Até a cacatua estava quieta e respeitosa pela tamanha eloquência com que Heitor contou como foi que o homem com chifres havia adentrado sua mente naquele fatídico dia no laboratório secreto do Exército. Durval engoliu em seco. Se o que Heitor havia contado era verdade, então a criatura com chifres que Botelho mantinha cativa tinha o poder de controlar os seres humanos. Mas se tinha de fato o poder de dominar as mentes das pessoas simplesmente olhando para elas, então por que não havia controlado seus captores? Por que permanecia presa em uma jaula? Não poderia fazer com que os soldados a libertassem?

Heitor acendeu um charuto e soltou uma longa baforada de fumaça para o teto da sala. A cacatua fez um barulho de tosse seca e balançou a cabeça para cima e para baixo. Parecia que não gostava de charutos.

— Te falo, meu velho Durval — disse Heitor. — Aquele dia foi o mais aterrador da minha vida. Tenho certeza que você nunca teve um monstro dentro da sua mente. Na Wicca ele é chamado de Deus Corníferi. Os celtas o chamam de Cernuno. Ele é retratado até em pinturas rupestres do Paleolítico encontradas em cavernas francesas, onde é chamado de “Le Sorcière”, que significa “O Bruxo”. É considerado o deus guardião da entrada na Magia, dos bosques, do carvalho e do azevinho. É o senhor das florestas. Dizem que ele morre e volta da morte.

— Mas se ele é tão poderoso — disse Durval, — e pode dominar os pensamentos das pessoas, por que diabos não obrigou os soldados a libertá-lo? Por que não fez alguém simplesmente abrir a jaula?

— Eu não sei. Também já me perguntei isso várias vezes. Talvez tenha a ver com aquelas seringas com dardos tranquilizantes que injetavam nele. Talvez ele não conseguisse controlar totalmente as pessoas quando estava dopado daquele jeito. Ou quem sabe os próprios soldados que lidavam com a criatura eram obrigados a tomar alguma droga que fazia com que suas mentes não ficassem vulneráveis. Talvez eu fosse o único que estava indefeso contra o ataque mental da criatura. Eu realmente não sei. Mas aconteceu uma coisa depois que a fera entrou na minha mente. Uma coisa ainda mais pavorosa.

Durval aprumou-se na poltrona.

— Logo depois que ele invadiu meus pensamentos e dominou minha alma, eu comecei a vislumbrar os pensamentos dele, Durval. Era que como se eu estivesse dentro da mente daquele demônio. Eu comecei a pensar o que ele estava pensando. E mais, eu passei a sentir o que ele sentia.

— E o que ele sentia e pensava?

— É difícil colocar em palavras, descrever, e eu até hoje não consigo entender totalmente o que vi dentro da fera naquele dia. Mas havia uma coisa… — Que tipo de coisa? Fala logo, homem!

— Havia alguma coisa… boa dentro dele. Sei que é incoerente, totalmente absurdo. Talvez ele próprio estivesse me enganando, me ludibriando como só os demônios podem fazer. Mas eu senti que havia algo bom dentro do monstro.

Episodio XLVII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
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