Heitor estava tão absorto em seus pensamentos que não percebeu que o charuto que mantinha entre os dedos havia apagado. O homem parecia reviver os momentos em que estivera frente a frente com o homem com chifres, a fera que Botelho mantinha cativa no laboratório do Exército. Parece que relembrar aqueles momentos era confuso e doloroso para o capitão reformado de mais de 70 anos de idade. Durval esperou o homem se recuperar de suas memórias. Depois de algum tempo, ele pigarreou e acendeu novamente o charuto. Puxou a fumaça com tragadas curtas e por fim soltou uma longa baforada para o teto da sala. Olhou para Durval para confirmar se ele continuava ali.

— Você disse que sentiu uma coisa boa dentro do monstro — disse Durval.

— Sim.

— Que tipo de coisa?

— É difícil explicar. Era como se um elo tivesse se formado entre nossas mentes. Como se, de alguma forma, tivéssemos nos tornado uma única pessoa. Sei que não dá para entender. Nem eu mesmo entendo o que se passou naquele dia. Sabe empatia? Quando você parece que sente o que a outra pessoa sente? Era mais ou menos isso. Eu sentia um profundo pesar pela criatura, como se houvesse um imenso sofrimento dentro dela. Uma grande perda. Era como se eu não tivesse algo que deveria ter, que antes tinha, alguma coisa fundamental me havia sido tirada. Pensei que deveria ser a liberdade, já que a fera estava presa dentro de uma jaula. Mas não era isso, eu descobri depois que era outra coisa…

Heitor parou de falar por um momento e Durval viu pela primeira vez que o homem estava emocionado. O capitão durão de fala rascante e enérgica, que se impunha a todos de forma veemente, estava ali, diante de Durval, frágil e exposto. Seus olhos ficaram cheios de lágrimas e os músculos em volta da boca se contraíram sutilmente. Durval teve pena da aflição do homem, mas não disse nada. Demonstrar afeição naquele momento poderia desestabilizar ainda mais o capitão e fazê-lo explodir. Melhor ficar calado e esperar o homem recompor-se. Durval tomou cuidado para não fazer nenhum som quando engoliu em seco.

Heitor não levou a mão aos olhos para enxugar a lágrima que escorreu pelo rosto. Talvez quisesse fingir que ela não estava lá, marrento que era, ou talvez estivesse em paz com o que sentia.

A cacatua parecia que havia entendido o que se passava e começou a fazer um barulho fino e borbulhante, como o ronronar de um gatinho.

Heitor sorriu para o pássaro e soltou o ar de dentro do peito, respirou fundo, pigarreou e tossiu. Depois disse:

— Não deu tempo.

— Não deu tempo de que, meu velho?

— O elo que havia, a ligação que se formara entre mim e o homem com chifres se quebrou quando os soldados adentraram ruidosamente o laboratório. Eu demorei para perceber o que estava acontecendo. No começo apenas ouvi barulho vindo da direção da porta, mas em instantes eles estavam a minha volta.

— Eles prenderam você então?

— Antes tivessem me prendido, Durval.

Episodio XLVIII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com