— As grades da jaula estavam a menos de dois metros de mim. Ele estava abaixado, acocorado, do lado de dentro da jaula me olhando diretamente, imóvel, parecia um boneco de cera. Só os olhos estavam vivos. Os dois globos de fogo e os dois chifres largos que saiam das laterais da cabeça.

Heitor e Durval continuavam sentados à mesa, mesmo Melinda já tendo recolhido os pratos e travessas do almoço.

“Dei mais um passo na direção das grades. Tentei notar algum movimento da criatura, mas ela permanecia imóvel, parecia apenas esperar que eu me aproximasse. Como um criado que leva uma xícara de chá ao seu patrão, eu levava minha alma para o monstro.

“Outro passo e eu estava a menos de um palmo das grades. Foi então que a criatura começou a levantar-se. Mantinha os olhos nos meus e erguia o corpo como uma máquina, com precisão. Parecia um robô. Como se cada movimento milimétrico tivesse sido planejado com propósito e determinação. Ele ficou em pé bem na minha frente. Devia ter dois metros de altura.

— Perguntei se vocês querem café? — Melinda disse quase gritando.

Durval voltou do completo arrebatamento que a narrativa de Heitor havia provocado e mirou Melinda sem a ver de verdade. Demorou um segundo para ele identificar o que a mulher estava perguntando.

— Sim, sim, café, obrigado! — Respondeu Durval.

— Também quero, Mel, por favor — disse Heitor e sorriu para a esposa. Depois voltou-se para Durval. — Vamos para a sala!

Durval ainda pensou em dizer que podiam ficar ali mesmo. Mas levantou-se com cuidado para não cair, a perna engessada dificultava o movimento, pegou a bengala que havia deixado encostada na parede e foi atrás de Heitor. Ao entrar na sala de estar quase caiu com a bengala ao se assustar com um barulho estridente que imaginou fosse um tiro de espingarda. Achou que daquela vez ia ao chão, mas viu que era a cacatua berrando empoleirada no braço do sofá. Heitor estava sentado na poltrona fazendo carinho na cabeça do pássaro.

— É a Dorotéia — disse Heitor.

— É, eu sei.

O pássaro parecia não gostar de Durval. Mas Durval também não gostava nada daquela ave branca como cal. O bicho balançava a cabeça para cima e para baixo com as penas eriçadas conforme Durval se aproximava. Mas o pior era o barulho irritante de gargarejo, parecia que bochechava com bolinhas de chumbo dentro do bico.

Heitor pegou o borrifador e jogou água no pássaro que abriu as asas e deleitou-se com os esguichos.

— No calor ela gosta — explicou.

— É, você me disse.

— Tem vitamina na água para as penas.

Durval sentou-se no sofá com cuidado e certo receio de a ave pular em cima dele e bicar seu rosto. Procurou ficar o mais afastado possível do bicho.

— Ela não gosta de estranhos. Fica arisca — ele fez uma pausa. Depois prosseguiu: — Mas onde estávamos?

E Durval percebeu que ouviria o resto da história de Heitor em companhia do pássaro antipático.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com