Alguns que estão lendo a versão em inglês desta coluna podem não estar familiarizados com o termo Tupiniquim, uma palavra que os brasileiros usam para se referir a si mesmos um tanto autodepreciativo e não muito sério. Tecnicamente, um Tupiniquim se refere a um membro da tribo indígena Tupi, mas na fala cotidiana, os brasileiros usam o termo para se referir a si mesmos em geral. Sou americano sim senhor, mas bem brasileiro na minha forma de pensar, agir e ser também. Confesso que sinto que sou um americano meio tupiniquim.

Meu primeiro contato com o Brasil veio aos 20 anos, quando pisei na pista quente do aeroporto de Guararapes, em Recife, pronto para começar um estágio no Banco Mundial. Desde então, tenho voltado ao país quase todos os anos ao longo dos últimos 25 anos, algumas vezes de passeio, algumas vezes para morar. Fiz um mestrado em economia na UNICAMP. Alguns anos depois voltei a trabalhar no país com o banco ABN AMRO durante a fase que estava comprando o Banco Real. Foi durante essa a fase em São Paulo que também que conheci a minha primeira esposa, e por causa dela sou hoje o orgulhoso pai de uma linda brasileira-americana de 15 anos, a Isabella que vive aqui nos EUA.

Em 2009, depois de passar quase uma década em Nova York, mudei minha família de volta para o Brasil – desta vez para o Rio de Janeiro – para que eu pudesse estar mais perto dela enquanto eu iniciava um novo capítulo da minha vida no outro lado do Atlântico, em Luanda, cidade capital de Angola. Afinal das contas, já morei mais de 8 anos no Brasil ao longo dos anos.

Não consigo nem começar a contar o número de voos que fiz para o Brasil. Mais difícil é lembrar quantas vezes passei horas num almoço de domingo sentado com amigos numa churrascaria, tomando caipirinhas e pedindo para os garçons trazerem mais picanha com alho bem crocante, como gosto. Ainda mais difícil de somar é o número de amigos brasileiros que acumulei ao longo destes anos todos; nem mesmo tentarei listar todos eles. Deixar de mencionar sequer um deles me levaria a sofrer sérias recriminações.

Adoro uma boa piada brasileira, contada com as expressões coloridas de um mineiro típico. Sonho com o ar salgado de Ipanema e uma tigela de açaí auténtico com granola — não aquele tipo meia-boca que se vende nas academias de ginástica hoje aqui nos Estados Unidos. Muitas vezes sinto saudades pela simplicidade da vida brasileira, onde a maioria das pessoas tem um jeito de viver que supera a fanática vida de trabalho que os americanos se convencem de que precisam para se autovalidar.

Quando estou no Brasil, torno-me brasileiro; meu sotaque em português é quase imperceptível, segundo me dizem. Tenho orgulho de ser um americano Tupiniquim.

E é a partir desse ponto de vista que escreverei minhas futuras colunas. Espero que gostem delas.

Nota do editor: Arick Wierson é amigo do jornal The Brasilians e do seu proprietário e fundador, João de Matos, desde o início dos anos 2000, quando o Arick ajudou promover o Brazil Day. Na época, Arick era um conselheiro sênior do prefeito Michael Bloomberg, e muitas vezes era escolhido para servir como “embaixador” do prefeito para a a comunidade brasileira devido a sua profunda familiaridade com o Brasil e a sua cultura. Fala português fluentemente e já viveu muitos anos no Brasil. Nos anos seguintes, a carreira do Arick o levou pelo mundo todo trabalhando na mídia, política e tecnologia. Hoje ele escreve uma coluna regular para a CNN e também é jornalista para The Observer, Vice e Worth Magazine. A coluna mensal de Arick para The Brasilians refletirá essa riqueza de experiência dele enquanto ele reflete sobre questões de particular importância que estão na encruzilhada dos EUA e o Brasil. Pode segui-lo no Twitter no @ArickWierson