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Deb Haaland é eleita a primeira governadora indígena dos Estados Unidos

Sua vitória dá forma institucional a uma luta antiga por território, soberania e reconhecimento, depois de séculos de remoções, tratados rompidos e tentativas de apagamento cultural.

Em 3 de novembro, Deb Haaland venceu a eleição para governar o Novo México e tornou-se a primeira mulher indígena eleita governadora de um estado norte-americano. A vitória rompe uma barreira política, mas expõe uma demora histórica: dois séculos e meio depois da fundação dos Estados Unidos, uma mulher de uma nação originária chega pela primeira vez a esse posto.

Muito antes da fundação do país, povos originários habitavam aquelas terras, organizados em nações com línguas, governos, culturas e vínculos próprios com o território. A colonização avançou sobre essa realidade, tomou terras, rompeu tratados e negou soberania. O que se chamou expansão da civilização significou, para esses povos, invasão, expulsão e uma luta desigual para preservar sua existência.

No século XIX, a remoção forçada tornou-se política oficial. O Indian Removal Act, de 1830, abriu caminho para expulsar nações de suas terras ancestrais. Cherokee, Choctaw, Creek, Chickasaw e Seminole enfrentaram marchas brutais; milhares morreram. Depois vieram reservas, novas perdas territoriais e internatos que separavam crianças de suas famílias para apagar idiomas, costumes e memórias.

A exclusão chegou às urnas. A cidadania norte-americana foi reconhecida aos indígenas em 1924, mas muitos estados mantiveram barreiras ao voto. No Novo México, Miguel Trujillo obteve uma vitória judicial contra essa discriminação em 1948. Haaland assume o governo de um estado onde a participação política indígena também foi conquistada contra a resistência de instituições que por muito tempo negaram direitos básicos.

Debra Anne Haaland nasceu no Arizona, cresceu em uma família militar e frequentou treze escolas públicas antes de concluir o ensino médio em Albuquerque. É integrante do Pueblo de Laguna, uma das nações indígenas do Novo México, e se define como novo-mexicana de 35ª geração. Sua trajetória pública carrega uma continuidade que antecede as fronteiras estaduais.

Mãe solo, ingressou aos 28 anos na Universidade do Novo México. Graduou-se em Letras em 1994 e em Direito em 2006. Trabalhou como voluntária na pré-escola da filha para ajudar a custear sua educação e, em períodos difíceis, recorreu à assistência alimentar. Também produziu e vendeu molho de salsa, administrou assuntos tribais em San Felipe Pueblo e foi a primeira mulher no conselho da Laguna Development Corporation.

Em 2018, Haaland foi uma das duas primeiras mulheres indígenas eleitas para o Congresso. Em 2021, tornou-se a primeira pessoa indígena a integrar o gabinete presidencial dos Estados Unidos, como secretária do Interior. Ao falar de seus marcos, resumiu o sentido de abrir caminho: “alguém precisa ser a primeira. Só não quero ser a última”. A estudantes que ouviam sua história, disse: “meu trabalho duro provou que muita gente estava errada. O de vocês também provará”.

A luta dos povos indígenas já ocupava minhas páginas décadas antes dessa eleição. Em 1991, escrevi meu primeiro livro, Estamos desaparecendo da Terra, lançado no Brasil durante a Eco-92, Cúpula Mundial do Meio Ambiente, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro; poucos anos depois, foi publicado também na Espanha e no México. Em 1992, os discursos oficiais celebravam os quinhentos anos da viagem de Colombo. Chamei de encobrimento a ocultação das culturas ancestrais pela narrativa triunfal da conquista. Os portugueses chegaram ao Brasil em 1500; a violência contra os povos do continente começara antes.

No livro, reuni testemunhos indígenas que nomeavam o saque e a destruição. O Chilam Balam de Chumayel descreve a chegada estrangeira como “o princípio da nossa miséria”, seguido pelos “despojos de tudo” e pela “escravidão pelas dívidas”. Em Cajamarca, uma voz inca lamenta que seu povo estivesse “sem seu rei […] sem suas mulheres, seus filhos, suas casas, suas terras”. São palavras de quem viu a conquista por dentro: perda da liberdade, dos parentes e do chão.

Pablo Neruda deu forma poética à dimensão desse golpe. Ao evocar a execução de Atahualpa em Canto Geral, escreveu: “ataram-lhe o pescoço e um gancho penetrou na alma do Peru”. Leio nesse gancho a marca deixada pela conquista sobre um povo inteiro. A violência alcançou o corpo do Inca e pretendeu atingir a memória coletiva, dobrar a dignidade e ensinar aos sobreviventes quem exerceria o poder. O metal feriu um pescoço; a imagem de Neruda revela o ataque a uma civilização.

Outras vozes reunidas no livro denunciam a perseguição e a expulsão sem rodeios. Mahpia Luta, Sioux, afirmou: “quando o homem branco vem ao meu território, deixa uma trilha de sangue atrás dele”. Tecumseh lembrou os povos que “desapareceram diante da avareza e da opressão do Homem Branco”. Gerônimo resumiu o vínculo entre território e sobrevivência: “quando são tirados desta terra, adoecem e morrem”.

Dom Pedro Casaldáliga reconheceu nesse livro uma escolha ética. Catalão de nascimento, bispo de São Félix do Araguaia e defensor dos povos indígenas e dos pobres, tornou-se meu amigo em janeiro de 1992. Depois de ler as páginas, escreveu-me em sua velha máquina de datilografar: “o seu livro é muito belo e, finalmente, podemos dizer que ele é a verdadeira Bíblia de todos os povos indígenas, porque nele eles são ouvidos!”.

Quando Pedro morreu, em 8 de agosto de 2020, aos 92 anos, escrevi que meu “continente afetivo-emocional” encolhia outra vez. Pensei no Araguaia, nos pores do sol sobre o rio e na voz serena que se erguia em defesa dos povos indígenas e dos espoliados. Nossa amizade começara quando ele leu aquelas páginas. Sua frase permanece comigo porque reconheceu o que eu tentara fazer: ouvir aqueles que a conquista procurou silenciar.

O velho pêndulo da história faz o caminho de volta quando aqueles que foram afastados do poder conquistam o direito de exercê-lo. Deb Haaland chega ao governo do Novo México, onde a presença indígena antecede as fronteiras estaduais. Sua eleição não encerra a luta indígena nem repara o que foi tomado; confirma que a tentativa de apagar esses povos fracassou. Continuamos aqui.

Fonte: brasil247.com

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