O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) planeja fornecer aos seus agentes luvas de alta tecnologia que aplicam choques elétricos em pessoas que eles tentam deter, de acordo com planos divulgados pelo Departamento de Segurança Interna nesta semana. A agência pode gastar até US$ 20 milhões nas luvas fabricadas pela Compliant Technologies, uma empresa sediada no Kentucky e de propriedade de um veterano.
O dispositivo chama-se G.L.O.V.E., um acrônimo para *Generated Low Output Voltage Emitter* (Emissor de Voltagem de Baixa Intensidade Gerada). Quando um pequeno botão no punho da luva é acionado, ela aplica um choque elétrico ao tocar a pele. O dispositivo é semelhante a uma arma de choque (como a Taser), mas, ao contrário dela, não possui dardos que são disparados e perfuram a pele.
Demonstrações do uso das luvas parecem mostrar que elas provocam dor. A página da Compliant Technologies no Instagram está repleta de vídeos de policiais sendo submetidos ao uso da luva em demonstrações. Muitos deles fazem caretas ou gritam, e quase todos caem no chão. A Associated Press foi a primeira a noticiar os planos do ICE de equipar seus agentes com essa tecnologia.
Em um vídeo, o fundador da empresa, Jeff Niklaus, apresentou uma demonstração realizada em um policial do Gabinete do Xerife do Condado de Oklahoma. Após receber o choque da luva, o policial gritou e caiu no chão, ficando momentaneamente incapacitado durante o tempo em que a luva esteve em contato com sua pele.
Mais adiante no vídeo, o policial descreveu a sensação como uma perda total de controle. O site da empresa afirma que a luva oferece uma maneira de “desescalar situações tensas de forma rápida e eficaz”. O objetivo é facilitar as prisões para os agentes quando uma pessoa oferece resistência.
“Nossa missão é fornecer soluções inovadoras e não letais que capacitem profissionais das áreas de segurança pública, sistema prisional, segurança privada e saúde a lidar com situações perigosas com confiança e controle”, declara o site da empresa.
“Já testaram em mim. Doeu”, disse à NPR Kenneth Corey, que passou mais de três décadas no Departamento de Polícia de Nova York. “Alguém simplesmente segurou meu pulso enquanto usava a luva. Sou um homem grande. Tenho 1,90 m de altura e cerca de 113 kg.” “Isso fez minhas pernas bambear.”
Corey, que atualmente lidera a Policing Leadership Academy no Crime Lab da Universidade de Chicago, afirma que o uso da força é como uma escada: cada degrau oferece uma opção mais intensa. Se alguém avança contra você empunhando uma faca, por exemplo, ele diz que pode ser apropriado empregar mais força, inclusive um choque elétrico. Ele ressalta que a luva em si não é realmente o problema; a questão é como uma agência a utiliza — ou qualquer outra ferramenta.
“Não importa se é o ICE ou qualquer outra agência. Para qualquer novo equipamento que esteja sendo introduzido, é preciso haver políticas rigorosas que regulem seu uso.” “E então você precisa garantir que sua equipe seja responsabilizada e que siga essas políticas”, diz Corey.
Ele afirma que, sem essas salvaguardas, muitas ferramentas ficam suscetíveis a abusos.
Essa é a preocupação de muitos defensores dos direitos dos imigrantes. O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) tem sido alvo de intenso escrutínio quanto ao uso da força desde que o governo Trump intensificou as operações de deportação. Agentes federais de imigração mataram várias pessoas a tiros, incluindo duas no mês passado.
As luvas também estão chegando às escolas
Naureen Shah, diretora de políticas e assuntos governamentais relacionados à imigração na ACLU, questionou se os agentes do ICE receberam treinamento adequado para utilizar esse tipo de ferramenta, especialmente considerando os esforços recentes para contratar rapidamente mais de 12.000 agentes em menos de um ano.
“Minha reação imediata foi: por que entregar uma tecnologia nova e perigosa, que exige treinamento complexo, a agentes de um órgão com histórico de abusos e até mesmo de crueldade?”, diz Shah. “A ideia de equipar agentes do ICE — que têm pouco treinamento e um histórico recente de uso excessivo e indevido da força — com esse tipo de arma é imprudente e surpreendente.”
Shah é autora de um relatório divulgado há algumas semanas que documentou o uso generalizado da força por agentes federais de imigração durante o primeiro ano de mandato do presidente Trump, incluindo o uso de ferramentas como tasers centenas de vezes.
A tecnologia das luvas existe há menos de uma década, mas já é utilizada em diversos ambientes, inclusive em escolas. Pelo menos uma cidade — Omaha, no Nebraska — adquiriu os dispositivos para suas escolas públicas, embora não esteja claro se eles estão sendo efetivamente utilizados.
Uma lista de compradores analisada pela NPR em uma conferência sobre segurança escolar no ano passado também incluía mais de 50 departamentos de polícia em cerca de 20 estados; prisões, cadeias e vários hospitais também compraram as luvas de choque elétrico.
“Essa mesma tecnologia pode transformar o cenário da saúde, ajudando a controlar com segurança pacientes agitados ou agressivos e protegendo a equipe, o que promove um ambiente mais seguro e controlado”, escreveu a empresa em seu site.
A Compliant Technologies não quis comentar. Em seu site, a empresa afirma que não houve registros de ferimentos causados pela luva.
Em um comunicado, o DHS informou à NPR que o ICE avalia constantemente as necessidades de seus agentes para garantir que eles disponham das ferramentas necessárias para realizar prisões com segurança, e que os agentes são altamente treinados em táticas de desescalada.
Fonte: npr.org
