— Eu nunca vou esquecer dos olhos do monstro me fitando no escuro — disse Heitor com o charuto a meio caminho da boca. A mão parada no ar, os olhos embaçados como se revivesse o momento em que viu de perto o tal homem com chifres enjaulado no laboratório do exército.

— Estava abaixado do lado de dentro da jaula olhando diretamente para mim. Os chifres, largos como um punho fechado, saiam das laterais da cabeça e os olhos chispavam como se estivessem em brasa viva. Eu fiquei paralisado, hipnotizado. Foi quando ele abriu a boca sem emitir nenhum som e vi dentes afiados. Não tive dúvidas que estava diante do demônio.

— Ah, e não pense você que foi só na mitologia que se falou de criaturas como aquela, Durval, ah, não senhor! Não mesmo! Depois daquele dia, pesquisei muito, saiba disso. Esses seres estão entre nós há séculos, milênios. Foram descritos em epopeias, lendas, textos sagrados. Ovídio, no Metamorfoses, falou do monstro. Dante e Virgílio, na Divina Comédia, encontram a criatura no inferno entre outras que foram amaldiçoadas por sua natureza agressiva e cruel, os chamados “homens de sangue”.

— Tem várias histórias com personagens com chifres na literatura — disse Durval.

— Mas não é ficção, Durval. Em Enkomi na ilha de Chipre encontraram estátuas da Idade do Bronze do que chamaram de “Deus com Chifres”. Também foram encontradas pinturas etruscas de séculos antes de Cristo retratando mulheres dando de mamar a bebês com chifres.

Heitor foi até um armário e pegou várias pastas e cadernos com anotações e fotografias.

— Em 1878, um sujeito chamado, adivinha só, Minos Kalokairinos, descobriu na ilha de Creta um lugar conhecido como Cnossos e, pasme, lá tem uma imensa ruína com mais de 1300 compartimentos e corredores fechados. Um labirinto. Te faz lembrar alguma coisa?

— Não.

— Não há provas, mas o lugar foi identificado por vários estudiosos como sendo o local do mito do labirinto do Minotauro. De acordo com a lenda, o príncipe Teseu promete a seu pai que mataria o monstro. Sua amada, Ariadne, dá a ele um novelo que ele usa para marcar o caminho pelo labirinto. Teseu mata o Minotauro com a espada do pai e consegue sair do labirinto.

— Você não está me dizendo que a criatura no laboratório do Botelho era um Minotauro — disse Durval.

— Estou dizendo que esses monstros existem de verdade, sempre existiram. Os fenícios cultuavam um ser com o nome de Baal-Moloch que era considerado um deus violento com chifres. Segundo o Antigo Testamento da Bíblia, nos rituais de adoração a Moloch, sacrificavam crianças. Eram jogadas no ventre de uma estátua onde havia fogo que consumia a criança viva.

— Que horror!

— Percebe Durval?, essa besta esteve presente na história da humanidade desde muito cedo. Os cristãos a identificam com o Diabo. Os gregos com o Minotauro. Mas se trata de uma raça de criaturas reais.

— Tem um antropólogo escocês — prosseguiu Heitor — chamado J. G. Rapsag que em 1902 encontrou, enter-rados na ilha de Creta, mais de 50 crânios humanos com chifres. Ele foi desacreditado pelo Museu Britânico de História Natural e acabou se suicidando anos depois.

Heitor voltou a reclinar-se para trás na poltrona e deu uma baforada no charuto.

— Essa coisa é real, Durval, e está entre nós agora.

Episodio XLI continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com