Além dos cuidados constantemente recomendados, visando a retomada dos espaços escolares, tecnicamente justificados, é importante observarmos que novos olhares precisam ser exercitados, visando a harmonização e o desenvolvimento das relações interpessoais, fundamentais tanto para os aspectos socioemocionais, quanto as características grupais, solicitadas pela BNCC.

Apesar do processo de aprendizagem estar desde sempre ligado ao desenvolvimento de oportunidades de troca e vivências, é necessário destacar que no momento que vivemos (inclusive anterior à COVID-19), em que também outros espaços sociais alimentaram o distanciamento social, a individualidade e infelizmente em muitos casos, até mesmo a agressividade, a escola tornou-se uma espécie de oásis, onde crianças e adolescentes passam a ter a oportunidade de conviver, debater e ajustar suas competências e interpretações sociais.

Nesse exercício de pensarmos as competências humanas e o significado da intervenção da educação escolar na formação do alicerce socioemocional e uma aprendizagem com olhar contemporâneo para nossa sociedade, precisamos nos pautar em dois aspectos que definem a essência humana: somos seres “coletivos e transformadores”, e para tanto, o afeto precisa ser visto como ferramenta fundamental, dentro do ambiente escolar.

O afeto no grupo de educadores, na relação entre colaboradores, gestores, como também na relação da instituição com os estudantes.

Para tanto, a receita fundamental pede que a pessoa do educador observe e cuide de sua própria estrutura emocional, filtrando o excesso de informações a que estamos sujeitos no dia a dia e busque parcerias entre os seus, não se isolando.

Foto: shutterstock-Vladimir Razgulyaev

Sempre bom observarmos a tradicional orientação que comissários de bordo de todo o planeta apresentam no momento que os aviões se preparam para decolar:

“- Atenção senhores passageiros, em casos de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxem uma das máscaras para liberar o fluxo de oxigênio; coloquem-na sobre o nariz e a boca; ajustem o elástico em volta da cabeça e respirem normalmente. Passageiros viajando com crianças ou alguém que necessite de ajuda, lembramos que deverão colocar suas máscaras primeiro para, em seguida, auxiliá-los.”

Importante alertarmos que a partir do início do período de isolamento que vivemos (março/2020), convivemos com um aumento exponencial no histórico de comportamento ansioso, depressivo e até mesmo agressivo entre jovens, muitas vezes sem que suas famílias consigam intervir de forma equilibrada, o que aumenta consideravelmente a importância da participação das escolas na reestruturação desses estudantes, por meio de um diálogo aberto e recheado de uma aproximação afetiva.

Note que a instabilidade na saúde, economia e educação, do ponto de vista emocional, não é a geradora da instabilidade humana e sim, uma intensificadora desse quadro que nas últimas duas décadas vem distanciando as pessoas e, cada vez mais, atingindo os mais jovens. Aliás, nesse sentido, antes que alguns digam que não há afeto sem abraços, beijos e toques físicos (características de nossa cultura), lembro que as ferramentas fundamentais para a transmissão do afeto são os “olhos” e o “tom da voz”.

Os olhos objetivamente voltados para nosso interlocutor e a voz serena de quem professa segurança.

Nesse contexto, é preciso lembrar que só são observados e tomados como referência, aqueles que transmitem segurança e equilíbrio em suas reflexões e ações, afinal, como escreveu Jean-Paul Sartre:

“- Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”

GUILHERME DAVOLI
Psicólogo, psicoterapeuta, professor, consultor empresarial e educacional, palestrante e escritor.
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