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A minha convidada de hoje é a empresária Diana Oliveira Jank. Ela é publicitária, sucessora da Agrindus S/A, uma tradicional fazenda de leite no interior do Estado de São Paulo. Diana foi reconhecida pela Forbes Under30 Brasil e, atualmente, está à frente da marca Letti A².

Diana nasceu e cresceu em uma fazenda produtora de leite em Descalvado, no interior de São Paulo. Desde cedo, vivenciou de forma natural a rotina do campo, onde o trabalho dos pais se entrelaçava às suas brincadeiras. Entre ordenhas, pastagens e o vai e vem da lida diária, construiu uma infância marcada pela convivência com a natureza, pelo aprendizado prático e pelo encantamento com o universo rural.

Diana afirma que cresceu sem nenhuma pressão para assumir o negócio familiar. Pelo contrário, ela é filha, sobrinha e neta de engenheiros agrônomos e em sua casa tinha uma única regra: ela e suas irmãs não podiam fazer ciências agrárias. O objetivo dos seus pais era que elas conhecessem o mundo além da porteira “Acredito que essa criação livre foi fundamental para que em 2018, eu decidisse de forma genuína que gostaria de trabalhar na fazenda após um convite do meu tio”, afirma Diana.

Hoje, sendo a quarta geração da família à frente do negócio, Diana reforça que a maior parte do seu propósito está relacionada ao desafio de dar continuidade a um legado de 80 anos, produzindo um leite especial para os brasileiros e conectando a história de sua família com as famílias brasileiras.

Aryane Garcia – Durante a sua adolescência, em algum momento você imaginou estar na posição que se encontra hoje?

Diana – Não, especialmente porque quando eu era adolescente, eu tinha certeza que iria trabalhar com moda. Sempre gostei muito e foi a área que trabalhei durante e logo após terminar minha faculdade em São Paulo antes de decidir, de forma muito natural, que iria trabalhar com a minha família na fazenda.

Aryane Garcia – Ainda na sua infância, você era influenciado por quais artistas que hoje perderam a referência com a revolução digital e advento da internet?

Diana – Acho que todos os artistas que fui influenciada seguem por aí e se adaptaram ao mundo digital (risos).

Aryane Garcia – Após anos de aprendizado, tornar-se um(a) profissional reconhecido(a) na sua área lhe traz facilidades laborais para opinar em outras áreas/empresas do segmento?

Diana – Sim! Grande parte desse aprendizado devo ao dinamismo do meu trabalho e às oportunidades de conhecer diferentes pessoas de diferentes setores e poder circular nesses universos. O agro é grande e complexo, mas o que posso afirmar é sobre o grande sentimento de parceria que existe no setor e o fato de que produtores são sempre abertos e estão dispostos a se ajudar e aprender juntos.

Aryane Garcia – Entre os seus hábitos produtivos durante a semana, existem preceitos adaptados por você que foram inseridos na sua rotina e que hoje você os aconselha para seus demais colaboradores e colegas mais jovens de trabalho?

Diana – Eu sou a maior adepta de sempre cuidarmos da nossa saúde física e mental. Poder dar atenção para isso é um grande privilégio. Recomendo prática de exercícios físicos e terapia sempre.

Aryane Garcia – Qual o seu panorama sobre a situação econômica do Brasil nos últimos 20, 10 e 5 anos?

Diana – O grande problema do Brasil é o entrave que temos para a adoção de novas tecnologias, especialmente internacional, com impostos altíssimos. Dessa forma, temos um atraso nesse sentido que prejudica o processo produtivo como um todo em relação a outros países.

Aryane Garcia – Das mais diversas dificuldades e oportunidades que você encontrou no decorrer da sua carreira, fazer parte do agronegócio, o setor mais lucrativo no Brasil, lhe ajuda a entender a situação social do país? Quais são seus planos para colaborar com a inclusão dos jovens e mais mulheres no setor?

Diana – Sim, mas eu diria que essa compreensão é anterior ao trabalhar com o agro. Eu acredito que crescer no campo nos dá um profundo conhecimento sobre terra, bicho e gente e nenhuma outra escola da vida é capaz de ensinar sobre isso. Sou grata por ter tido essa oportunidade. A base é sempre a educação. De forma generalizada, em relação aos jovens, precisamos tornar o setor atrativo e interessante e isso requer um bom trabalho de comunicação e imagem. Para as mulheres, precisamos seguir falando sobre equidade e representatividade no ambiente de trabalho. Equidade é sobre transformações necessárias na gestão do dia a dia para culminar em reparação histórica.

Aryane Garcia – A sua participação diária e ativa com as estatísticas econômicas do Agro lhe entregam uma variedade de oportunidades de crescimento. Na sua opinião, como o Agronegócio permanecerá em alta nos próximos anos – de acordo com o seu ramo de atuação?

Diana – O Agronegócio é simplesmente o setor que alimenta e abastece o mundo. O setor mais atemporal que pode existir. Simples assim. Para o futuro, ainda enxergo a grande oportunidade de estabelecer o setor como um grande aliado para questões climáticas. Na minha área, acredito também no trabalho que temos sobre transformar a imagem deturpada do setor ao nos tornarmos mais capazes de contar as boas e verdadeiras histórias que já existem dentro de muitas porteiras ao redor do Brasil.

Aryane Garcia – De acordo com a sua experiência, em níveis globais, o Agro enfrenta desafios para comunicar com o mundo a sua importância no impacto de toda a cadeia produtiva?

Diana – Sim. A comunicação é o maior gargalo do Agronegócio. Cada região tem diferentes tipos de problema, mas a dificuldade de estabelecer um diálogo entre campo e cidade e o fato de que as pessoas perderam a conexão entre o que comem e a origem do alimento existe em todos os lugares, em maior ou menor grau.

Aryane Garcia – Como convencer a sociedade de que o Agro não é o principal responsável pelo aquecimento global? Qual a notícia ou manchete que deve ser desmentida por ter prejudicado falsamente o setor?

Diana – Não acho que é sobre convencer e sim sobre possibilitar o acesso à informação. Por isso, reitero que a solução está na educação. Crianças e jovens precisam entrar em contato com dados, com pesquisas, com embasamento científico e com a realidade e aí sim terão repertório pra futuras formações de opinião. Não existe comunicação sem educação.

Aryane Garcia – A popularidade dos produtores rurais está em risco e quais seriam os motivos para a demonização da composição ruralista?

Diana – O ruído da comunicação corrobora para uma imagem deturpada. A bancada acaba sendo associada à muito poder, recursos e superioridade. Conexões a nível horizontal precisam ser reestabelecidas. É importante dizer também que parte do problema de imagem se resolve com o próprio setor se manifestando sobre temas sensíveis e isso passa pela diferenciação entre o produtor rural e o criminoso ambiental.

Aryane Garcia – Quais os maiores nomes do Agronegócio brasileiro que influenciaram a sua vida e quais os principais no mundo que lhe fizeram mudar a visão e dinâmica para desbravar o percurso?

Diana – Com certeza meu pai, minha mãe, meu tio e meu avô, são eles – sem a menor dúvida, o motivo de eu ter uma relação tão profunda com o campo e de enxergar tanto propósito no meu trabalho diário de entregar um leite fresco, de fácil digestão e certificado para os brasileiros.

Aryane Garcia – O fio condutor do sucesso do agronegócio é a economia; você acha possível que o Brasil diminua o poder de compra e passe por uma recessão econômica? Como o Brasil poderá se blindar de uma crise alimentar?

Diana – É possível que o Brasil enfrente uma recessão, por isso, a blindagem deve estar relacionada à redução de custos de alimentos para o consumidor e, para isso, precisaríamos reduzir os impostos especialmente vinculado à importação de tecnologia. Tecnologia é a chave para produzirmos de forma eficiente em um mundo com recursos finitos e população crescente.

Aryane Garcia – Se você pudesse criar algumas regras sociais que favoreçam a dinâmica produtiva do Agronegócio e do povo brasileiro, quais seriam as suas propostas de lei?

Diana – A adoção de novas tecnologias precisa ser incentivada. O produtor, diversas vezes, fica refém de políticas protecionistas internas que encarecem a adoção de novas tecnologias já existentes fora do Brasil. O ganho com o uso da tecnologia passa pela sustentabilidade ambiental na capacidade de usar recursos naturais de forma mais eficiente e, muitas vezes, de forma regenerativa, na redução da pegada de carbono, na redução de custos operacionais, na formação de um setor mais atrativo para jovens e culmina em uma produção de alimentos eficiente e integrada. Vale mencionar também que em um mundo que demanda práticas sustentáveis e de bem-estar animal no sistema de produção de alimento, é fundamental que seja possível mensurar, comprovar e justificar o que tem sido feito. A cadeia inteira ganha com essa eficiência – do produtor ao consumidor.

Aryane Garcia – Das mais variadas atitudes que aceleram o crescimento do Brasil, qual a maior contribuição que essa geração poderá entregar que irá impactar os próximos 30 anos?

Diana – Investimento profundo em educação, ciência, tecnologia e sustentabilidade – ambiental, social e financeira.

Aryane Garcia – Se você pudesse escolher uma cidade brasileira para viver até o último dia de sua vida, qual seria e por quê?

Diana – Apesar de ser apaixonada por Salvador, escolheria sempre Descalvado, a cidade que fica a fazenda da minha família, onde eu nasci, cresci, onde é o meu trabalho e onde me sinto em casa. Uma coisa é certa: não troco o Brasil por nada!

ARYANE GARCIA
Jornalista
@aryanegarcia

ARYANE GARCIA

By ARYANE GARCIA

Aryane Garcia, jornalista brasileira e fundadora da Agrotalk Meeting, uma das plataformas mais inovadoras do agronegócio no Brasil. Aryane construiu uma carreira sólida como comunicadora em veículos de imprensa como SBT Interior e Band Paulista, além de passagens internacionais por Chicago e Nova York. É especialista em estratégias de marketing em economias emergentes pela HarvardX e proprietária da AGX Estratégias de Comunicação, com centenas de eventos realizados desde 2007. Ela também ocupa o cargo de vice-presidente do Núcleo Jovem Jornalista na Associação Paulista de Imprensa e é membro da Associação Brasileira de Imprensa Internacional, com sede em Miami. Aryane aplica suas expertises para reposicionar o agro como um setor estratégico, moderno e conectado com os desafios do mundo contemporâneo.

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