Este é o desejo das cerca de 250 pessoas que estão na fila de espera por um transplante, de acordo com dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. O procedimento, que dá uma segunda chance de vida ao paciente cardiopata, só é possível hoje porque há 50 anos um médico realizou, na África do Sul, o primeiro transplante de coração do mundo. Apesar de o paciente ter sobrevivido apenas 18 dias – sofreu uma infecção pulmonar – o acontecimento incentivou outros médicos a colocarem a técnica em prática. O Brasil, por exemplo, realizou o primeiro transplante cinco meses depois. Conheça aqui o procedimento cirúrgico que mudou a história da medicina e a vida de muitas pessoas.

Passados 50 anos da operação histórica, o renomado cirurgião Stephen Westaby afirmou que os transplantes de coração estão com os seus dias contados. Para o especialista britânico, os transplantes convencionais serão substituídos por bombas cardíacas e células-tronco dentro de 10 anos.

“Acredito que a combinação de bombas cardíacas e células-tronco tem potencial de ser uma boa alternativa que poderia ajudar muito mais pessoas. “ disse o Dr. Stephen Westaby.

O especialista está convencido de que os transplantes de coração serão mantidos apenas para pacientes com problemas congênitos, que precisam de um novo coração para sobreviver. Para os demais, dispositivos de bombear sangue e injeção de células estaminais em pacientes seriam mais que suficientes.

Embora seja um grande defensor do transplante, o cirurgião do John Radcliffe Hospital, em Oxford (Reino Unido), não se conforma com o procedimento em si. Isso porque, para salvar a vida de uma pessoa, necessariamente exige que a vida de outra pessoa seja suprimida: “Como é que é possível que a sociedade valorize um tratamento que precisa que uma pessoa jovem morra (para ser doadora) e que se aplica a apenas 1% da população? “- diz Stephen Westaby.

Células-Tronco e Bombas Cardíacas

O Dr. Stephen Westaby demonstrou ser possível reverter a cicatrização do tecido do coração ao injetar células-tronco em pacientes submetidos a cirurgia de pontagem (bypass) coronária, procedimento que permite ao sangue contornar uma veia obstruída em uma ou mais artérias coronárias.

Em janeiro o cirurgião iniciou testes com células-tronco em pacientes submetidos a bypass. A expectativa é que as injeções das células estaminais em pacientes evitam a necessidade de um transplante.

Para o especialista, os recentes avanços tecnológicos no campo da medicina poderão poupar tempo, dinheiro e vidas no futuro. O cirurgião britânico está inclusive desenvolvendo um coração artificial de titânio para “competir” com os modelos atuais, que custam uma pequena fortuna.

Sir Nilesh Samani, diretor médico da BHF, referiu que a fundação continuará financiando a pesquisa sobre rejeição de órgãos e outras abordagens para ajudar a melhorar as taxas de sucesso dos transplantes, mas sem desconsiderar a possibilidade trazida por Westaby: a de um futuro sem transplantes de coração.

“A esperança é que, um dia, essa pesquisa ajudará a fazer operações de transplante cardíaco (e listas de espera para um novo coração) será uma coisa do passado”.

1º Transplante de Coração do Mundo foi Feito na África do Sul

Em 3 de Dezembro de 1967, foi realizado o primeiro transplante cardíaco no mundo.

O coração era de Denise Darvall. O peito que o recebe de Louis Washkansky. As mãos que tornaram isto possível são de Christiaan Neethling Barnard.

Louis Washkansky era um comerciante de 54 anos. Denise Darvall uma jovem de 25. Ambos viviam em Cape Town, África do Sul.

Louis chegara à África do Sul em 1922.

Em 1965, o coração de Louis Washkans- ky começa a falhar, ele que sofre de insuficiência crônica.

Em Dezembro de 1967 o homem robusto que Louis fora em tempos estava reduzido a um doente com poucas semanas de vida. Denise pelo contrário tinha razões para acreditar no futuro quando no dia 2 de Dezembro saiu com os pais de carro.

Fizeram uma parada para ir comprar um bolo. Denise e a mãe saem do carro.

Quando regressam são atropeladas por uma carro que vinha em sentido contrário. A mãe morre imediatamente. Denise é diagnosticada com morte cerebral e mantem-se viva ligada à equipamentos .

No dia seguinte, 3 de Dezembro, a equipe de reanimação considera que já não pode fazer nada por Denise. Mas no Groote Schuur Hospital, onde Louis Washkansky, sem nada a perder, já dera permissão para ser o primeiro ser humano a submeter-se a um transplante de coração. Havia uma equipe que se preparou para explicar ao pai de Denise que a filha iria morrer mas ainda poderia salvar uma vida caso ele autorizasse, o coração de Denise seria transplantado para o peito de Louis Washkansky. O pai de Denise dá autorização. Começa de imediato uma espécie de corrida contra o tempo: Denise Darvall é levada para uma sala do primeiro piso do Groote Schuur Hospital. Ao lado, numa outra sala, está Louis Washkansky. Durante cinco horas uma equipa dirigida por Christian Barnard transplanta o coração de Denise para o peito de Louis.

Ao amanhecer estava realizado o primeiro transplante de coração.

E de Repente Transplantes em Todo o Mundo

O entusiasmo suscitado por esta intervenção foi imenso. A evolução do estado de saúde de Louis Washkansky foi seguida nas primeiras páginas de jornais de todo o mundo.

Como um rastilho que atravessa os quatro cantos da Terra outros transplantes têm lugar nos outros continentes. Após três dias depois que a África do Sul e Barnard terem feito história, Adrian Kantrowitz, que em Junho de 1966 esteve à beira de ser o primeiro cirurgião a fazer um transplante de coração (só não o foi porque dois médicos da sua equipe levantaram questões de natureza ética sobre o momento em que o coração poderia ser retirado do corpo do doador) realiza o 1º transplante de coração nos EUA. Em Março de 1968, no Brasil realiza-se o primeiro transplante de coração não só daquele país mas de toda a América latina e na França duas equipes médicas declaram-se prontas para fazerem tranplantes.

Em Maio de 1968 acontecem os primeiros transplantes de coração da Inglaterra e França. Na URSS o sucesso de Barnard gera algum incómodo pois os soviéticos que contavam com um pioneiro dos transplantes – desde os anos 50 que Vladimir Demikhov efetuava transplantes em animais – tinham ficado para trás. Na Espanha, em Setembro de 1968, é feito pelo cirurgião Cristobal Martinez-Bordiu o 1º transplante cardíaco.

Em Novembro de 1968, portanto menos de um ano depois da primeira cirurgia, já tinham sido efetuadas 85 transplantes de coração.

Um Médico ou Uma Estrela?

Imaginar as mãos de um cirurgião retirando o coração de um corpo que a vida abandona para o colocar em outro onde volta a bater é algo que toca fundo no nosso imaginário sobre a vida, a morte e de alguma forma sobre a própria ideia de ressurreição. Mas não foi só isso. Barnard contribuiu muito para essa popularidade. Além de ser um excelente comunicador, Barnard era particularmente fotogênico.

A sua maneira de ser, falar e comunicar nada tinham a ver com a imagem clássica dos médicos europeus.

Esse choque entre o Novo Mundo do qual provinha Barnard e a velha Europa é muito patente na visita que o cirurgião sul-africano fez a este continente no início de 1968: enquanto Barnard mostrava o maior interesse em debater os transplantes nas televisões os médicos europeus não consideravam adequado discutir-se medicina em programas televisivos. Por contraste 500 médicos brasileiros propõem Barnard para Nobel da Medicina. Esta informalidade de Barnard a par do enorme interesse gerado pelos transplantes, tornam as suas viagens em acontecimentos mediáticos.

Entre os assistentes e os momentos em que Barnard se deslocava ficando mais próximo das multidões, estavam as pessoas que viam nas mãos daquele homem a última esperança de se salvarem ou sobretudo de salvarem alguém que lhes era próximo.

Diplomacia Rima com Cirurgia

A operação pioneira que Barnard realizou em 1967 teve como é óbvio, o seu lado polêmico que não foi médico, nem religioso, mas sim político. Barnard era sul-africano e foi em num hospital da África do Sul que aconteceu o primeiro transplante cardíaco. Intensamente pressionado por causa do apartheid, a África do Sul usava o sucesso dos seus médicos e o pioneirismo dos seus serviços de saúde como forma de se afirmar internacionalmente. E nesse sentido o sorriso aberto de Barnard e a sua política de transplantes eram ótimos cartões de visita.

Aliás, no transplante que efetuou em 2 de Janeiro de 1968, Barnard colocava o coração de um negro, Clive Haupt de 24 anos, vítima de hemorragia cerebral, no corpo de um dentista branco, Philip Blaiberg, de 58 anos. Esse coração “pode até constituir um importante passo para as melhorias das relações entre as raças” respondeu Philip Blaiberg no Diário de Lisboa de 8 de Março de 1968, aos médicos que lhe perguntavam se não se importava de receber o coração de um negro. Curiosamente, Barnard poderia ter feito o primeiro transplante antes de Dezembro de 1967 caso tivesse aceito que o dador fosse negro mas isso ia contra uma decisão que tomara: o primeiro dador para o transplante cardíaco teria de ser branco. Porquê? Porque Barnard temia que se o primeiro dador fosse negro os transplantes de coração fossem vistos como uma forma de os brancos sobreviverem à custa dos corações dos negros.

A Obra do Criador

Do mundo católico chegam rapidamente sinais de aprovação face aos transplantes: logo no fim de Janeiro de 1968 Paulo VI concede uma audiência a Barnard que decorre de forma muito amistosa. E na França um dos primeiros transplantados, Damien Boulogne, era padre.

O fato do próprio Barnard se apresentar como um homem de fé que reza antes e sobretudo depois das operações e que reivindica a sua educação num ambiente marcadamente cristão – o seu pai era pastor numa igreja protestante – desempenha um papel decisivo no afastar a questão religiosa dos transplantes cardíacos.

Luciana da Fonseca, a Médica Brasileira Pioneira em Transplantes de Coração

Em 1968, ano em que o médico Euclydes de Jesus Zerbini realizou o primeiro transplante de coração no Brasil, nasceu na zona rural de Minas Gerais a menina Luciana da Fonseca. Três décadas mais tarde, ela fez história na cardiologia brasileira, assim como seu mestre inspirador.

Luciana, aos 30 anos de idade, tornou-se a primeira mulher em território nacional a “orquestrar” um transplante cardíaco.

“Eu fui a primeira em 1998 e, desde então, o mundo dos transplantes permanece majoritariamente masculino no Brasil”, diz a cirurgiã cardiovascular que atua no Hospital paulistano Beneficência Portuguesa.

“Este quadro precisa mudar porque já é sabido que as mulheres são maioria nas universidades médicas” – segundo o Conselho Regional de Medicina de São Paulo elas somam 52% dos alunos.

“Se a estatística não reverter nos centros cirúrgico, podemos ter falta de mão de obra em um futuro não tão distante assim”, avalia Luciana.

Luciana, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, pertence ao seleto grupo de 34 brasileiras que têm no currículo a especialização nesta área (são 815 homens).

O Início

Luciana não sonhou ser médica quando pequena. A primeira memória que tem para justificar a escolha da profissão, na verdade, não é nada feliz.

“Meu pai morreu de insuficiência cardíaca quando eu tinha 15 anos. Na época, não pensava em carreira mas acho que ali a vontade de resolver um problema de saúde e prolongar a vida de alguém nasceu em mim”, lembra a médica.

Nascida na cidade Coronel Pacheco, Luciana desde sempre soube que para fazer faculdade teria de custear seus estudos. Fazia curso técnico de edificações em Juiz de Fora, amava matemática e as ciências exatas, por isso, em 1986 e aos 18 anos, achou natural prestar vestibular para engenharia civil.

Passou em 10º lugar na Universidade Federal de Juiz de Fora, mas nem bem conseguiu dar a boa notícia para a mãe e já bateu de frente com a dúvida se aquela carreira era mesmo a que iria fazer para o resto da vida. “No mesmo dia em que fui aprovada, pensei que na verdade queria ser médica.”

Em vez da universidade, ela fez matrícula no cursinho. Estudou por mais um ano e, em 1987, entrou em medicina na mesma universidade de Juiz de Fora e na mesma 10ª colocação.

Realização

Em 1992, ainda estudante, assistiu a uma cirurgia cardíaca e foi flechada certa, amor à primeira vista. “Me encontrei naquele ambiente”, lembra. Luciana definiu ali qual seria seu habitat. Residência médica escolhida, no ano seguinte ela foi a São Paulo especializar-se nos bisturis que consertam corações.

“Ao comunicar a minha família que seria cirurgiã cardíaca, ouvi de uma prima querida que, por não ser pediatra, não cuidaria dos filhos que um dia ela iria ter.

Tempos mais tarde, ela engravidou e a sua filha nasceu com síndrome de down e um problema cardíaco congênito importante. “Operei a menina e toda vez que encontro com ela, sadia e com o coração perfeito, tenho a certeza de que fiz a escolha certa.”

As cirurgias cardíacas, engenhosas, trabalhosas e longas, já haviam conquistado o coração da médica Luciana mas nada fazia pulsar tão forte como os transplantes de cardíacos que ela adorava assistir.

“Era admirável ver um órgão ser retirado de uma pessoa morta, olhar para ele em uma caixinha parado e colocar no peito de outro paciente, fazendo-o bater no ritmo certo. Era uma cirurgia que, de fato, trazia uma nova vida para alguém.”

Um belo dia, em 1998, Luciana que já havia participado de inúmeros transplantes foi escalada para ser a “maestrina” de uma operação. Seria a primeira mulher brasileira a comandar um transplante cardíaco. A paciente a ser operada, Edna, também era do sexo feminino. O coração doado, da mesma forma, saiu de uma mulher. Do lado de fora, uma menina, filha de Edna, esperava ansiosa pela recuperação da mãe que, se não transplantada imediatamente, não sobreviveria.

Pela primeira vez, um toque cor-de-rosa cobriu o mundo dos transplantes. “Terminamos a cirurgia e a equipe, toda muito jovem, bateu palmas, tiramos fotos, foi uma festa.”

Luciana encontrou Edna outras vezes e, de certa forma, Edna também sempre acompanhou Luciana nos 22 outros transplantes realizados pela cirurgiã.

“Não tenho nenhum ritual antes da cirurgia, mas antes de transplantar, lembro de cada paciente que já operei. Como são poucos, perto de todas as outras cirurgias cardíacas, sei o nome de cada um e também de suas histórias”, diz.

Entre estes 23 transplantados por Luciana, o 4º submetido à cirurgia, foi o único que torcer o nariz ao ser informado que uma mulher seria a responsável por conduzir um procedimento tão complexo e delicado.

“Quando me apresentei, lembro que ele disse que não queria que fosse eu. Pediu para que o José Pedro (da Silva cirurgião cardíaco renomado e na época só professor de Luciana) fizesse o transplante. Ele não disse que a recusa era pelo fato de eu ser mulher. Mas senti, não sei explicar como, que o preconceito era sexista mesmo.”

A médica ficou bem frustrada naquele dia. Mas concentrou-se na cirurgia. O paciente saiu da mesa de operação bem e não teve complicações.

Apesar do índice de mortalidade ser baixíssimo em pacientes submetidos ao transplante de coração, a médica perfeccionista lembra deles de uma maneira especial antes de orquestrar os bisturis.

O professor e ídolo José Pedro da Silva – aquele mesmo requisitado pelo 4º transplantado por Luciana – ganhou contornos que foram além da admiração. Em 2001, virou marido da médica. Em 2008, pai do seu filho.

“Sempre tive uma atenção especial com a família dos pacientes, mas isso aflorou depois da maternidade. Tenho mais consciência sobre as angústias das mães que esperam suas crianças do lado de fora do centro cirúrgico. Elas também fazem parte deste processo todo, precisam ser tratadas com muita consideração.”

O Pioneiro Zerbini

Euclides de Jesus Zerbini foi um renomado médico brasileiro que realizou a primeira cirurgia de transplante de coração no Brasil.

Zerbini nasceu em Guaratinguetá, São Paulo no dia 7 de maio de 1912. Formou-se em medicina pela Universidade de Medicina de São Paulo. Veio para os Estados Unidos, fazer especialização em cirurgia torácica, cardíaca e pulmonar. Começou a dedicar-se à cirurgia intracardíaca em 1945. Em 1957 iniciou experiências para abertura do coração, em animais, utilizando circulação extra corpórea.

Na Universidade de Minneapolis, Estados Unidos, foi colega de Cristian Barnarde, cirurgião sul-africano, que realizou o primeiro transplante de coração humano. Seis meses depois, no dia 25 de maio de 1968, no Hospital das Clínicas em São Paulo, uma equipe dirigida pelos doutores Euclides de Jesus Zerbini e Luiz V. Décourt, realizou o primeiro transplante de coração da América Latina. E a equipe do Dr. Geraldo Campos Freire, aproveitando o mesmo doador, realiza o transplante de rim.

Foram realizados mais dois transplantes de coração pela equipe do Dr. Zerbini sendo a última em 7 de janeiro de 1969. O Dr. Zerbini foi o 5º médico do mundo a realizar o transplante de coração. Um dos seus pacientes, conseguiu sobreviver relativamente bastante tempo ao transplante, comprovando o avanço do estágio em que se encontra a cirurgia brasileira.

Euclides de Jesus Zerbini faleceu de câncer, em São Paulo, no dia 23 de outubro de 1993.