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Há alguns anos, quando Stacia Bourne e seu marido conversavam sobre ter um segundo filho, o assunto frequentemente recaía sobre dinheiro.

“Achávamos que não teríamos condições financeiras para isso”, disse Bourne, professora de psicologia da Universidade de Delaware que mora em Maryland.

O primeiro filho do casal, George, nasceu em 2020 e começou a frequentar a creche aos 2 anos. “O custo do cuidado infantil para ele é praticamente igual ao valor da nossa prestação da casa”, disse Bourne. A perspectiva de assumir a despesa com mais um filho fez o casal hesitar ao decidir se aumentariam a família.

Isso mudou quando a mãe de Bourne, Mary Jo Galusha, de 67 anos, fez uma proposta: se Bourne quisesse ter outro bebê, Galusha disse que se aposentaria e se mudaria de Idaho para a Costa Leste para ajudar a cuidar da criança.

Meses depois, o telefone tocou. “Recebi uma ligação avisando que a Stacia estava grávida e que era melhor eu começar a planejar minha aposentadoria”, relembrou Galusha, rindo.

Ela se aposentou do trabalho como professora, empacotou seus pertences e atravessou o país dirigindo seu Volkswagen Fusca vermelho. A avó de cinco netos agora mora em Newark, Delaware, e trocou o Fusca por um SUV para acomodar melhor duas cadeirinhas no banco traseiro. Robin, nascido no final de 2024, passa cerca de 30 horas por semana sob os cuidados de Galusha enquanto Bourne e o marido trabalham.

“É uma alegria”, disse Galusha. “É como mágica vê-los crescer.”

O fato de avós ajudarem a cuidar dos netos não é novidade. No entanto, a disparada nos custos de creches e cuidados infantis nos EUA tornou o apoio familiar ainda mais crucial para alguns pais que precisam desse serviço e, de outra forma, talvez não pudessem arcar com as despesas.

Segundo a organização Child Care Aware of America, o custo anual médio de cuidados infantis para crianças menores de 5 anos nos EUA, em 2025, foi de US$ 13.184. Em alguns casos, os custos elevados com o cuidado infantil podem rivalizar com o valor do aluguel ou da mensalidade da faculdade.

Famílias que não conseguem arcar com essas despesas ou encontrar vagas em creches estão recorrendo cada vez mais às gerações mais velhas em busca de ajuda, afirmou Nicole Jorwic, diretora de programas da *Caring Across Generations*, uma organização nacional voltada para questões de assistência e cuidados.

“A realidade é que, como este país não investiu em uma infraestrutura de cuidado infantil que seja flexível, acessível e confiável, os avós estão suprindo as lacunas deixadas pelo sistema de serviços”, disse ela.

Uma necessidade crescente de cuidados infantis

Uma série de fatores está tornando a busca por cuidados infantis adequados uma necessidade para um número crescente de famílias em todos os EUA, afirmou Madonna Harrington Meyer, professora de sociologia da Universidade de Syracuse que estuda o envelhecimento e o papel dos avós.

Um dos fatores é o aumento constante, nas últimas décadas, do número de lares em que ambos os pais trabalham em tempo integral. Segundo o Pew Research Center, 52% dos casais heterossexuais com filhos tinham ambos os pais trabalhando em tempo integral em 2025, em comparação com apenas 31% em 1975.

Também houve um aumento constante no número de mães solo nos EUA ao longo das décadas. Além disso, famílias com crianças que possuem deficiência — cujo número vem crescendo em todo o país — frequentemente enfrentam dificuldades para encontrar prestadores de serviços de cuidado infantil capazes de oferecer o atendimento especializado necessário.

“Todos esses fatores levam as pessoas a recorrer aos avós”, disse Harrington Meyer.

Um desses avós é Jerry Larkin, de 66 anos, um ex-operador de máquinas que foi morar com a família de sua filha em Tulsa, Oklahoma, durante a pandemia de COVID-19, para ajudar a cuidar de seus netos gêmeos — um dos quais necessita de cuidados médicos adicionais.

Larkin contou que achava que era o único a dedicar tanto tempo a cuidar de crianças, até descobrir, por meio das redes sociais e de outras fontes, que muitas famílias enfrentam situações semelhantes e dependem dos avós para uma ajuda extra.

“Como cresci na década de 1960, havia muitas mães que ficavam em casa e tudo mais, então isso não era algo comum na época”, disse ele. “Mas agora que todo mundo precisa ter dois empregos, isso se tornou algo comum.”

Por que os avós ajudam

Hoje em dia, milhões de avós estão dando uma mãozinha nos cuidados com os netos. Uma pesquisa revelou que quase metade dos entrevistados com netos menores de 18 anos cuidava deles pelo menos uma vez a cada poucos meses.

Segundo um relatório da AARP sobre avós, divulgado em junho, os principais motivos para eles prestarem esses cuidados são o fato de os pais estarem trabalhando ou ocupados, e a oportunidade de passar um tempo de qualidade com os netos.

Dados da AARP mostram que a mediana do tempo que os avós dedicam aos cuidados com os netos (excluindo aqueles que são os cuidadores principais, bem como os que não prestam nenhum tipo de cuidado) é de 200 horas por ano, ou cerca de 3,8 horas por semana.

Harrington Meyer afirmou que, para os pais, muitas vezes é mais fácil deixar os filhos sob os cuidados dos avós do que recorrer a outras formas de assistência infantil, visto que eles podem compartilhar filosofias de criação semelhantes e o serviço não tem custo — ou tem um custo mínimo. (A AARP estimou que os avós prestam cerca de US$ 731 bilhões em cuidados não remunerados anualmente.)

“Mas talvez a maior vantagem seja a flexibilidade”, acrescentou Harrington Meyer. “Ao contrário de uma creche formal, muitas vezes os avós vão até a casa dos pais ou alternam entre cuidar das crianças na casa delas e na própria casa dos avós.”

E não são apenas as crianças e os pais que se beneficiam, mas também os próprios avós. Pessoas mais velhas podem experimentar um estímulo mental ao cuidar dos netos; um estudo mostrou pontuações mais altas em testes de memória e fluência verbal entre avós que prestavam esses cuidados.

Um sacrifício para os avós

No entanto, cuidar dos netos ainda é um trabalho, especialmente para pessoas mais velhas que já criaram seus próprios filhos e podem estar lidando com problemas de saúde ou outras questões decorrentes da idade. Cuidar dos netos pode exigir um esforço físico considerável e afetar a vida social dos avós, principalmente se eles tiverem se mudado para ficar mais perto dos netos, afastando-se de seus amigos.

Quando JD Vance sugeriu, durante a campanha presidencial de 2024, que uma solução para os altos custos de assistência infantil seria mais avós cuidarem das crianças gratuitamente, críticos apontaram que nem todos os avós podem ou querem prestar esse serviço, que muitos idosos também precisam de cuidados e que tal medida não resolveria a falta de investimento governamental no sistema de assistência infantil.

Yalanda Lattimore, de 59 anos, reflete sobre o impacto em sua carreira ao se oferecer para cuidar de sua neta de um ano, Mavee. Lattimore presta esse serviço de “creche da vovó” durante um dia e meio por semana.

Ela trabalhou como blogueira e podcaster em Atlanta e, atualmente, também vende sabonetes artesanais pela internet. Mas, com a chegada de Mavee, Lattimore disse à filha que ajudaria a cuidar da bebê — mesmo que isso significasse ter menos tempo para seu negócio de sabonetes e sua carreira na mídia. “Eu sentia que conseguia fazer esse sacrifício mais do que eles, e realmente tem sido um sacrifício”, disse ela. “Você simplesmente deixa outras coisas em segundo plano, porque suas prioridades são diferentes.”

Os trabalhadores americanos estão permanecendo na ativa por mais tempo do que antigamente; no mês passado, mais de 11,7 milhões de americanos com 65 anos ou mais faziam parte da força de trabalho, segundo dados do governo.

Lattimore disse que espera trabalhar mais, mas não quer voltar a dirigir para a Lyft, algo que fazia quando cuidava de sua mãe doente. Fora isso, ela tem tido dificuldade em encontrar um emprego que lhe permita tirar um dia útil de folga para cuidar das crianças e evitar carregar peso.

“Onde existe flexibilidade hoje em dia?”, questionou ela. “Será que ela existe em algum lugar além da *gig economy* [economia de bicos/trabalhos sob demanda]?”

Harrington Meyer, professora da Universidade de Syracuse, disse ter ouvido outra queixa em suas conversas com avós: a de que eles passam tempo demais assumindo o papel de pais e têm menos oportunidades para uma diversão despreocupada com as crianças — algo que é amplamente reconhecido como um direito de quem é avô ou avó.

“Eles diziam: ‘Eu adoraria levar os netos ao zoológico, mas estou muito ocupado ajudando com o cálculo ou levando-os para a aula de flauta no horário'”, relatou ela. “Eles faziam muitas coisas que consideravam tarefas de pais e sobrava pouco tempo para um passeio no parque ou para algo divertido e descontraído que gostariam de fazer na condição de avós.”

Fazendo dar certo

Para Mary Jo Galusha, que se mudou para Delaware para ajudar a cuidar dos netos, o fato de não receber remuneração para cuidar de Robin, de 23 meses, só é possível graças à aposentadoria que recebe pelos anos em que trabalhou como professora em Idaho. Sua casa em Newark conta com um quarto para os netos, uma sala de brinquedos repleta de Legos e até um espaço para trabalhos manuais para George, de 5 anos.

Galusha e a filha compartilham uma agenda do Google para coordenar os cuidados com as crianças, e o plano é que Galusha cuide de Robin até que a menina comece a frequentar a pré-escola. Mas Galusha e Bourne, sua filha, reavaliam o acordo a cada seis meses, mais ou menos, e Bourne reconhece que praticamente não existe um plano B.

“Eu preferiria muito mais que minha mãe cuidasse da Robin, mas a gente sempre fica preocupada: e se, daqui a seis meses, ela decidir que quer se mudar para ficar perto de outro neto? Aí teríamos que correr atrás e encontrar outra solução”, disse ela. (Galusha respondeu do outro lado da mesa: “Não tenho planos para isso”.)

Para Lattimore, ser avó tem sido uma “jornada incrível”, e ela aproveita ao máximo os dias com Mavee. “O que a gente realmente quer é que alguém diga que você estava lá, que você esteve presente para eles”, disse ela. “São essas as lembranças que eu quero.”

No entanto, Lattimore ressalta que algo precisa mudar na dinâmica geral dos cuidados com os filhos, situação em que os pais frequentemente precisam escolher entre pagar por serviços de assistência ou deixar de trabalhar para ficar em casa. Lattimore recorda-se de tentar “ascender na carreira” enquanto criava seus quatro filhos e afirma que queria poupar a filha desse mesmo dilema.

“Quando minha filha se preparava para constituir família, eu simplesmente não queria que ela passasse por isso”, disse ela. “Eu queria que ela tivesse equilíbrio… Se existe equilíbrio entre vida profissional e pessoal, eu queria isso para a minha filha.”

Fonte: npr.org

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