Durval não conseguia prestar atenção total na história de Heitor. Tudo porque a cacatua, empoleirada no braço do sofá, ficava fazendo aquele barulho desagradável de gargarejo metálico que mais parecia um crocitar de corvo. Mas a ave era tão branca que quase reluzia. Branca como os tantos gatos que Melinda tinha pela casa. Durval se perguntou se os bichanos se dariam bem com a cacatua e se havia algum motivo para Heitor e Melinda só terem bichos brancos. Mas não perguntaria isso para Heitor. Que o homem continuasse com seu relato. Procurou ficar o mais afastado possível da ave, mas manteve a bengala ao alcance da mão.

— Sacratissimum Cor Iesu — disse Heitor.

Durval não sabia latim, mas era alguma coisa religiosa com certeza o que Heitor estava falando.

— O Sacratíssimo Coração de Jesus — continuou Heitor. — É uma das maiores devoções do catolicismo romano. Você já viu alguma pintura ou escultura na igreja com certeza.

— Sim, eu conheço — assentiu Durval.

​— O coração de Jesus foi perfurado na cruz, mas depois da ressurreição, ele se tornou a representação do seu amor pela humanidade. É um coração flamejante, literalmente em chamas, brilhante pela luz de Deus, perfurado pela lança e cercado por uma coroa de espinhos. O fogo simboliza o poder de transformação que o amor divino tem sobre os pecadores.

— A Dolores e eu temos uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, e um também de Maria, no nosso quarto.

— É um símbolo cristão lindo, Durval. E ele me vem à mente sempre que lembro do que senti naquele dia na presença do monstro. Meu coração ficou em chamas. Na verdade todo o meu corpo incendiou. Era como se o fogo saísse dos olhos da fera, penetrasse meu coração e se irradiasse por todo o meu corpo. Dizem que o inferno é feito de fogo e que os demônios trazem parte dessas chamas dentro de si quando visitam a Terra. Era como se ele tivesse o inferno com ele e me obrigou a mergulhar naquele lago de lava. Foi lento no início, quase superficial, mas depois aquela sensação abominável se aprofundou e tomou totalmente minha alma.

— Havia uma força que não era minha mantendo meu corpo em pé, bem diante dele, do contrário eu teria desmaiado ou até morrido. Mas algo dentro de mim dizia que o monstro não queria me matar. Ele queria dominar minha vontade, meus pensamentos. Senti que sua presença se aprofundava em minha mente e tocava, profanava, meu interior. Naquele momento, o monstro passou a conhecer meus desejos mais íntimos, aqueles que nem eu mesmo sabia que estavam lá. As pequenas cobiças, os devaneios inocentes que se esgueiram dentro de nós, escapando da consciência, os impulsos, fantasias, todos os pecados e culpas, dos pequenos aos grandes, os delitos, dos reais aos apenas sonhados, ele explorava minhas maldades. Vulnerável é aquele que tem seus pecados conhecidos. O dano ao corpo não é nada, ele havia destruído minhas fortalezas internas, não havia mais bastião nem cidadela que me guardasse, nenhum muro que fosse. Ele possuía minha alma.

Episodio XLVI continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com