— Ei pessoal? Alguém aí?

Durval deu uma olhada rápida para dentro da cozinha da casa de Heitor e Melinda. Estava vazia. Caminhou lentamente pelo corredor mancando e apoiando-se na bengala devido a perna engessada. Era bem estranho aquilo. Ele havia ouvido os dois há pouco procurando pela caixa de charutos de Heitor. E agora essa? Como teriam sumido assim dentro da própria casa? Durval passou pela porta do lavabo que estava aberta. Ninguém ali também.

— Heitor? Não vá me dar um susto, meu velho. Meu coração não aguenta nessa idade…

O corredor ficava cada vez mais escuro a medida que Durval avançava. Já devia passar das seis e Durval queria voltar logo para casa. Estava preocupado com Dolores lá sozinha.

No final do corredor havia três portas, duas fechadas e uma aberta. Com certeza os quartos, e a terceira porta deveria dar para o quintal atrás da casa. Durval aproximou-se da porta aberta e olhou para dentro. Era o quarto do casal. Havia uma cama perfeitamente arrumada, um armário em uma das paredes e na outra uma cômoda com vários porta-retratos. Durval viu de relance fotos de Heitor e Melinda em Paris e Nova York. A janela estava aberta, mas o quarto estava na penumbra já que anoitecia. Durval sentiu no rosto uma brisa suave entrando pela janela.

A segunda porta no final do corredor estava fechada, mas havia luz acesa lá dentro que saia pela parte de baixo.

— Heitor? Melinda? Vocês estão aí?

Durval bateu delicadamente com os nós dos dedos na porta. Nada.

A maçaneta redonda de madeira estava meio solta no espelho da fechadura. Durval a girou com cuidado e abriu a porta.

Era uma espécie de biblioteca, estantes até o teto abarrotadas de livros e uma escrivaninha no centro do cômodo. A luz de um abajur estilo banqueiro inglês com cúpula de vidro verde estava acesa em cima da mesa iluminando uma caixa de charutos aberta. Mas nem sinal de Heitor ou Melinda.

Durval saiu do escritório e se dirigiu para a porta dos fundos do corredor. Puxou a maçaneta, mas a porta não abriu. Tentou girar a chave na fechadura e notou que ela não estava trancada. Viu então que havia um trinco aferrolhado na parte de cima da porta. Abriu o trinco e por fim a porta. Dava para o quintal. Uma escada de madeira descia em diagonal e dava numa garagem. Um veículo estava coberto com uma capa preta. Não dava para saber qual era a marca ou modelo, mas parecia ser um carro grande.

Durval olhou aos arredores sem descer pela escada, e viu o muro que dava para o seu próprio quintal mais à frente.

Decidiu que chegava daquilo. Se os dois, Heitor e Melinda, estavam brincando de esconde-esconde com ele, não tinha tempo para aquilo. Fechou a porta e voltou andando firme pelo corredor até a sala. Queria voltar de uma vez para sua casa.

Foi então que ele percebeu. A porta da sala estava trancada.

Episodio LII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com