A conquista da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado pelo Partido Democrata impõe um novo obstáculo à agenda do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Com o resultado das eleições legislativas tomadas nesta terça-feira (3), a oposição terá maior poder, a partir da posse do novo Congresso em janeiro, para fiscalizar o governo e dificultar a aprovação de suas propostas. Para o Brasil, no entanto, o cenário não representa uma revisão automática das tarifas comerciais nem o início de uma nova fase nas relações bilaterais com Washington.
Segundo Fernanda Medeiros, professora de Relações Internacionais do Centro Universitário de Brasília (CEUB), o resultado amplia a pressão política sobre a Casa Branca, embora seus efeitos práticos dependam da atitude dos parlamentares e da reação do Executivo. A especialista avalia que o revés eleitoral pode abrir espaço para negociações no âmbito comercial, mas ressalta que o relacionamento entre Brasil e Estados Unidos permanece fortemente apoiado no diálogo direto entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Confira abaixo a entrevista completa:
O que muda para Donald Trump com a vitória dos democratas no Congresso?
Fernanda Medeiros: Com uma maioria democrata, o Congresso terá mais condições de fiscalizar o governo e tentar conter determinadas decisões do presidente. Trump, porém, tem recorrido amplamente a decretos e medidas executivas para implementar sua agenda. Para que a nova composição produza mudanças concretas, os democratas precisarão adotar uma postura mais proativa, algo que, historicamente, nem sempre tem caracterizado a atuação do partido.
O Congresso pode limitar as decisões do presidente na política externa?
FM: A política externa é, em grande medida, uma prerrogativa do Poder Executivo. Isso significa que, mesmo com a oposição controlando o Congresso, Trump continuará tendo instrumentos importantes para conduzir as relações internacionais. O Congresso pode fiscalizar, pressionar e tentar limitar determinadas iniciativas, mas isso depende de uma atuação efetiva dos parlamentares. Temos exemplos de decisões internacionais em que o presidente agiu sem buscar o aval do Congresso, como no caso da guerra com o Irã.
A derrota republicana pode favorecer a redução das tarifas sobre produtos brasileiros?
FM: É uma possibilidade, mas não uma consequência automática. As tarifas comerciais tiveram efeitos sobre os consumidores americanos, contribuindo para o aumento dos preços de produtos como café e carne. Isso também repercute na popularidade do presidente. Uma derrota expressiva dos republicanos pode fazer com que Trump se mostre disposto a negociar políticas que estejam contribuindo para sua baixa aprovação. Mas não é possível afirmar que isso acontecerá.
A nova composição do Congresso pode melhorar a relação entre Lula e Trump?
FM: Neste momento, a relação bilateral depende menos dos resultados eleitorais nos dois países e mais da diplomacia presidencial, ou seja, das negociações conduzidas diretamente por Lula e Trump. Por isso, não vejo a nova composição do Congresso provocando, por si só, uma mudança significativa nessa relação.
O resultado pode levar os republicanos a rever suas prioridades internacionais?
FM: A derrota eleitoral pode estimular uma postura mais cautelosa nas relações internacionais e atenção maior aos problemas internos. Isso poderia levar a uma revisão de prioridades e reduzir o espaço dedicado a determinadas disputas externas. Mas tudo dependerá de como Trump e o Partido Republicano interpretarão o resultado das urnas.
O que esperar dos dois últimos anos do mandato de Trump?
FM: É difícil fazer previsões porque a política externa americana se tornou muito imprevisível. Mesmo com a maioria democrata, ainda será necessário observar até que ponto o Congresso conseguirá interferir nas decisões presidenciais. Haverá uma nova dinâmica política, mas seus efeitos concretos dependerão da atuação dos parlamentares e da resposta de Trump. Esses movimentos permitirão avaliar as consequências das eleições para os Estados Unidos, o Brasil e o restante do mundo.
Fonte: brasil247.com
