Talvez, como eu, os leitores e leitoras não tivessem notado uma peça importante na história da Alemanha Nazista que foi a resistência. Nunca me passou pela cabeça, efetivamente, que existiam muitos alemães que eram totalmente contra a guerra deflagrada por Hitler e muito menos que, quando descobertos, as punições eram muito severas, geralmente, a pena de morte. Enquanto avançamos na história de Otto e Anna, Hans nos apresenta uma Alemanha cruel, onde ninguém confia em ninguém. O medo impera e seu próprio parente pode te condenar a pena máxima e o que é pior, seja você culpado ou não.

A rede de personagens que Fallada nos apresenta, se interligam de uma forma que a história encontra apenas um caminho a ser trilhado, mesmo que alguns deles sequer tenham se cruzado durante a trama. O que dita o destino de cada personagem é a delação. O regime Nazista impôs ao cidadão alemão a perigosa tarefa de policiar o próximo, o que no decorrer daqueles dias trouxe consequências desastrosas ao próprio povo da Alemanha. O medo não se restringia, como o leitor ou leitora pode observar, aos “impuros” que viviam na Alemanha, mas para qualquer cidadão que tinha que obedecer o toque de recolher e todas as regras impostas naqueles tempos funestos e, mesmo assim, todos corriam risco da guilhotina.

Hans foi brilhante na exposição de como era a vida do povo alemão durante o Nazismo e trouxe um horror de gelar a espinha cada vez que alguém era interrogado pela Gestapo, pois para eles, todos tinham culpa, mesmo que não fosse aquele do motivo de sua prisão. O tratamento nesses interrogatórios eram violentos e desumanos ao extremo, o que em certas passagem, me emocionou bastante, pois é absolutamente terrível ler aquelas palavras e saber que aquilo aconteceu de verdade e que não é mera imaginação de seu autor em alguma novela de ficção.

O sentimento de impotência é ainda maior quando vemos todas as palavras de um interrogado serem distorcidas e revertidas em confissões de culpa de crimes que sequer chegaram a ser cometidos. O leitor e leitora, se sente exausto, humilhado e horrorizado juntamente com o personagem que sofre todo tipo de acusação e violência. A morte é constante e a cada página torcemos para que ela chegue aos nossos personagens, tamanha desconstrução aplicada em cada interrogado.

Os horrores do regime Nazista foram muito bem mostrados em Morrer Sozinho em Berlim, onde o autor não poupou palavras deixando o mais realístico possível, onde podemos ver que a Gestapo e a SS faziam de tudo para conseguirem impor a soberania de Hitler, mesmo que para isso tivessem que matar cidades inteiras em campos de concentração ou nos porões da Gestapo.

Mas em meio a esse horror, conseguimos encontrar personagens que se valeram da tolerância, do amor e solidariedade para ajudar quem quer que precisasse, durante aquele tempo de guerra. Mesmo que esses personagens sejam minoria na trama, é justamente por causa deles que aquele sentimento de acreditar que o ser humano ainda tem salvação, acaba nos movendo dia a dia. E Fallada demonstrou muito bem isso em Morrer Sozinho em Berlim.

Mesmo que, na palavra do próprio autor, Morrer Sozinho em Berlim, seja um livro em que há muitas mortes, podemos acreditar que toda a trama também é de esperança e luta, pois Otto, Anna e alguns outros personagens, mesmo que em pequenas doses, tiveram sua parcela na resistência interna contra a guerra e contra o regime de Hitler, demonstrando que o Nazismo nunca foi uma unanimidade na Alemanha, como muitos ainda acreditam.

Não tenho palavras para descrever tamanho prazer em ler um livro tão marcante como esse e realmente acho que todas as pessoas que gostam de um livro extremamente bem escrito e com uma história que nos marca profundamente, deveriam investir em sua leitura. No mais, só posso dizer que Morrer Sozinho em Berlim de Hans Fallada e publicado pela editora Estação Liberdade é absolutamente imperdível.

Sobre o autor: Rudolf Ditzen nasceu em Greifswald, no nordeste alemão, em 1893, filho de um respeitado jurista. Em 1920, assumiu o pseudônimo Hans Fallada, inspirado em contos dos irmãos Grimm. Obteve grande sucesso na Alemanha e no mundo na década de 1930 com o romance E agora, seu moço? (Livraria do Globo, 1934), que narrava a condição miserável no país antes da ascensão de Hitler. Faleceu em 1947, algumas semanas antes da publicação de Morrer sozinho em Berlim.

Jeffa Koontz
Crítico Literário
www.sagaliteraria.com.br