“O idiota” é uma das obras mais comoventes de Fiódor Dostoiévski. Abstrusa para os contemporâneos do escritor, mas atual e compreensível para quem a conhecer em nossos dias, ela conta a história de um jovem aristocrata russo que se atreve a defender o sublime ideal humanista numa sociedade regida pelas leis do livre comércio. Ovelha negra da alta-roda de São Petersburgo, o príncipe Míchkin é tachado de idiota em virtude das suas qualidades morais e acaba perdendo de fato o juízo. Sua imagem de mártir e visionário, inspirada na do magnífico Dom Quixote de Cervantes, fica interiorizada pelo leitor; seu trágico fim leva-o a perguntar a si mesmo onde termina a loucura e começa a santidade do protagonista e, consequentemente, a repensar o próprio conceito daquilo que pode ser objeto de compra e venda no conturbado âmbito das relações humanas.

Não é de hoje que quem me acompanha nesses anos de resenha, sabe que Fiódor Dostoiévski é um de meus escritores favoritos e a razão disso é simples: Ele nunca me decepciona. Em O Idiota, Dostoiévski desfila uma grande malha de personagens para contar a história do príncipe Míchkin. É através de diversas situações, umas cotidianas e outras nem tanto, que Fiódor, destila toda a sua crítica sócio-político-econômica, além é claro, da religiosa, mesmo sendo um cristão ortodoxo, Dostoiévski não deixa de fora as incongruências de seus rigores perante seus discípulos.

Em O Idiota, senti novamente aquela sensação de aconchego a cada reunião dos personagens e suas discussões muitas vezes longas, mas também totalmente necessárias para o lado filosófico e metafísico que o autor sempre apresenta em seus personagens. Não raro, você, leitor, vai se deparar com situações que apresentam questões sobre a vida e sua finalidade. Porém, conseguir respostas é outra situação e que não é explorada ou tem sua solução dada sutilmente.

O autor colocou através de seu personagem icônico, Míchkin, toda a inocência que um ser humano adulto poderia ter, depois de passar praticamente a vida toda isolado devido a sua condição de saúde delicada e até então não muito explorada. É quase poética a visão que Míchkin tem da vida e das pessoas que os rodeia, pois tendo ele vivido rodeado de crianças no “estrangeiro”, acabou se “impregnando” da inocência das próprias crianças. O que acaba acarretando diversas situações problemáticas para ele.

A grande hipocrisia da vida também é muito bem demonstrada por Dostoiévski quando sua personagem é inicialmente apresentada como um “zé ninguém”, que é recebida com desconfiança e indiferença. De uma certa forma, sua inocência, acaba encantando alguns personagens que o acolhem até certo ponto, mas sem deixar de dizer que por causa dessa sua mesma inocência, é tratado com se fosse um idiota.

A grande virada e o acentuamento da dita hipocrisia humana se dá quando o príncipe Michkin recebe uma herança e consequentemente, altera sua classe social perante os seus. Á partir desse ponto, sua vida fica mais complicada e Michkin se vê rodeado de pessoas interesseiras e que mesmo, muitas vezes, conseguindo o que almejam, não deixam de vê-lo como o mesmo idiota. Isso fica extremamente evidenciado nas suas relações com seus “parentes” que desde o começo sempre o trataram pelo título da obra. Mas talvez sejam os mais verdadeiros personagens de toda a história, pois nunca esconderam isso do príncipe em momento algum.

Dostiévski também aborda toda a fragilidade humana em O Idiota. Alguns personagens são apresentados com suas doenças terminais outros com suas doenças mentais e muitos são afetados pela fragilidade do amor, que naquela época poderia levar até a morte, assim como o orgulho e a aparência que são pontos centrais de toda a crise que é apre-sentada em O Idiota, pois serve de ponto de partida para vingança, ódio e até tentativa de assassinato, temas até recorrentes nas obras de Dostoiévski.

É imensamente prazeroso se “perder” nos devaneios filosóficos apresentados em muitas das reuniões dos diversos personagens presentes na trama e também saber que cada um tem seu propósito definido em toda a história do príncipe. Aliás, não tem como ficar indiferente perante a gama de personagens apresentados por Fiódor, pois juntos criam uma teia de sentimentos e ressentimentos impossível, como disse, de se desvencilhar até sua resolução. E digo: vou sentir saudades desses personagens.

O Idiota me trouxe um prazer enorme diante de suas setecentas e doze páginas e ainda mais nessa nova edição que faz parte do novo projeto de pa-dronização das obras de Fiódor Dostoiévski, apresentado pela Martin Claret, no formato 16 X 23cm, capa dura, papel amarelado e fonte na cor da capa, no caso, marrom. Uma bela edição para uma bela história que sem dúvida alguma é IMPERDÍVEL.

Jeffa Koontz
Crítico Literário
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