As favelas do Brasil surgiram como um destino turístico incomum. Embora o país já fosse conhecido há muito tempo por suas atrações icônicas, para muitos visitantes e moradores locais, as favelas agora representam não apenas uma faceta diferente da cidade, mas também uma compreensão mais profunda das realidades sociais e culturais do Brasil.
À medida que os viajantes buscam cada vez mais experiências imersivas e fora do comum, o turismo alternativo ganha força em todo o mundo. Do turismo de memória (ou “dark tourism”) às viagens sustentáveis, os turistas estão indo além das atrações tradicionais, especialmente porque muitos destinos populares enfrentam os problemas do excesso de turismo (*overtourism*).
Nesse contexto de mudança, as favelas brasileiras despontaram como um destino turístico singular. Embora o país já fosse famoso por suas atrações icônicas, muitos visitantes agora exploram as favelas para compreender melhor sua história, cultura e cotidiano.
O que são favelas?
As favelas são assentamentos urbanos informais que se desenvolveram sem planejamento oficial ou supervisão governamental, geralmente nas periferias ou encostas de grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo.
Especialistas situam as origens das favelas do Rio no final do século XIX, período em que o Brasil transitava de império para república. Inicialmente, elas surgiram como assentamentos construídos por migrantes internos e trabalhadores em busca de emprego e moradia acessível em cidades que cresciam rapidamente.
O retorno da democracia, na década de 1980, trouxe novos desafios. À medida que o Brasil se tornava um importante polo do tráfico internacional de drogas, muitas favelas viram-se presas entre a violência de gangues e ações policiais repressivas.
Durante décadas, as favelas do Rio permaneceram associadas, em nível global, à pobreza, à criminalidade e à insegurança.
Essa imagem, no entanto, começou a mudar nos últimos anos.
A implementação do programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) pelo governo em 2008, com o objetivo de livrar as favelas desses problemas, abriu caminho, gradualmente, para a desestigmatização e o aumento do fluxo turístico.
Segundo a BBC, graças aos esforços de pacificação policial, “em 2024, dados oficiais mostravam que mais viajantes internacionais visitaram o Vidigal e a Rocinha (a maior favela do país) do que a famosa estátua do Cristo Redentor e a Escadaria Selarón, no Rio”.
A crescente curiosidade em torno desses bairros também foi amplificada por celebridades e pelas redes sociais. A BBC noticiou que a cantora espanhola Rosalía e o jogador de futebol inglês Jesse Lingard foram vistos recentemente explorando as favelas do Rio.
Vídeos feitos com drones a partir dos telhados das favelas também viralizaram na internet, exibindo vistas panorâmicas da cidade. Esses vídeos contribuíram significativamente para mudar a percepção do público e atrair viajantes mais jovens em busca de experiências não convencionais.
Turistas em busca de um Rio “autêntico”
Especialistas afirmam que o crescimento do turismo em favelas reflete uma mudança mais ampla nas tendências globais de viagem, com turistas buscando cada vez mais experiências autênticas e de imersão social, em vez de se limitarem aos passeios turísticos tradicionais.
Em entrevista à Associated Press, Caroline Martins de Melo Bottino, professora do departamento de turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), disse: “As pessoas entendem que as favelas do Rio atendem muito bem a essas expectativas”.
Da mesma forma, a visitante portuguesa Isabel Fernandes disse à BBC: “Eu queria visitar porque gosto de conhecer realidades além da superfície… Não por curiosidade de ‘turista’, mas porque acredito que cada lugar tem suas próprias histórias, pessoas, força, dificuldades e beleza”.
Para muitos visitantes, o atrativo reside em vivenciar a cultura local de forma mais direta, por meio de música, gastronomia, arte, projetos comunitários e conversas com os moradores.
Em entrevista à BBC, Hugo Oliveira — pesquisador, guia e diretor de um centro educacional no Morro da Providência — afirmou: “Se você quer falar sobre o Brasil sem conhecer a favela, não tem como”.
Turismo se torna fonte de renda
O crescimento do turismo também criou oportunidades econômicas para os moradores locais.
Segundo a Associated Press, Vitor Oliveira, que trabalhava como mototaxista na Rocinha, começou a oferecer passeios após notar um aumento no número de visitantes internacionais. Desde então, o turismo tornou-se sua principal fonte de renda.
Hoje, muitos passeios pelas favelas são organizados por guias locais que buscam apresentar suas comunidades para além dos estereótipos de violência e pobreza.
Ao descrever um passeio conduzido pelo morador local Thiago Firmino na favela Santa Marta, o jornal *The Guardian* observou: “Passeios como o de Thiago oferecem um vislumbre de outro lado da vida brasileira. Mas os turistas devem estar cientes de que são visitas a locais onde vivem pessoas muito pobres — algo que alguns podem achar difícil”.
A reportagem acrescentou que os guias locais estão, muitas vezes, em melhor posição para explicar as realidades da comunidade sem romantizar nem ignorar seus desafios.
A escritora de viagens Kassia Byrnes, ao relatar sua visita ao Vidigal em matéria da *International Traveller*, observou que “as pessoas são acolhedoras, a vida noturna é vibrante, as trilhas são desafiadoras, porém incríveis, e subir na garupa de uma moto pelas ruas incrivelmente íngremes e estreitas é uma experiência que fica guardada para sempre na memória”.
O debate sobre o turismo de pobreza
Apesar da crescente popularidade dos passeios pelas favelas, persistem preocupações quanto ao chamado “turismo de pobreza” e ao risco de romantizar condições de precariedade.
Críticos argumentam que alguns passeios podem transformar comunidades marcadas por profunda desigualdade em espetáculos para visitantes de fora. Por outro lado, há quem acredite que um turismo gerido de forma responsável pode ajudar a desestigmatizar as favelas, gerar empregos e integrar esses bairros mais plenamente à identidade urbana do Rio.
Embora ainda existam preocupações com a segurança, o crescente fluxo de turistas indica que as viagens estão indo cada vez mais além das atrações típicas de cartão-postal. Para muitos visitantes, as favelas do Rio representam agora não apenas uma faceta diferente da cidade, mas também uma compreensão mais profunda das realidades sociais e culturais do Brasil.
Fonte: www.firstpost.com
