A boca de Durval se encheu de água ao ver a travessa de barro sobre a mesa com o pintado à urucum. Os pintados do Rio Passa Pato de Santa Tereza não eram lá muito grandes, mas com toda certeza eram o que o rio tinha de melhor a oferecer, simplesmente os peixes mais saborosos que Durval já havia experimentado. E aquele parecia estar delicioso, ou talvez fosse a fome voraz de Durval que estivesse falando naquele momento. Já passava da uma da tarde.

Melinda cortou uma generosa posta do filé com a colher de madeira e serviu Durval. Depois pegou um pouco do molho de urucum com pedacinhos de tomate levemente gratinados pelo forno, pimentão verde e salsinha, e regou o peixe no prato de Durval.

— Mais?

— Está ótimo, obrigado.

Melinda serviu o arroz branco como papel e o pirão, um molho feito do caldo do peixe e engrossado com farinha de mandioca. O cheiro estava magnífico.

Durval cortou com o garfo um pedaço do peixe no prato, juntou um pouco de arroz, pirão e levou à boca. O urucum, uma semente que dá a cor vermelha ao molho, realçava o sabor suave do pintado que derretia na boca. Junto com o arroz e o pirão, foi um brado de sabor.

Só então Durval percebeu que Heitor estava falando.

— Como é?

— A Melinda faz o melhor pintado à urucum de Santa Tereza, posso te garantir — ele sorriu para a mulher que pareceu ligeiramente encabulada.

— Concordo totalmente — respondeu Durval. — É o melhor peixe que já comi na vida! Não estou exagerando.

— Ah, seu Durval, assim o senhor me deixa com vergonha — disse Melinda.

— Mas é verdade!

— Eu mesmo pesquei no Barra Mansa — completou Heitor.

— Achei que pintados só davam no Passa Pato.

— Os maiores você pega na virada do Barra quase chegando na represa, Durval.

— A virada do Barra foi onde o Botelho me levou com a Dolores para nos mostrar o… — ele parou no meio da frase.

— Eu bem sei! — Disse Heitor. — Mostrar o cadáver que uma hora apareceu na sua cozinha e no momento seguinte sumiu — ele soltou uma gargalhada que fez um pequeno pedaço do peixe saltar da sua boca.

— Sei disso tudo, Durval! Eu falei com o legista. Ele me contou que vocês foram presos pela polícia lá nas margens do rio.

Durval se perguntou por que Heitor teria se dado ao trabalho de ir falar com o legista sobre toda aquela história. Mas achou melhor ficar quieto. Ainda queria saber o final da história sobre o homem com chifres que Heitor havia encontrado no laboratório do exercito quando era capitão.

— Você estava me contando que a criatura com chifres hipnotizou você. Como foi isso?

— Os olhos, Durval. Os olhos daquela fera eram como fogo. Ardiam dentro da alma. Era como se fisgassem o seu coração com um anzol e puxassem para fora do peito. Quando me dei conta eu estava me aproximando das grades da jaula onde o monstro estava preso.

Episodio XLIII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com