Em 20 de julho de 1897, um grupo de escritores, jornalistas e intelectuais reuniu-se no Rio de Janeiro para fundar a Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição que se tornaria a mais importante referência da vida literária e cultural do país. Inspirada na Académie Française, a entidade nasceu com o objetivo de promover a língua portuguesa, estimular a produção intelectual e conferir reconhecimento permanente aos principais nomes da literatura nacional. À frente da iniciativa estava Machado de Assis, eleito o primeiro presidente da Academia e já então reconhecido como o maior escritor brasileiro de sua geração.
Mais de um século depois, a ABL permanece como símbolo da tradição literária brasileira, preservando um acervo de enorme valor histórico e mantendo viva a memória de autores que ajudaram a construir a identidade cultural do país. A trajetória da instituição, no entanto, também reflete as transformações da sociedade brasileira, acompanhando mudanças políticas, sociais e culturais desde o final do século XIX.
O Brasil vivia o início da República
A criação da Academia ocorreu apenas oito anos após a Proclamação da República. O país atravessava um período de reorganização institucional, marcado por intensos debates sobre a construção de uma identidade nacional. A literatura ocupava papel central nesse processo, oferecendo interpretações sobre a formação histórica, os conflitos sociais e os desafios do Brasil que surgia após o fim da monarquia.
O Rio de Janeiro, então capital federal, concentrava jornais, editoras, tipografias e cafés frequentados pelos principais intelectuais da época. Foi nesse ambiente que amadureceu a ideia de criar uma instituição permanente dedicada às letras brasileiras.
A inspiração veio da Académie Française, fundada em 1635 pelo cardeal Richelieu para preservar e aperfeiçoar a língua francesa. Os intelectuais brasileiros adaptaram esse modelo às características nacionais, criando uma academia voltada não apenas à defesa da língua portuguesa, mas também ao fortalecimento da produção literária do país.
Machado de Assis foi o principal articulador desse projeto. Respeitado por escritores de diferentes correntes, tornou-se uma figura capaz de reunir nomes com trajetórias e visões distintas em torno de um objetivo comum.
Machado de Assis: o escritor que reinventou a literatura brasileira
Quando assumiu a presidência da recém-criada Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis já havia revolucionado a literatura nacional. Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 1839, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira açoriana, construiu uma trajetória singular em um país profundamente marcado pela escravidão e pelas desigualdades sociais.
Autodidata, trabalhou como tipógrafo, revisor, jornalista e funcionário público antes de alcançar reconhecimento como romancista, cronista, poeta e dramaturgo. Sua formação intelectual foi construída sobretudo por meio da leitura, transformando-o em um dos mais refinados escritores da língua portuguesa.

A publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, marcou uma ruptura definitiva com os padrões do romance brasileiro. Narrado por um defunto, o livro rompeu convenções narrativas, explorou a ironia, o humor e a introspecção psicológica e inaugurou uma fase de extraordinária maturidade artística.
Nos anos seguintes, vieram obras fundamentais como Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Esses romances continuam despertando novas interpretações por sua complexidade psicológica e pela crítica sofisticada às relações sociais, ao poder, ao racismo, ao patriarcado e às elites brasileiras.
Uma casa para a literatura brasileira
A Academia Brasileira de Letras nasceu inicialmente sem sede própria. Somente décadas mais tarde a instituição se instalaria no Petit Trianon,
edifício localizado no centro do Rio de Janeiro e que se transformaria em um dos símbolos da vida intelectual brasileira.
Desde sua criação, a Academia adotou a estrutura de quarenta cadeiras permanentes. Cada cadeira possui um patrono — um escritor já falecido escolhido pelos fundadores — e passa a ser ocupada por um novo acadêmico após a morte do ocupante anterior. Daí surgiu a consagrada expressão “imortais”.
Ao longo de sua história, passaram pela ABL nomes fundamentais da cultura brasileira, entre eles Rui Barbosa, Olavo Bilac, Graça Aranha, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e Lygia Fagundes Telles.
Mais do que uma associação de escritores, a Academia tornou-se um espaço de preservação documental, pesquisa histórica e promoção de debates sobre literatura, língua portuguesa e cultura nacional.
Entre tradição e renovação
Como toda instituição centenária, a Academia Brasileira de Letras também foi alvo de críticas ao longo de sua existência. Durante décadas, foi frequentemente vista como um espaço excessivamente conservador, pouco representativo da diversidade social e cultural do país e distante das transformações da literatura contemporânea.
Esses questionamentos estimularam mudanças graduais. A eleição de Rachel de Queiroz, em 1977, rompeu uma tradição exclusivamente masculina e abriu caminho para maior participação feminina na instituição. Nas décadas seguintes, outros escritores de diferentes regiões e estilos passaram a integrar seus quadros.
A Academia também ampliou suas atividades culturais, promovendo seminários, ciclos de conferências, publicações, programas educativos e a digitalização de parte de seu acervo, aproximando-se de novos públicos.
Apesar das controvérsias que ocasionalmente cercam a escolha de novos membros, a ABL continua exercendo influência significativa na preservação da memória literária brasileira.
O legado de Machado permanece vivo
Entre todos os nomes associados à Academia Brasileira de Letras, nenhum possui dimensão comparável à de Machado de Assis. Sua obra ultrapassou fronteiras nacionais e tornou-se objeto permanente de estudos em universidades de todo o mundo.
A originalidade de sua escrita influenciou gerações de romancistas, críticos e filósofos. Sua capacidade de revelar as ambiguidades da condição humana faz com que seus livros permaneçam atuais, dialogando com questões contemporâneas relacionadas ao poder, à desigualdade, ao preconceito e às relações sociais.
Machado também simboliza uma conquista intelectual extraordinária. Em uma sociedade profundamente desigual, marcada pelo legado da escravidão, tornou-se o principal escritor brasileiro por mérito exclusivamente literário, deixando uma obra que continua sendo referência incontornável da cultura nacional.
Ao fundar a Academia Brasileira de Letras em 20 de julho de 1897, Machado de Assis não apenas criou uma instituição destinada a reunir escritores. Contribuiu para estabelecer um espaço permanente de valorização da língua portuguesa e da literatura brasileira, consolidando um patrimônio cultural que, 129 anos depois, continua a inspirar leitores, pesquisadores e escritores em todo o país.
Fonte: brasil247.com
