Após quatro anos como Cônsul-Geral do Brasil em Nova York, a Embaixadora despede-se do posto para encarar novos desafios, dessa vez no continente asiático.

Em entrevista exclusiva para o The Brasilians, a embaixadora Ana Lucy Gentil Cabral Petersen, analisa os quatro anos de gestão no Consulado de Nova York e destaca as conquistas e os desafios porque passou. Ana Lucy deixa o consulado brasileiro mais movimentado do mundo e segue para Bangkok, capital da Tailândia.

The Brasilians: Em Nova York, a senhora assumiu a chefia do mais movimentado consulado brasileiro no mundo. Como a senhora avalia os seus quatro anos de gestão?

Ana Lucy Gentil Cabral Petersen: Quando eu cheguei aqui, embora as pessoas me dissessem que era tudo uma maravilha, constatei que todo mundo reclamava pelo tempo da demora dos documentos. Então, acho que a grande conquista neste período que estou aqui foi conseguir mais pessoal para trabalhar avaliando a solicitação de documentação. Há um ano e meio mais ou menos, nós conseguimos transformar este consulado num consulado exemplar. Ou seja, a pessoa chega com seus documentos preenchidos e com o pagamento da emissão do documento e 90% das solicitações saem na mesma hora. Algumas não saem porque somos obrigados a fazer uma checagem de nomes junto a Polícia Federal no Brasil. Alguns tem problemas na justiça brasileira como, por exemplo, o não pagamento de Imposto de Renda. O nome fica retido e nós temos que fazer uma consulta a Brasília. Isso pode levar entre dois a três dias. Mas acho que todos estão satisfeitos. Nós atendemos 400 visitas diárias. São 300 documentos feitos durante a manhã e 100 a tarde quando concentramos nas solicitações de estrangeiros.

TB: Então, a senhora tem percebido um retorno mais positivo da comunidade?

ALGCP: Tenho sim e isso me deixa muito contente sobretudo porque enfrentei reclamações quando cheguei pois as pessoas não conseguiam produzir os seus documentos. Quando eu cheguei, para você marcar para vir ao Consulado levava dois meses. Aí a pessoa chegava aqui e levava mais dois meses para conseguir um passaporte. No início, eu achava que o problema era muito volume, mas depois me dei conta que com a vinda de mais funcionários preparados seria possível agilizar essas solicitações. O sistema consular também foi melhorado e modernizado. A gente ainda sofre com falhas nesse sistema, mas isso não temos muito como evitar porque não está aqui no Consulado, é uma rede global que funciona o tempo inteiro.

TB: E os desafios, quais foram?

ALGCP: O desafio é justamente convencer as pessoas de que o mundo mudou e que era preciso agilizar o atendimento. Mas eu acho que a política de assistência consular a brasileiros consular mudou muito nos últimos anos. Quando eu entrei na carreira, esta era a parte negativa e difícil no Brasil. Hoje em dia, a razão de ser do Consulado é sem dúvida atender a comunidade brasileira.

TB: Logo no início da sua gestão, houve uma denúncia de corrupção envolvendo funcionários do Consulado de Nova York pela Revista Isto É. Isso acabou gerando uma investigação por parte do Itamaraty. Qual foi o resultado dessa investigação? O governo brasileiro tomou medidas para evitar que isso volte a acontecer?

ALGCP: De fato foi detectado aqui uma fraude séria que vinha de muitos anos. Eu não posso comentar porque este tema está sendo ainda avaliado criminalmente no Brasil tanto pela Advocacia Geral da União como pela Polícia Federal. Não tenho dados detalhados sobre como isso está sendo levado. Aqui nos Estados Unidos, isso também está sendo avaliado pelo Attorney General de Nova York. Por outro lado, nós tentamos melhorar o que foi detectado. O que era? Justamente ter mais pessoal com mais preparo para considerar e autorizar a documentação. Quer dizer, o pessoal que avalia é todo da carreira diplomática, não sendo diplomata, é assistente de chancelaria ou oficial de chancelaria. Há também a questão dos despachantes que aqui antes chegavam a qualquer momento. Eles passaram a ter normas e são recebidos apenas em determinados dias. Eles têm que se registrar no Consulado e aceitar que suas solicitações são avaliadas. Por que isso? Porque constatamos que há despachantes que apresentam documentos falsos; isso é um absurdo porque prejudica a pessoa interessada no documento. São preocupações que nós temos tido para que o nosso trabalho seja mais correto e eficiente.

TB: Os consulados itinerantes são importantes para os brasileiros que vivem mais distantes da cidade. Contudo houve uma diminuição no número de itinerantes. Por que?

ALGCP: Os consulados itinerantes são importantíssimos para atender a comunidade brasileira. Quando cheguei tinha um por mês. O corte dos itinerantes foi em razão das dificuldades financeiras do Ministério das Relações Exteriores. Nós temos o maior interesse em fazê-los, não só porque passamos a conhecer melhor a comunidade daquela localidade, mas também porque a nossa função aqui é justamente trabalhar para os brasileiros. Este ano nós realizamos três consulados itinerantes e isso é muito pouco. Para tentar ajudar a melhorar essa situação, criamos o “Consulado na Comunidade”. Os funcionários daqui, vão a Newark e Long Branch como se fosse um dia de trabalho normal, mas não têm o benefício de diárias ou coisa assim. Por isso, eles têm que ir e voltar no mesmo dia. É um equivalente ao itinerante. Mas, infelizmente, não dá para ir muito longe porque os funcionários precisariam dormir e aí entra na história da falta de dinheiro e não temos como pagar diárias. Tentamos estimular a ajuda de todos. No geral, são voluntários que se prontificam a aceitar fazer isso e retribuímos com tempo livre.

TB: O Consulado de Nova York tem percebido um aumento no número de imigrantes brasileiros em decorrência da crise no Brasil?

ALGCP: Não temos nenhum registro de aumento. No ano passado, segundo dados americanos, o número de turistas brasileiros que visitaram Nova York foi de cerca de um milhão. Mas nós não temos registros de imigração brasileira. O consulado é acionado quando há problemas, ou seja, rejeição, deportação, extradição, prisão. Não temos registro de aumento desses casos. Temos percebido sim o aumento do medo, ansiedade, preocupação da comunidade. Adotamos várias iniciativas, como criar uma cartilha para que as pessoas que são detidas tenham consciência de que elas podem solicitar um advogado, que elas têm que ter documentos etc.

TB: Após passar por muitas outras cidades, a senhora despede-se de Nova York. O que mais gostou e vai sentir falta na capital do mundo?

ALGCP: Eu acho que a variedade de Nova York, a mega cidade que ela é, a facilidade de se encontrar tudo, a riqueza cultural, acho que tudo isso influencia a cada um que chega aqui. É logico, a gente nunca consegue conhecer tudo o que tem na cidade pela variedade das opções, mas a riqueza que se apresenta aqui em termos culturais, a gastronomia, tudo o que você quiser e sonha se consegue aqui, então isso facilita muito a vida. Por outro lado, não sendo americana, eu não tenho que sofrer a disputa do dia-a-dia que a gente vê na cara das pessoas que estão aqui para ganhar a vida e um futuro. Tem outra coisa também, o custo de vida. Supermercado há três anos tinha um preço e hoje tem outro. O alugueis são tão caros em Manhattan que você acaba morando fora. Quem tem filhos, por exemplo, não tem condições de morar aqui e opta por morar em New Jersey ou ao norte de Nova York. Aí não curtem tanto a cidade.

TB: Qual é o destino da senhora agora?

ALGCP: Irei para Bangkok, na Tailândia. Será a minha primeira vez como Embaixadora no continente asiático.

TB: Que recado a senhora deixa para a comunidade brasileira de Nova York?

ALGCP: Nosso interesse é servir cada vez melhor a comunidade brasileira e estamos abertos a sugestões. Estou bem atenta aos itinerantes e temos feito pleitos a Brasília sobre a necessidade de dar continuidade a isso. Gostaria de lembrar que no próximo ano vamos ter eleições federais. Aqui no exterior votamos apenas para Presidente. Neste consulado há cerca de 20 mil inscritos para votar. Então, seria bom que todo mundo estivesse atualizado com o seu registro para votar. No momento, o atendimento para transferência e retirada de Título de Eleitor está aberto e deve fechar mais próximo das eleições.