Durval havia ficado preso dentro da casa de seu vizinho Heitor que sumira juntamente com a esposa Melinda. A porta da frente da casa estava trancada. Durval olhou pela janela. Lá fora, empoleirada na mureta da varanda, a cacatua olhava sorrateira para ele. De vez em quando dava um grito agudo e balançava a cabeça para cima e para baixo irritada com toda aquela situação. Afinal, ela própria estava trancada do lado de fora da casa, e ele, Durval, a visita inconveniente, estava trancado do lado de dentro. Enquanto Heitor e Melinda, simplesmente haviam desaparecido sem deixar rastro a não ser a caixa de charutos que estavam procurando e acabara sendo deixada aberta em cima da escrivaninha na biblioteca com a luz do abajur acesa.

Durval forçou mais uma vez a maçaneta da porta, só para se certificar de que estava mesmo trancada. Levantou a bengala. Sua vontade era quebrar os vidros da janela de tanta raiva. Mas nem que fizesse isso, ainda assim não conseguiria passar pelo vão que era pouco maior que um palmo.

Sua única alternativa era sair pela porta dos fundos e depois voltar até a frente da casa e torcer para que o portão que dá para a rua não estivesse trancado. Se pôs a caminhar de volta pelo corredor na direção da porta dos fundos. A cada passo, com a bengala dando apoio para a perna engessada, sentia que a escuridão aumentava conforme a noite chegava rapidamente. A luz amarela do por do sol refletida no piso de cerâmica começava a ficar com uma coloração vermelho escuro.

Deu uma olhadela para dentro da biblioteca. Nada mudara naqueles poucos minutos. A caixa de charutos aberta. A luz do abajur acesa em cima da escrivaninha. Mas agora ele notou uma coisa. Entrou no aposento e se aproximou da escrivaninha. Não sabia dizer se da primeira vez não havia notado ou se de fato aquilo não estava lá. Mas em cima da escrivaninha, bem ao lado da caixa de charutos, estava a caveira com chifres. Aquela que Heitor havia lhe mostrado alguns minutos antes e que fizera a cacatua ficar enlouquecida e quase surrar os dois, até que conseguissem colocá-la para fora.

Pela primeira vez Durval pode olhar de perto e com calma para aquele crânio extraordinário.

Ele deixou a bengala apoiada na escrivaninha e com cuidado, quase respeito, tomou a caveira nas mãos. Era magnífica. Por incrível que pudesse parecer, aquela coisa era mesmo hipnótica, exatamente como Heitor falara que era quando estava viva. Durval olhou atentamente as formas do crânio. Os dentes pontiagudos davam uma sensação de que a caveira sorria de forma maligna. Os dois buracos dos olhos eram profundos e o osso ao redor das órbitas proeminente e enfurecido. Os chifres que se projetavam da testa, cada um da grossura de um punho fechado, eram bem semelhantes aos chifres de um bode, recurvados e enrugados, e nas pontas, tão finos quanto um punhal.

Então Durval ouviu um barulho atrás de si.

Episodio LIII continuana próxima edição.

JOSÉ GASPAR
Cineasta e escritor
www.historiasdooutromundo.com