Drone é um veículo aéreo não tripulado e controlado remotamente que pode realizar inúmeras tarefas. Utilizados tanto em guerras quanto para entregar pizza, estes equipamentos estão cada vez mais presentes em diversos lugares do mundo.

Em português, o dispositivo pode ser chamado também de VANT, acrônimo para veículo aéreo não tripulado, ou VARP, sigla para veículo aéreo remotamente pilotado — “drone” é uma palavra em inglês, que significa zangão.

É óbvio que os drones utilizados na guerra são diferentes daqueles que a Amazon tentou usar para fazer entregas. Mas este tipo de dispositivo, que foi “importado” da indústria bélica, vem ganhando cada vez mais aplicações úteis e geniais dentro da sociedade.

Apesar de ter sido criado para fins nada nobres, os drones foram “apropriados” pela sociedade civil e, atualmente, são empregados em diversas tarefas úteis, como o monitoramento de fronteiras, estradas e florestas, auxílio em plantações, cinegrafia, fotografia e muito mais.

Ele é parecido com um morcego, embora seu nome oficial seja eBee (de abelha eletrônica, em inglês). Pesa menos de um quilo, voa a uma velocidade de 45 quilômetros por horas, tem uma câmera acoplada de 16 megapixels e autonomia de 45 minutos. Os funcionários da fabricante de celulose Eldorado, em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, no entanto, o apelidaram de “dedo-duro”. A alcunha faz sentido. Esse pequeno robô voador, fabricado pela suíça senseFly, sobrevoa as plantações de eucaliptos da companhia da holding J&F, da família Batista.

Sua missão: encontrar mudas que não foram plantadas da forma correta. Se localizadas a tempo, dá tempo de replantá-las e evitar a perda. Daí o apelido. Com mais de 160 mil hectares de área plantada de eucaliptos, matéria-prima para fazer a celulose, os drones são a melhor forma para monitorar essa gigantesca área, que equivale a 160mil campos de futebol. “Os drones são uma grande inovação que vai mudar o panorama dos negócios”, afirma José Carlos Grubisich, presidente da Eldorado, dono de vários drones. É bom levar a sério as palavras de Grubisich.

Surgidos como poderosas e polêmicas armas de guerra, esses veículos aéreos não tripulados estão invadindo o universo empresarial e vão influenciar diversos setores, do comércio global à logística, passando pela área de prestação de serviços. De uma forma ou de outra, todos eles vão ser inexoravelmente influenciados pelos drones. As cifras movimentadas pelos drones civis já são bilionárias em todo o mundo, segundo cálculos da consultoria americana Teal Group, especializada na indústria aeroespacial. Em sete anos, esse mercado deve mais do que dobrar, atingindo US$ 11,2 bilhões.

Muitos analistas acreditam que se trata de uma previsão conservadora, dado o número de projetos que devem começar a sair do papel a partir de agora. Mais: lembram que esses dados não levam em conta a inexistência, ainda, de regulamentação dessa atividade, o que se constitui numa barreira para uma expansão maior (de forma resumida, é preciso definir o espectro de frequências para operar essas máquinas voadoras e estabelecer regras de ocupação do espaço aéreo).

Só no mercado americano, por exemplo, há um potencial anual de US$ 10 bilhões adicionais, caso haja uma legislação de uso para os drones civis, de acordo com a Auvsi, associação americana que representa os fabricantes desses aviões.

Nada disso, no entanto, parece arrefecer o apetite das empresas.

Assim como a Eldorado, muitas delas já estão usando drones em suas operações ou trabalham com projetos-pilotos inovadores, que prometem transformar para sempre as paisagens das grandes cidades e das áreas rurais. É o caso da companhia de geração de energia AES Tietê, de São Paulo, que usa o mesmo drone da Eldorado para monitorar suas redes de transmissão. “Antes, um relatório de ocupação irregular demorava uma semana para ser concluído”, diz Ítalo Freitas Filho, diretor-geral de geração da AES Tietê, que investiu R$ 200 mil em um drone. “Agora bastam dois dias.”

A agricultura vem liderando a adoção dos drones no Brasil. Estima-se que pelo menos 200 deles estejam sobrevoando as plantações. “Os drones são os olhos dos agricultores na lavoura”, afirma Lúcio André de Castro Jorge, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de São Carlos, no interior paulista.”Eles são uma ferramenta essencial para a agricultura de precisão”. O caso da Eldorado é mais uma vez ilustrativo. A empresa utiliza as fotografias feitas pela eBee para fazer uma avaliação do plantio. “Dá para comparar as imagens captadas em diferentes períodos e acompanhar o desenvolvimento da floresta”, afirma Carlos Justo, gerente de planejamento da Eldorado.

Mundialmente, os projetos com drones são mais ousados, como se tivessem saído de livros de ficção científica.

O empresário americano Jeff Bezos está na linha de frente des- sa área. Bezos já revolucionou o comércio mundial com a Amazon, virou de cabeça para baixo o mercado de livros, com o seu e-book Kindle, e foi um dos primeiros a investir em serviços de computação em nuvem. Agora, ele reinventa o setor de logística. Os drones são parte essencial disso. Em 2013, Bezos revelou que poderia começar a entregar produtos de até 2,2 kg por meio de drones – peso de 86% das encomendas da Amazon – desde 2015.

O serviço já tem até nome: Prime Air. O “carteiro voador” proposto pelo lendário empresário transporta mercadorias em até meia hora através de um quadricóptero que deixa os pacotes na porta das casas de forma segura e veloz. O projeto de Bezos está longe de parecer um delírio típico de um visionário – muitas de suas “alucinações” viraram negócios bilionários, como comprova a trajetória da empresa de Seattle, que em apenas duas décadas se transformou na maior varejista virtual do mundo, com receita de US$ 61 bilhões. A área de logística, de fato, é uma das que mais devem se transforma com os drones.

A empresa alemã de entregas DHL, controlada pelo Deutsche Post, também aprova uso de drones para entregas urgentes, como remédios para localidades distantes de centros urbanos. Um pequeno quadricóptero amarelo ja vez esntregas como um pacote com fármacos de um extremo ao outro da cidade de Bonn, onde está localizada sua sede. A rede de pizzaria americana Domino’s também entrega de pizzas no Reino Unido.

Chamado de Domicopter, o robô aéreo foi criado e operado pela empresa AeroSight e age como um motoboy voador. Além de sua eficácia nos serviços prestados, os drones estão se mostrando uma eficiente ferramenta de marketing.

Quem descobriu isso foi a indústria imobiliária americana, que passou a usar as aeronaves não tripuladas para fazer imagens impossíveis de serem registradas mesmo com helicópteros. “Imóveis de vários milhões de dólares exigem táticas de marketing dignas da Avenida Madison”, afirmou Matthew Leone, diretor de marketing da imobiliária Halstead Property, em entrevista ao jornal The New York Times, referindo à tradicional avenida que reúne as principais agências de publicidade dos Estados Unidos, em Manhattan. A Halstead Property usou um drone para filmar uma casa avaliada em US$ 7,6 milhões, cujo vídeo já foi visto meio milhão de vezes no YouTube.

Uma Nova Indústria

Os drones criam a oportunidade para o desenvolvimento de um novo mercado. Embora tenham surgido como uma máquina de guerra, eles são primos de primeiro grau do aeromodelismo, prática de pilotar miniaturas de aviões através de controle remoto.

Ao redor do mundo, há uma série de start­ups (empresas iniciantes) que estão se aproveitando desse boom de veículos não tripulados de uso de civil. A suíça senseFly, dona do eBee, usado pela Eldorado e pela AES Tietê, por exemplo, tem apenas dois anos de vida. Nenhuma empresa, no entanto, conseguiu atingir o status da chinesa DJI, que desenvolveu o modelo Phanton II, o mais barato do mundo, vendido por apenas US$ 1,2 mil.

Seus drones foram comparados pelo presidente do conselho de administração do fundo de investimento americano Sequoia, Michael Moritz, ao lendário Apple II. Apesar de ser o segundo de sua geração, ele foi de fato o primeiro computador pessoal da história – o Apple I precisava ser montado, coisa que só os nerds conseguiam. É bom prestar atenção quando Moritz está falando. O Sequoia foi um dos primeiros fundos a investir na Apple e no Google, dois gigantes da área de tecnologia americana, quando ainda não passavam de ideias interessantes. O Brasil não está fora dessa onda de fabricantes de drones.

A Embraer, terceira maior fabricante mundial de aviões comerciais, entrou nessa área com o projeto de um drone militar. São Carlos, no interior de São Paulo, e Porto Alegre lideram a produção desses robôs voadores autônomos. A XMobots, criada em São Carlos, em 2007, fabrica drones, sendo dois deles voltados para o segmento agrícola e um de monitoramento de linhas de energia, com um câmera aprimorada. “A indústria aeronáutica não muda do dia para a noite”, diz Giovani Amianti, fundador da XMobots. “Mas o mercado de drones vai crescer naturalmente.” Conterrânea da XMobots, a AGX foi comprada pela Transpreserv, empresa mineira especializada em levantamentos topográficos de áreas rurais.

A AGX desenvolveu três modelos de drones que variam em capacidade de carga e de preço. “Nossos drones são plataformas de coletas de dados”, afirma o coordenador de pesquisa e desenvolvimento da AGX. “Basta colocar qualquer sensor e sobrevoar qualquer área para obter as informações.” Outra empresa inovadora nessa área é a gaúcha Skydrone. Seu criador, Ulf Bogdawa, que anteriormente trabalhava com aeromodelismo, se desfez de empresa de automação para apostar nos drones. “Em 2008, eu e meus sócios montamos um drone quadricóptero e percebemos o potencial que esse mercado tinha”, diz Bogdawa.

Um sinal da popularização dos drones no Brasil é que existe um loja especializada nesse produto na rua Santa Ifigênia, reduto paulistano de traquitanas tecnológicas. Chamada DroneMania, a loja oferece modelos que vão de R$ 500 a mais de R$ 10 mil, a maioria importados. Há também um site de comércio eletrônico especializado na venda de drones. É a DroneStore, fundada pelo empresário Luis Neto Dorça Guimarães no segundo semestre de 2013. “Comecei fazendo vídeos para empresas, mas percebi o interesse crescente das pessoas em comprar drones e resolvi abrir a loja”, afirma Guimarães. Seu próximo passo é inaugurar uma loja física. Trata-se de mais um indicativo de que o mercado de drones está mais do que pronto para decolar e mudar, para sempre, o mundo dos negócios.

Máquinas de Guerra

O garoto Tariq Aziz, 16 anos, fã de futebol, assistiu uma conferência antidrones em Islamabad, no Paquistão. Ele estava preocupado com as mortes de civis provocadas por ataques de drones na região onde morava, na fronteira entre Paquistão e Afeganistão. Alguns dias depois, um avião não tripulado americano o matou. A história de Aziz e de outras dezenas de vítimas está retratada no filme Unmanned: America’s Drone War (em tradução literal, Não Pilotado: Guerra dos Drones da América), do documentarista Robert Greenwald.

O governo americano não divulga dados oficiais de mortes provocadas por drones. O senador republicano Lindsey Graham calculou que são em torno de 4.700 vítimas a cada ano . Drones viraram uma espécie de assinatura das táticas bélicas da administração do ex presidente Barack Obama. Os robôs aéreos permitem que os militares detectem e destruam alvos a quilômetros de distância. Os EUA contam com o superdrone Reaper, fabricado pela General Atomics. Com peso de mais de quatro toneladas, o avião é capaz de carregar e disparar quatro mísseis AGM-114 Hellfire.

No Brasil, a FAB adquiriu drones de Israel. Mas a estratégia é desenvolver tecnologia própria e quem toma a frente nesse processo é a Embraer em associação com a Avibras, sua vizinha do setor aeroespacial, de São José dos Campos, a empresa que criou a Harpia Siste­mas, que desenvolveu o drone batizado de Falcão para cumprir missões de inteligência e vigilância. O Fal­cão tem sido usado como ponto de partida para estudos que incluem sensores, sistema de comunicação e uma estação de controle no solo. O drone da Embraer pesa 630 quilos e conta com autonomia de 16 horas de voo. É produzido em fibra de carbono e tem envergadura de 11 metros. Ele pode detectar uma pessoa a até 15 quilômetros de distância. Por enquanto, nada de mísseis.

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