Por dezenas de milhares de anos, os locais que os humanos escolheram para habitar foram moldados, em grande parte, pelo clima e pela paisagem. É por isso que tão poucos de nós se agarram aos penhascos do Monte Everest ou se estabelecem na Antártida. E os lugares que chamamos de lar em partes mais hospitaleiras do mundo ajudaram a moldar nossa espécie — desde nossos genes até nossos comportamentos.
“Como nos tornamos humanos é uma história que se desenrolou ao longo de uma escala de tempo muito profunda e em uma área muito vasta”, diz Eleanor Scerri, arqueóloga evolutiva do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha.
Um novo estudo realizado por Scerri e seus colegas considera uma força adicional que pode ter exercido uma influência duradoura: as doenças.
Trata-se de uma área difícil de investigar, uma vez que qualquer evidência genética de patógenos específicos já teria se degradado há muito tempo.
Além disso, “a maioria das doenças, na verdade, não deixa vestígios nos restos mortais de um indivíduo falecido”, afirma Andrea Manica, ecólogo evolutivo da Universidade de Cambridge.
Utilizando uma abordagem distinta, esses pesquisadores sugerem que a malária — transmitida por mosquitos — pode ter atuado como um poderoso agente moldador dos locais onde os humanos primitivos se estabeleceram na África subsaariana.
Em um novo artigo publicado na revista *Science Advances*, eles apresentam evidências de que as populações humanas parecem ter evitado os focos de malária a partir de, pelo menos, 74.000 anos atrás. Posteriormente, há cerca de 15.000 anos, surgiu na África Ocidental uma mutação fundamental que conferiu às pessoas certa proteção contra a doença, permitindo-lhes expandir sua área de ocupação.
“Sinto que este é um primeiro passo para explorar mais a fundo quais foram as interações entre os humanos e as doenças no passado”, diz a autora principal e ecóloga evolutiva Margherita Colucci.
Um sinal surpreendentemente forte
A equipe de pesquisa valeu-se de um conjunto de modelos climáticos que desenvolveram para a África subsaariana, abrangendo um retrospecto dos últimos 74.000 anos — “os mesmos que utilizamos para prever as mudanças climáticas, mas, neste caso, aplicados ao passado”, explica Manica.
“Podemos, de fato, reconstruir a temperatura, a precipitação e o tipo de vegetação que cresceria em diversas regiões da África”, continua ele. Com essas informações, os pesquisadores puderam então prever onde certas espécies de mosquitos teriam preferido viver ao longo do tempo, com base em seus habitats atuais. Assim como hoje, esses mosquitos portavam e transmitiam a malária, uma doença potencialmente letal.
Eles estudaram sua coleção de mapas que mostravam “onde esperamos encontrar a probabilidade de alto risco de malária”, diz Colucci.
“E, se estivesse lá, teria sido um grande problema”, acrescenta Manica.
A equipe de pesquisa considerou, então, onde as pessoas estavam vivendo durante esse mesmo período, com base em evidências arqueológicas de assentamentos humanos.
E foi nesse momento que observaram um resultado surpreendente: por dezenas de milhares de anos, as pessoas não costumavam viver nos focos de malária.
“O que não sabemos é se elas estavam evitando esses locais ou se iam até lá e morriam”, diz Manica, “mas, basicamente, elas simplesmente não permaneciam nas áreas onde a malária teria sido realmente problemática”. “Na ciência, raramente se obtém um sinal tão forte”, diz Scerri. “Nós apenas olhamos uns para os outros e dissemos: ‘Nossa, está lá'”.
Uma mutação que resistiu à malária
Os resultados sugeriram que a malária ajudou a moldar os padrões de assentamento humano no passado, unindo populações em alguns momentos e separando-as em outras ocasiões.
E se, no entanto, os humanos antigos e os mosquitos simplesmente preferissem condições climáticas diferentes, de modo que a geografia não tivesse nada a ver com a malária? Isso parece improvável, com base em outra observação.
Manica afirma que, há cerca de 15.000 anos, a tendência das pessoas de evitar as regiões com a doença começou a diminuir. E foi aproximadamente nessa época que surgiu, na África Ocidental, uma mutação genética fundamental: a anemia falciforme. Duas cópias do gene são fatais, mas uma cópia oferece um grau crítico de proteção contra a malária.
“Essa solução foi tão importante”, diz ele, “que abriu toda uma área da África que, antes, era muito desafiadora. Isso nos mostra o quão importante a malária foi no passado”.
As descobertas corroboram outros artefatos arqueológicos que sugerem uma longa história de luta dos humanos contra insetos, incluindo o uso de repelentes naturais, como o ocre vermelho, e de plantas com propriedades inseticidas. “Acho que estamos apenas arranhando a superfície aqui”, diz Scerri. Simon Underdown é um antropólogo biológico da Universidade Oxford Brookes que não esteve envolvido na pesquisa. “O que o artigo demonstra com clareza é que as doenças sempre foram uma questão para os seres humanos”, afirma ele. “Elas moldam a maneira como vivemos. As doenças são algo de grande importância.”
Ele argumenta que esses resultados oferecem não apenas uma janela para o passado, mas também para o futuro, à medida que os mosquitos transmissores de doenças expandem sua área de distribuição no atual cenário de mudanças climáticas.
“Você não pode desenvolver a anemia falciforme de repente”, diz Underdown. “Isso leva tempo. Mas o que nós, humanos, fazemos é criar soluções culturais para problemas biológicos.”
Ele se refere a antídotos como vacinas ou antimaláricos, já que a resolução de problemas acaba sendo algo bastante humano também.
Fonte: npr.org
