— Eu não queria, mas minhas pernas andavam sem meu consentimento — disse Heitor com a boca cheia. Mastigou rápido e engoliu a fim de voltar a contar a história. Durval enfiou outro bocado do delicioso pintado a urucum que Melinda havia preparado para o almoço e se pôs atento ao relato do ex-capitão do exército que estivera ilicitamente em um laboratório do exército onde mantinham preso um estranho homem com chifres.

Durval não era ingênuo, depois de 76 anos se aprende a não sair acreditando em primeiras versões de histórias contadas por outros aposentados. Mas ele havia visto a fotografia. Seu amigo Botelho, professor de biologia, ao lado de um homem com chifres. Claro que alguém poderia ter manipulado a foto, mas quem faria isso e por que? Além do mais, alguma coisa realmente bizarra estava acontecendo na pequena cidade de Santa Tereza. Durval havia visto, com seus próprios olhos de quase um século de vistas, o cadáver estirado em sua cozinha. E com toda certeza, Botelho estava envolvido em tudo aquilo.

— Há mais de 4 mil anos — continuou Heitor — acreditavam que o fo-go do ventre do deus Moloch consumindo uma criança viva purificaria a alma limpando os pecados dos adultos. Na Bíblia está escrito que Deus proibiu os hebreus de realizarem esses rituais. Está em Levítico.

— E o que isso tem a ver? — Perguntou Durval.

— Essas criaturas podem dominar sua mente. Dominaram as mentes dos fenícios e dos cananeus que se dispunham a sacrificar os próprios filhos em honra do tal deus.

— Mas isso são lendas, mitos.

— Pois diga isso para o antropólogo J. G. Rapsag que encontrou os crânios humanos com chifres enterrados na ilha de Creta. Ele descobriu, Durval, que existe um lugar na África, desconhecido até o século passado, onde viviam as tribos de homens com chifres, uma espécie de Triângulo das Bermudas nas areias do deserto. Seu amigo Botelho encontrou esses seres. Eles são a origem das lendas dos demônios. Foi uma dessas criaturas que tentou Jesus no deserto. Elas controlam a sua mente.

Durval havia até esquecido do peixe. Engoliu o pedaço que tinha na boca e bebeu um gole de água.

— Fazem isso com olhos de fogo, meu velho Durval. Sei que parece exagero, coisa de louco, mas é a única forma que encontro para descrever o que passei. Eu fiquei diante dele. E não era só a aparência dos olhos que eram de fogo. Eu sentia o calor que expeliam. Imagine que você tem uma fogueira acesa dentro do peito. Imagine que o seu coração está em chamas, sendo consumido pelo fogo. Era isso. A pior sensação que eu já senti em toda a minha vida. Era como se eu não fosse mais o senhor do meu corpo. Ele tinha a posse completa de mim. Se ordenasse que eu saltasse em um abismo, eu o faria sem sequer um mísero protesto. O domínio era dele. Eu havia me tornado apenas um mero observador. Lentamente eu fui até a jaula onde o monstro estava preso.

Episodio XLIV continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com