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Em seu novo livro, *Apple: The First 50 Years* (Apple: Os Primeiros 50 Anos), o autor David Pogue inclui uma história sobre como o falecido CEO e cofundador da empresa de tecnologia, Steve Jobs, pressionou sua equipe para aperfeiçoar o iPod.

“Steve Jobs queria que ele fosse o menor possível”, disse Pogue, ao relatar a anedota em uma entrevista à NPR. “Então, eles lhe trouxeram o protótipo e disseram: ‘É isto, Steve; é o menor tamanho em que conseguimos acomodar esses componentes’.”

Jobs lançou um único olhar sobre o reprodutor de música digital e o arremessou em um aquário próximo, em seu escritório, onde o aparelho afundou até o fundo e começou a emitir bolhas de ar.

Diz a lenda que Jobs então disse: “Se há bolhas de ar aí dentro, ainda há espaço. Façam-no menor!”

Mas Pogue acrescentou que há uma ressalva a essa fascinante lenda da Apple: ela nunca aconteceu de fato. É apenas mais um mito da Apple.

De piratas e perfeccionistas

Poucas corporações multinacionais inspiraram tanta mitificação quanto a Apple Inc. (A Apple é uma apoiadora financeira da NPR.)

Dezenas de sites, livros e filmes dedicam-se a contar a história da empresa — desde o veterano blog de notícias e site de fãs *Cult of Mac* até o telefilme de 1999, *Piratas do Vale do Silício* (*Pirates of Silicon Valley*). Existe até mesmo uma ópera vencedora do prêmio Grammy — *The (R)evolution of Steve Jobs* — lançada em 2017.

O jornalista de tecnologia e podcaster Jason Snell afirmou que, na verdade, pouco importa se as histórias que circundam a Apple são fatos ou folclore. A gigante da tecnologia continua a exercer um forte fascínio sobre o imaginário cultural coletivo, 50 anos após sua fundação, em 1º de abril de 1976. “A Apple sempre se posicionou nesse papel de ser contracultural, alegando que deseja tornar o mundo um lugar melhor”, disse Snell.

A famosa campanha publicitária da Apple de 1997, “Think Different” (Pense Diferente) — com sua celebração dos “loucos, dos desajustados, dos rebeldes” —, encapsula essa autoimagem idealizada.

Nem tudo é marketing

Esse espírito renegado não se resume apenas a um marketing inteligente. Hansen Hsu, curador do Museu da História do Computador, afirmou que essa característica estava verdadeiramente incorporada aos produtos da Apple desde o início, bem como à sua cultura. “Eles ficaram famosos por hastear uma bandeira pirata sobre o prédio”, disse Hsu, referindo-se à primeira sede da empresa, em Cupertino, Califórnia.

Naquela época, os computadores eram encontrados, em sua maioria, apenas em escritórios corporativos. Hsu disse que os primeiros grandes sucessos de vendas da Apple — como o computador de mesa Macintosh, de 1984 — ajudaram a democratizar a tecnologia. “Aquele Macintosh original representava a criatividade, a expressão individual e o iconoclasmo”, disse Hsu.

E a Apple continuou a representar esses valores ao lançar, no século XXI, uma tecnologia revolucionária atrás da outra — como o iPod, o iPhone e a App Store.

“Aquele único gesto deu origem a indústrias inteiras: Uber, DoorDash, Tinder, Airbnb”, disse Pogue, referindo-se à App Store, lançada em 2008.

Onde o lema “Think Different” falha

No entanto, Pogue acrescentou que essa explosão massiva de conteúdo e conectividade veio acompanhada de graves consequências, especialmente após a popularização dos serviços de *streaming*, por volta de 2015. De repente, as pessoas passaram a ter um computador, uma câmera e uma tela de TV ou cinema consigo o tempo todo, todos os dias.

“O aumento do tempo de tela parece, de fato, correlacionar-se com a sensação de isolamento e depressão entre os jovens”, disse Pogue.

A empresa tem respondido às crescentes preocupações em relação aos problemas associados ao vício em *smartphones*. Em uma entrevista concedida em março ao programa *Good Morning America*, o atual CEO da Apple, Tim Cook, manifestou sua oposição ao hábito de rolar a tela do celular de forma automática e sem propósito.

Não quero que as pessoas passem mais tempo olhando para o *smartphone* do que olhando nos olhos de outra pessoa”, afirmou.

A Apple ainda deseja ser percebida pelo mundo como uma força de mudança revolucionária. Uma declaração recente de Cook, celebrando o 50º aniversário da Apple, trouxe à tona novamente o já familiar *slogan* “Think Different” (Pense Diferente). Contudo, a Apple Inc. percorreu um longo caminho desde suas origens. Hoje, é uma das empresas mais lucrativas do mundo e nem sempre “pensa diferente” quando o assunto é comportamento corporativo.

A Apple tem sido alvo de muitas críticas devido à aproximação de Cook com o governo Trump — como, por exemplo, a doação pessoal de 1 milhão de dólares feita por ele para a segunda cerimônia de posse do presidente. Ao ser questionado sobre este e outros assuntos referentes ao seu relacionamento com Trump, Cook disse ao *Good Morning America* que não é uma pessoa política. “Eu me concentro em políticas públicas”, afirmou Cook. “E, por isso, fico muito satisfeito que o presidente e a administração estejam acessíveis para conversar sobre políticas públicas.”

O efeito “Teflon”

Independentemente disso, os concorrentes da Apple costumam enfrentar uma reação negativa muito mais intensa por suas ações impopulares do que a própria Apple.

“Pessoalmente, não vi nenhuma atitude de protesto baseada em princípios — do tipo ‘vou cancelar a Apple TV’ — da mesma forma que as pessoas cancelaram o Disney+ e o Hulu quando Jimmy Kimmel foi afastado”, disse Roxana Hadadi, crítica de TV do *Vulture*. “Há algo na Apple que, a meu ver, a torna ‘Teflon’ diante desse tipo de crítica.”

“Não vejo a Apple como uma marca da mesma forma que veria qualquer outra empresa de tecnologia, marca de roupas ou qualquer outra coisa”, disse Kyt Janae, uma renomada artista visual e tecnóloga radicada em São Francisco. Ela afirmou que utiliza produtos da Apple em todos os seus projetos criativos, como em seu trabalho na série animada *Rick and Morty*.

Janae disse compreender que a Apple é uma megacorporação que prioriza seus acionistas. No entanto, a criatividade e a ousadia que a marca representa para ela — tal como representava para seus clientes cinco décadas atrás — sobrepõem-se a todas as outras preocupações. “É como se eu estivesse presa a ela para a vida toda, aconteça o que acontecer”, disse Janae.

Fonte: npr.org

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