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Dia 18 de agosto, Roman Polanski completou 93 anos. Poucos cineastas atravessaram tantas épocas, produziram tantos filmes fundamentais e, ao mesmo tempo, carregaram uma biografia tão perturbadora e controversa.

Nascido em Paris em 18 de agosto de 1933, de família judaica polonesa, Polanski construiu uma filmografia que o colocou entre os grandes autores do cinema moderno. O bebê de Rosemary, Chinatown, Repulsa ao sexo, A faca na água, O inquilino, Tess, Busca frenética, A morte e a donzela, O pianista e O escritor fantasma são algumas das obras de uma carreira que atravessou mais de seis décadas. (Akademia Polskiego Filmu⁠)

É difícil encontrar outro diretor em cuja obra o medo, a perseguição, a paranoia, o confinamento, a violência e a impossibilidade de escapar do passado apareçam de maneira tão insistente.

E talvez seja impossível separar inteiramente essa visão de mundo da vida de Polanski.

Ele sobreviveu ao Holocausto quando criança. Sua mãe foi assassinada em Auschwitz. Décadas depois, sua mulher, a atriz Sharon Tate, grávida, foi assassinada por integrantes do grupo liderado por Charles Manson. Em 1977, Polanski foi processado nos Estados Unidos em um caso envolvendo Samantha Geimer, então com 13 anos, e declarou-se culpado da acusação de relação sexual ilegal com uma menor. Antes da sentença definitiva, deixou os Estados Unidos e nunca retornou ao país.

Outras mulheres posteriormente fizeram acusações de violência sexual contra o cineasta, que contestou acusações feitas contra ele. Sua permanência no universo cultural europeu, apesar do processo americano e dessas acusações, transformou Polanski em personagem central de um debate que ganhou nova intensidade com o movimento #MeToo: é possível — e em que condições — separar uma obra artística de seu autor?

A resposta permanece profundamente dividida.

Mas a importância cinematográfica de Polanski é difícil de contestar. Aos 93 anos, sua trajetória representa um dos casos mais extremos da história cultural contemporânea: um artista cuja obra-prima parece permanentemente acompanhada por uma sombra.

Uma infância dentro do horror

Antes que Polanski começasse a filmar o medo, ele o conheceu. Sua família deixou Paris e retornou à Polônia quando ele ainda era criança. A invasão alemã da Polônia, em 1939, transformou sua infância. A família acabou submetida à perseguição antissemita nazista, e Polanski viveu parte da guerra escondido, utilizando uma identidade falsa.

Sua mãe foi deportada para Auschwitz e assassinada. O menino sobreviveu.

Essa experiência não constitui apenas uma informação biográfica. Décadas depois, Polanski transformaria parte daquele universo em cinema em “O pianista”, baseado nas memórias do músico judeu-polaco Władysław Szpilman. Essa estrutura reaparece repetidamente em seus filmes.

Da escola polonesa ao cinema mundial

Depois da guerra, Polanski aproximou-se do teatro, do rádio e do cinema e estudou direção na célebre escola de cinema de Łódź, um dos centros fundamentais da cultura cinematográfica polonesa do pós-guerra. Seus trabalhos estudantis já começaram a receber reconhecimento internacional.

Em 1962, realizou seu primeiro longa-metragem, “A faca na água”.

Mas o que poderia ser apenas um pequeno drama psicológico transforma-se numa investigação sobre desejo, masculinidade, poder, ciúme e violência. Polanski descobria algo que marcaria praticamente toda a sua carreira: um espaço pequeno pode conter um universo inteiro de tensão humana.

O mestre da claustrofobia

Polanski se estabeleceu na Europa Ocidental e realizou, em 1965, “Repulsa ao sexo”, com Catherine Deneuve. O filme tornou explícita uma das grandes obsessões de sua obra: a deterioração psicológica dentro de espaços fechados. Um ano depois, “Cul-de-sac” consolidou sua reputação internacional e venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

A essa altura, já estava claro que Polanski não era simplesmente um diretor habilidoso. Ele possuía um universo próprio.

Se Alfred Hitchcock era o grande mestre da construção clássica do suspense, Polanski acrescentava outra camada: muitas vezes o espectador já não consegue saber com segurança se a ameaça está no mundo ou na cabeça do personagem.

“O bebê de Rosemary” e a conquista de Hollywood

Em 1968, Polanski realizou nos Estados Unidos o filme que o transformaria definitivamente em um diretor internacional: “O bebê de Rosemary”.

Baseado no romance de Ira Levin e protagonizado por Mia Farrow, o longa acompanha Rosemary Woodhouse, uma jovem que se muda com o marido para um edifício em Nova York. Pouco a pouco, aquilo que parecia uma vida normal começa a adquirir contornos sinistros. Os vizinhos parecem excessivamente interessados no casal. O marido muda. A gravidez de Rosemary torna-se inquietante. Há alguma coisa profundamente errada.

Polanski realiza algo extraordinário: grande parte do terror acontece sem precisar ser mostrada diretamente.O espectador percebe o perigo antes de conseguir defini-lo. É a essência do cinema polanskiano.

O bebê de Rosemary tornou-se uma referência incontornável do cinema de terror psicológico e abriu caminho para uma transformação profunda do gênero nas décadas seguintes.

Sharon Tate e uma tragédia que atravessou o século

No ano seguinte ao lançamento do filme, a vida de Polanski seria devastada.

Sua mulher, a atriz Sharon Tate, estava grávida quando foi assassinada em agosto de 1969 em Los Angeles, juntamente com outras quatro pessoas, por integrantes do grupo de Charles Manson. Polanski estava na Europa. A brutalidade do crime e a celebridade das vítimas fizeram do caso um acontecimento mundial. Tate tinha 26 anos. Para Polanski, que já havia perdido a mãe no Holocausto, outra experiência de violência extrema passava a marcar sua existência. Seria simplista interpretar todos os seus filmes posteriores apenas através de suas tragédias pessoais. Mas é igualmente difícil ignorar a presença recorrente, em sua obra, de um mundo em que a segurança pode desaparecer repentinamente.

“Chinatown”: uma das obras-primas do cinema americano

Em 1974, Polanski realizou “Chinatown”. Com roteiro de Robert Towne e atuações de Jack Nicholson, Faye Dunaway e John Huston, o filme começa como uma investigação particular e gradualmente revela um sistema muito maior de corrupção, dinheiro, violência e poder. O detetive Jake Gittes acredita estar investigando uma história relativamente convencional. Descobre que entrou num labirinto. Essa é novamente uma estrutura fundamental de Polanski.

O personagem acredita compreender o mundo. Depois percebe que compreende muito pouco. Em “Chinatown”, entretanto, essa lógica deixa de ser apenas psicológica. Torna-se política. mA corrupção não é um desvio dentro do sistema. Ela está profundamente integrada ao próprio funcionamento do poder. O indivíduo pode descobrir a verdade e ainda assim ser incapaz de derrotá-la.

O reconhecimento crítico do filme permanece extraordinário: no “Rotten Tomatoes”, por exemplo, “Chinatown” aparece como o trabalho mais bem avaliado da carreira do diretor.

1977: o caso que mudou sua vida

Três anos depois de “Chinatown”, ocorreu o episódio que passaria a acompanhar Polanski pelo restante da vida.

Em 1977, nos Estados Unidos, ele foi formalmente acusado de seis crimes relacionados a Samantha Geimer, então com 13 anos. As acusações originais incluíam estupro mediante uso de drogas, fornecimento de substância controlada a menor e relação sexual ilegal com menor, entre outros delitos.

Em um acordo judicial solicitado também pela família da vítima, que buscava evitar a exposição de um julgamento de enorme repercussão, Polanski mudou sua declaração e, em 8 de agosto de 1977, declarou-se culpado da acusação de relação sexual ilegal com uma menor. Ele passou 42 dias em uma prisão estadual na Califórnia durante uma avaliação determinada no processo. Antes da sentença definitiva, deixou os Estados Unidos em 1978 e foi para a Europa e nunc amais retornou aos EUA.

A partir daquele momento, a história de Roman Polanski passou a ter duas narrativas impossíveis de dissociar completamente. Uma é a história de sua obra. A outra é a história de seu processo criminal.

O artista no exílio

A fuga dos Estados Unidos não encerrou a carreira de Polanski. Na Europa, ele continuou filmando. Em 1979 realizou “Tess”, adaptação do romance de Thomas Hardy, protagonizada por Nastassja Kinski. Depois vieram trabalhos muito diferentes entre si, como “Piratas”, “Busca frenética”, “Lua de fel”, “A morte e a donzela” e “O último portal”.

A capacidade de transitar entre gêneros permaneceu impressionante. Polanski podia fazer terror. Suspense. Drama histórico. Comédia negra. Adaptação literária. Thriller político.

Mas alguns elementos retornavam obsessivamente: isolamento, desconfiança, identidade, humilhação, violência e a fragilidade do indivíduo diante de forças maiores.

“O pianista”: o retorno ao trauma original

Em 2002, Polanski realizou aquela que talvez seja sua obra mais pessoal. “O pianista” conta a história de Władysław Szpilman, pianista judeu que tenta sobreviver à destruição de Varsóvia durante a ocupação nazista.

Para Polanski, era impossível abordar aquele universo como simples reconstrução histórica. Ele próprio havia sido uma criança judia perseguida pelos nazistas na Polônia. O resultado é um filme de extraordinária contenção.

“O Pianista” deu a Polanski o Oscar de melhor diretor em 2003. Ele não estava presente nos Estados Unidos para receber o prêmio. Era uma situação quase surreal.

Hollywood reconhecia oficialmente como melhor diretor um homem que não podia comparecer à cerimônia em razão de sua situação perante a Justiça americana. A contradição que marcaria o restante de sua carreira estava simbolicamente completa.

É possível separar o artista da obra?

Durante décadas, essa pergunta acompanhou Polanski. Mas depois do surgimento do movimento #MeToo, ela ganhou uma intensidade completamente diferente.

Outras mulheres fizeram acusações de violência sexual contra o diretor. Polanski contestou acusações feitas contra ele. Ao mesmo tempo, seu caso de 1977 possuía um elemento juridicamente estabelecido que não pode ser confundido com alegações posteriores: sua declaração de culpa pela acusação de relação sexual ilegal com uma menor.

A noite em que o cinema francês explodiu

Em 2019, Polanski lançou “O oficial e o espião” (J’accuse), sobre o caso Dreyfus, um dos grandes escândalos políticos e judiciais da história francesa.

O filme recebeu 12 indicações ao César, o principal prêmio do cinema francês. A reação foi explosiva. Organizações feministas protestaram. O debate atravessou o cinema francês. Polanski decidiu não comparecer à cerimônia.

Quando foi anunciado como vencedor do César de melhor diretor, atrizes e outros participantes deixaram o auditório em protesto. A atriz Adèle Haenel esteve entre aqueles que abandonaram a cerimônia.

O filme também venceu os prêmios de melhor adaptação e figurino. O episódio tornou-se um símbolo. De um lado estavam aqueles que defendiam que uma academia cinematográfica deveria julgar filmes e não biografias. Do outro, aqueles que consideravam impossível conceder uma homenagem pessoal a Polanski sem que isso fosse interpretado como uma mensagem às vítimas de violência sexual.

A discussão ultrapassava completamente o diretor. Era uma discussão sobre poder, arte, memória, responsabilidade e impunidade.

Um cinema construído sobre o medo

Há uma pergunta inevitável ao rever a filmografia de Polanski depois de conhecer sua biografia. Por que seus filmes são tão inquietantes?

Talvez porque Polanski compreenda como poucos cineastas a sensação de vulnerabilidade.

Em seu cinema, o mundo raramente é confiável. O apartamento de “Repulsa ao sexo” enlouquece. O edifício de “O bebê de Rosemary” esconde uma ameaça. Los Angeles, em “Chinatown”, é governada por poderes que o protagonista não consegue derrotar. Varsóvia, em “O pianista”, transforma-se numa máquina de morte.

Mesmo quando trabalha com humor, Polanski frequentemente transforma espaços fechados em campos de batalha psicológicos.

O cineasta e o labirinto moral

Celebrar os 93 anos de Roman Polanski exige, portanto, resistir a duas simplificações. A primeira seria transformar sua importância cinematográfica numa absolvição moral.

A grandeza de “Chinatown” não apaga o caso de 1977. O Oscar de “O pianista” não elimina sua declaração de culpa. A influência de “O bebê de Rosemary” não encerra as discussões levantadas pelas acusações posteriores.

A segunda simplificação seria imaginar que a condenação moral do homem torna historicamente irrelevante aquilo que ele realizou como artista. Os filmes continuam existindo. Continuam sendo estudados. Continuam influenciando cineastas.

Continuam produzindo beleza, medo, desconforto e reflexão em espectadores que muitas vezes nasceram décadas depois de sua realização.

É justamente essa impossibilidade de uma resposta simples que torna Polanski um personagem tão perturbador da cultura contemporânea.

Um dos grandes paradoxos da história do cinema

Roman Polanski chega aos 93 anos como sobrevivente de um dos maiores crimes da história humana, viúvo de uma das vítimas de um dos assassinatos mais célebres do século XX, autor de algumas das obras fundamentais do cinema moderno e protagonista de um caso criminal que o transformou em fugitivo da Justiça americana.

É uma combinação quase impossível de tragédia, talento, violência, reconhecimento e controvérsia.

Poucos artistas obrigam o público a confrontar de maneira tão incômoda a distância que pode existir entre grandeza estética e comportamento humano. Talvez seja justamente por isso que sua obra continue produzindo tamanho desconforto.

Nos melhores filmes de Polanski, os personagens entram em labirintos dos quais não conseguem sair. Descobrem que as aparências enganam. Que as instituições podem falhar. Que pessoas aparentemente respeitáveis podem esconder comportamentos terríveis. Que a verdade pode existir sem produzir justiça. E que o passado nunca desaparece completamente.

É impossível saber quanto disso nasceu de sua biografia e quanto pertence simplesmente à imaginação de um grande cineasta.

Mas há uma ironia incontornável. Ao longo de mais de seis décadas, Roman Polanski construiu uma obra sobre personagens perseguidos por forças das quais não conseguem escapar.

Aos 93 anos, sua própria trajetória permanece perseguida pelas mesmas perguntas que seu cinema nunca deixou de formular: o que fazemos diante do mal, da culpa, da violência e da impossibilidade de apagar o passado?

Fonte: brasil247.com

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