— Me aproximei da jaula, mas não dava para ver nada dentro dela. Estava escuro demais — disse Heitor.

Durval fitava o ex-capitão do exército que continuava sua narrativa de quanto havia ficado preso com algum tipo de fera enjaulada em um laboratório do exército. Heitor era um homem de estatura baixa, mas de corpo parrudo, tronco e braços musculosos para a idade que já devia passar dos 70. Mantinha-se curvado para frente na poltrona, estava realmente envolvido com o relato que fazia, as pernas afastadas uma da outra o faziam parecer solidamente ancorado no que dizia. Durval sentia que o homem falava a verdade, mesmo ela sendo inacreditavelmente bizarra.

​O charuto na mão esquerda era levado à boca a intervalos regulares. Quase um ritual. Parava de falar um instante antes da mão erguer-se, então aspirava uma boa quantidade de fumaça, mantinha-a na boca e, de olhos fechados, soprava lentamente na direção do teto da sala. O ambiente já estava com uma suave neblina azulada. Depois abria os olhos a voltava a mirar Durval, como se confirmando que ele continuava ali.

Durval permanecia imóvel sentado no sofá. Engoliu em seco e piscou tentando clarear a mente para o que quer viesse em seguida. Queria saber o que exatamente havia dentro da jaula. Um pouco mais de suco de melancia iria muito bem naquele calor, ou quem sabe até alguma coisa para comer. Deu uma olhada pela janela na direção da varanda para ver se Melinda já estava voltando. Quem sabe a mulher lhe oferecesse algo para beliscar. Afinal, até os gatos estavam sendo alimentados.

Parecendo ouvir seus pensamentos, Melinda apareceu na porta da sala:

— Você fica para o almoço, seu Durval?

— Ahh, bom, eu não sei.

— Claro que fica, Mel. Ele come com a gente — interrompeu Heitor.

Durval deu um sorriso tímido enquanto Melinda foi na direção da cozinha rebolando seu belíssimo quadril dentro do vestido florido. A mulher era radiante.

— Durval, Durval! Eu gosto de você, meu caro. Mas você precisa tomar cuidado com aquele Botelho. Eu sempre disse para a Mel que quem andasse metido com aquele fulano, não era boa pessoa. Mas agora, te conhecendo melhor, você não é um mau sujeito, Durval. Eu sei julgar bem as pessoas. Sei quando não são cão fiel, entende?

​— Acho que sim.

Heitor deu uma gargalhada.

Durval percebeu que aos poucos Heitor estava ficando mais simpático e à vontade com ele. Isso era bom, ele queria entender o que diabos havia acontecido naquele laboratório e o que tudo aquilo tinha a ver com o cadáver que havia aparecido em sua cozinha alguns dias atrás. E mais, como o cadáver podia ter simplesmente desaparecido sem deixar rastros horas depois. Durval tinha um suspeito que devia estar envolvido em tudo aquilo: Botelho. Seu amigo de décadas, professor de biologia aposentado, que agora, segundo Heitor, era na verdade um excientista do exercito que havia conduzido experiências com um homem com chifres.

Heitor recomeçou o relato e Durval sentiu que tudo estava prestes a se encaixar.

Episódio XXXIX continua na próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com