrependi de ter entrado naquele lugar. Se fosse hoje faria tudo de novo, mas te digo que quase 30 anos depois ainda sinto calafrios quando lembro do que vimos naquele dia.

“Caminhamos por um corredor lar-go repleto de tanques de metal ligados a tubos que corriam pelo teto e se conectavam a máquinas que eu nunca havia visto na vida.”

​“O Aspirante-a-oficial Gouveia disse que queria voltar, que não ia prosseguir com aquilo. Eu o ameacei. Não lembro o que disse, mas o homem seguiu conosco. Eu confiava no Segundo Tenente De Matos, mas não em Gouveia, não devia tê-lo incluído naquela investigação.”

“No fim do corredor havia uma porta dupla de aço. Perigo, risco biológico, dizia uma placa. Proibida a entrada de pessoas não autorizadas.”

“Como eu suspeitava a porta estava trancada. Gouveia suspirou aliviado ao meu lado. Tirei a chave do bolso e abri. Não sou idiota, era óbvio que as portas estariam trancadas, havia conseguido a cópia com um soldado dias antes.”

“Enfim entramos. O lugar estava escuro e vazio como era de se esperar àquela hora. Tateei em busca do interruptor. Quando as luzes fluorescentes acenderam pudemos ver que a coisa era maior e mais aterradora do que havíamos imaginado.”

“O laboratório devia ter sete ou oito metros de altura. Na parte mais alta havia várias janelas envidraçadas que deviam dar para uma plataforma de observação. No centro, o que pareciam ser duas mesas de cirurgia cercadas por outras menores com instrumentos. Na lateral uma estrutura que descia do teto com monitores, painéis e teclados de computador. Ao lado dela dois cilindros transparentes, dentro dos quais caberia um homem, acoplados a tubos que subiam até o teto.”

“Desci a pequena escada a partir da porta. Numa das paredes havia uma estante cheia de frascos grandes e pequenos com o que me pareceram ser pedaços de carne. Aproximei-me e vi o que eram realmente. Fetos humanos com deformações anatômicas boiavam em um líquido amarelado. Alguns eram gêmeos siameses, outros possuíam quatro ou mais pernas ou braços. Notei que na maioria deles havia uma sutura de autópsia atravessando o peito. Em um dos frascos havia um animal com pelos e chifres. Bem podia ser um feto de carneiro, mas os olhos entreabertos, nariz e boca pareciam muito humanos. Na prateleira de cima vários crânios, grandes e pequenos. Alguns nitidamente não eram humanos. Ou pelo menos não de humanos normais.”

”Então vi um crânio que enquanto eu viver não vou esquecer. Tinha chifres largos como um punho fechado saindo da testa e enrolando-se nas laterais. Os dentes eram afiados e pareciam sorrir malignamente. Te digo, Durval, era a própria caveira do diabo.”

“Foi então que o alarme soou”.

Episodio XXXIV continua na próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
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