Pode parecer curioso para alguns falar-se em Brincadeiras-de-roda nos dias de hoje. Em tempos, em que estas manifestações da cultura popular espontânea estão com o seu espaço tão diminuído. Nas ruas, nas praças, nos quintais está mais raro de se ver ou ouvir-se das bocas infantis aquelas canções que, na simplicidade das suas melodias rit- mos e palavras, guardam séculos de sabedoria e a riqueza condensada do imaginário popular.

Porém, sem estarem em alta, também não estão extintas. É certo que muitas vezes tendo partes omitidas ou esquecidas e transformadas, elas sobrevivem a era do computador.

O fato é, que toda esta conjuntura não altera em nada o teor valoroso intrínseco às cantigas e brincadeiras de roda. Elas conti-nuam funcionando como pretextos maravi-lhosos para a criança experimentar o seu corpo, a linguagem, e para descobrir-se a si pró-pria ao mesmo tempo se revelando ao outro e inserindo-se no convívio social.

Do ponto de vista pedagógico, estes jogos infantis são considerados completos: a criança exercita naturalmente o seu corpo, desenvolve o raciocínio e a memória, estimula o gosto pelo canto. Poesia, música e dança unem-se em uma síntese de elementos imprescindíveis a educação. É um mo-vimento que faz parte dos seus esforços de compreender o mundo, e que a torna capaz de lidar com problemas até complexos e que as vezes tem dificuldade de compreender.

Brincadeiras e cantigas de roda e o folclore

As cantigas de roda integram o conjunto das canções anônimas, que fazem parte da cultura espontânea, decorren-te da experiência de vida de qualquer coletividade humana.

As brincadeiras de roda referem-se a brincadeiras do folclore dançadas ou cantadas apresentando melodias e coreo-grafias simples. Grande parte delas se apresentam com as criancas se colocando em roda e de mãos dadas, mas há va-riações, como os brinquedos de roda assentada, de fileira, de marcha, de palmas, de pegar, de esconder, incluindo também as chamadas e as cantigas para selecionar jogadores. As ro-das infantis no Brasil têm origem portuguesa, francesa e espanhola. Porém com a força do cantar e ouvir, abrasileira-ram-se, sendo eles hoje tão nossos como se aqui nascidos.

As manifestações folclóricas nascem dos impulsos criado-res, tanto individuais como coletivos. De mão-em-mão, de boca-em-boca ele se faz: cada um improvisa, recria, deixa a sua marca, introduz novos padrões. Eis algumas canções de roda:

Pai Francisco

(O Pai Francisco fica fora da roda enquanto todos cantam)
Pai Francisco entrou na roda
Tocando seu violão!
Da…ra…rão! Dão!
Vem de lá seu delegado
E Pai Francisco foi pra prisão.
(Pai Francisco se aproxima da roda, requebrando, e escolhe um companheiro para substituí-lo.)
Como ele vem
Todo requebrado
Parece um boneco desengonçado.
(A brincadeira recomeça)

Carneirinho, Carneirão

(Formada a roda, todos cantam atendendo aos coman dos da letra)
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão.
Mandarei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor
Para todos se sentarem.
(Todos se sentam de mãos dadas)
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão
Mandarei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor
Para todos se levantarem.
(Todos se levantam de mãos dadas)
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão
Mandarei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor
Para todos se ajoelharem.
(Todos se ajoelham de mãos dadas)
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão
Mandarei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor
Para todos se levantarem.
(Todos se levantam de mãos dadas)
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão
Mandarei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor
Para todos se deitarem.
(Todos se deitam no chão e soltam as mãos)
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão
Mandarei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor
Para todos se levantarem.
(As duas meninas maiores e mais fortes, ficam de pé e ajudam as outras a se leantarem de um salto só, segurando suas mãos. A que pular mais alto vai pro céu)

Teresinha de Jesus

(A Teresinha fica no centro da roda e todos cantam)
Teresinha de Jesus
Deu uma queda foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos três chapéu na mão.
O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, o terceiro foi aquele que Teresa deu a mão.
(A menina do centro se dirige a outra da roda, que será a próxima Teresinha, e canta)
Da laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
Da morena mais bonita
Quero um beijo e um abraço.
(As duas se abraçam e recomeçam a bricadeira)

Marcha Soldado

Marcha Soldado, cabeça de papel
Se não marchar direito vai preso pro quartel
O quartel pegou fogo, a polícia deu sinal
Acorda acorda acorda, a bandeira nacional

Pirulito Que Bate Bate

Pirulito que bate bate
Pirulito que já bateu
Quem gosta de mim é ela
Quem gosta dela sou eu.
Pirulito que bate bate
Pirulito que já bateu
A menina que eu gostava
Não gostava como eu.

Samba Lelê

Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
De umas dezoito lambadas
Samba, samba, Samba ô Lelê
Pisa na barra da saia ô Lalá  (BIS)
Ó Morena bonita, como é que se namora?
Põe o lencinho no bolso, deixa a pontinha de fora
Ó Morena bonita, como é que se casa
Põe o véu na cabeça, depois dá o fora de casa
Ó Morena bonita, como é que cozinha
Bota a panela no fogo, vai conversar com a vizinha
Ó Morena bonita, onde é que você mora?
Moro na Praia Formosa
Digo adeus e vou embora.

O Cravo e a Rosa

O Cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O Cravo ficou ferido
E a Rosa despedaçada.
O Cravo ficou doente
A Rosa foi visitar, o Cravo teve um desmaio, a Rosa posse a chorar.

Capelinha de Melão

Capelinha de Melão é de São João
É de Cravo é de Rosa é de Manjericão
São João está dormindo
Não acorda não!
Acordai, acordai, acordai, João!

Ciranda Cirandinha

Ciranda, Cirandinha,
Vamos todos cirandar.
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
O Anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou,
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Por isso dona Rosa
Entre dentro desta roda,
Diga um verso bem bonito
Diga adeus e vá se embora.

Nesta Rua

Nesta rua, nesta rua, tem um bosque,
Que se chama, que se chama, Solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou meu coração.
Se eu roubei, se eu roubei seu coração, é porque tu roubastes o meu também, se eu roubei, se eu roubei teu coração,
É porque eu te quero tanto bem.
Se esta rua se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante,
Para o meu, para o meu amor passar.

Atirei o Páu no Gato

Atirei o páu no gato tô tô,
Mas o gato tô tô,
Não morreu reu reu,
Dona Chica cá cá,
Admirou-se se se,
Do berro, do berro que o gato deu, Miau !!!!!!

Fui no Tororó

Fui no Tororó, beber água não achei,
Achei linda Morena
Que no Tororó deixei.
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada,
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada.
Oh! Dona Maria,
Oh! Mariazinha, entra nesta roda.
Ou ficarás sozinha!
Sozinha eu não fico
Nem hei de ficar!
Por que eu tenho o Pedro
Para ser o meu par!

Pézinho

Ai bota aqui
Ai bota aqui o seu pézinho,
Seu pézinho bem juntinho com o meu (BIS)
E depois não vá dizer
Que você se arrependeu! (BIS)

Fonte: Benita Michahelles – Monografia apresentada ao Curso de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música;
Fonte: “Os meus Brinquedos”, Figueiredo Pimentel, Livraria Quaresma, 1959
Fonte: “Cantigas de Roda”, Leda Maffioletti, Jussara H. Rodrigues