— Mas afinal o que era o barulho do rugido que vocês ouviram no laboratório? — Perguntou Durval.

— Até aquele momento nenhum de nós sabia — disse Heitor. — Acho que até alguns soldados do pelotão não faziam ideia de que o exército mantinha uma fera presa no laboratório subterrâneo. Dava para ver nos rostos deles que estavam apavorados mesmo depois que Botelho atirou algum tipo de dardo tranquilizante no bicho. Até porque de quando em quando ouvíamos um grunhido do animal atordoado.

“Os soldados continuavam nos procurando pelo laboratório, mas não se aproximavam da parte de trás, onde devia ficar a jaula. De minha posição eu não conseguia ver muita coisa. Permaneci imóvel, deitado em meu esconderijo na estrutura de metal que ficava acima da mesa de cirurgia, enquanto os soldados revistavam cada milímetro do recinto. Botelho continuava perto da porta caminhando lentamente de um lado para o outro como uma fera antes de dar o bote na presa.

“Ouvi então uma gritaria e entendi que haviam descoberto o Segundo Tenente De Matos. Ao que parecia ele havia se escondido embaixo de uma das mesas de cirurgia. Bateram no homem, Durval. Como bateram naquele pobre homem. Chutes, socos, coronhadas de fuzil no rosto, um soldado chegou a torcer o braço dele para trás com tanta força que deu para ouvir o barulho do osso destroncando do ombro. De Matos caiu no chão e lá ficou encolhido enquanto uma dezena de soldados lhe deram uma surra. Cheguei a achar que iam matá-lo.

“Seu amigo Botelho só olhava e não fazia nada. Sei que ele era civil e portanto não podia dar uma ordem direta aos soldados. Mas extraoficialmente ele era o mandachuva naquele lugar. Ficou lá parado olhando De Matos apanhar como um boi ladrão. Não sou emotivo, você sabe. Mas naquela hora senti pena do homem. Cheguei a pensar em pular em cima daqueles covardes para impedi-los de matar o infeliz.

“Por fim, Botelho foi até os soldados e lhes disse cinicamente que parassem com aquilo.

“Só quando levantaram De Matos foi que pude ver o estado horrendo em que o deixaram. O lábio inferior estava cortado e uma parte pendia quase até o queixo. O nariz estava visivelmente quebrado, achatado para dentro do rosto e virado de lado. Um dos olhos estava fechado e no outro dava para ver o pavor que ele estava sentindo.

“Botelho aproximou-se e disse que não queria saber o motivo dele estar ali, só queria saber se havia mais alguém envolvido naquela invasão criminosa além dele e de Gouveia que os soldados haviam capturado enquanto tentava fugir pelas escadas. De Matos balançou a cabeça e balbuciou que não.

“Acho que enquanto eu viver não poderei agradecer o suficiente a De Matos por aquilo. Um amigo de verdade. Levaram De Matos para fora do laboratório. Botelho foi o último a sair. Apagou a luz e murmurou alguma coisa que não consegui entender.

“Acabei trancado no laboratório com a fera prestes a acordar do efeito do tranquilizante. Só torci para que estivesse presa”.

Episodio XXXVII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com