Em 24 de julho de 1918 nascia, no Rio de Janeiro, Antonio Candido de Mello e Souza, um dos maiores intelectuais da história do Brasil. Crítico literário, sociólogo, professor e ensaísta, Candido transformou a maneira de compreender a literatura brasileira, articulando estética, história e sociedade em uma obra que permanece indispensável para estudantes, pesquisadores e leitores.
Sua produção intelectual influenciou profundamente os estudos literários no país e consolidou uma ideia que se tornou uma de suas maiores bandeiras: o acesso à literatura é um direito humano. Em tempos de desigualdade e exclusão cultural, essa concepção continua inspirando educadores e formuladores de políticas públicas.
Um intérprete da formação cultural brasileira
Filho do médico Aristides Candido de Mello e Souza e de Clarisse Tolentino de Mello e Souza, Antonio Candido estudou Ciências Sociais na recém-criada Universidade de São Paulo (USP), onde conviveu com alguns dos maiores nomes da intelectualidade brasileira.
Inicialmente formado como sociólogo, logo percebeu que a literatura era um caminho privilegiado para compreender a sociedade brasileira. Essa perspectiva interdisciplinar marcou toda a sua carreira.
Professor da USP e, posteriormente, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ajudou a formar gerações de pesquisadores e consolidou a crítica literária como um campo acadêmico rigoroso no Brasil.
“Formação da Literatura Brasileira”
Publicado em 1959, Formação da Literatura Brasileira é considerado um dos livros fundamentais da cultura nacional.
Na obra, Antonio Candido demonstra que a literatura brasileira não surgiu apenas da reunião de escritores talentosos, mas da constituição gradual de um sistema literário, composto por autores, leitores, editoras, imprensa e instituições culturais.
Ao analisar nomes como Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, José de Alencar e Machado de Assis, Candido mostrou como a literatura acompanhou a própria construção da identidade brasileira.
Mais de seis décadas depois, o livro continua sendo leitura obrigatória em cursos de Letras, História e Ciências Humanas.
Literatura como direito humano
Entre todos os seus ensaios, talvez nenhum tenha alcançado repercussão tão ampla quanto “O Direito à Literatura”.
Nele, Antonio Candido afirma que a literatura não é um luxo reservado às elites, mas uma necessidade fundamental da condição humana. Assim como alimentação, educação e saúde, o contato com a ficção, a poesia e a arte contribui para o desenvolvimento da sensibilidade, da imaginação e da capacidade crítica.
Sua tese influenciou profundamente os debates sobre democratização da cultura, bibliotecas públicas, políticas de leitura e formação de novos leitores.
Ao defender que toda pessoa tem direito de acessar a experiência literária, Candido conferiu à cultura uma dimensão ética e cidadã.
Intelectual comprometido com a democracia
Antonio Candido jamais separou produção intelectual e compromisso público.
Foi um defensor da democracia, dos direitos humanos e da justiça social, mantendo posição firme contra a ditadura militar instaurada em 1964 e participando de iniciativas voltadas à reconstrução democrática do país.
Sem transformar sua crítica literária em militância partidária, demonstrava que compreender a cultura também significava compreender as estruturas sociais que moldam a vida brasileira.
Essa postura ética fez dele uma referência respeitada por intelectuais de diferentes correntes de pensamento.
Um mestre de gerações
Ao longo de sua carreira, Antonio Candido publicou obras fundamentais, entre elas Parceiros do Rio Bonito, estudo pioneiro sobre a cultura caipira paulista; Literatura e Sociedade, Tese e Antítese, Na Sala de Aula, Vários Escritos e inúmeros ensaios que permanecem centrais para os estudos literários brasileiros.
Seu estilo unia rigor acadêmico, clareza de exposição e profundo humanismo, tornando seus textos acessíveis tanto ao especialista quanto ao leitor interessado.
Mais do que formular teorias, Candido ensinou sucessivas gerações a ler com atenção, sensibilidade e espírito crítico.
Um legado permanente
Antonio Candido morreu em 12 de maio de 2017, aos 98 anos, deixando uma das obras intelectuais mais importantes produzidas no Brasil.
Seu legado ultrapassa os limites da crítica literária. Ele ajudou a mostrar que a literatura não é apenas objeto de estudo, mas uma força capaz de ampliar a consciência, fortalecer a democracia e humanizar a sociedade.
Em um país que ainda enfrenta profundas desigualdades de acesso à educação e à cultura, suas reflexões permanecem atuais. Ler Antonio Candido é reencontrar uma concepção generosa da vida intelectual: a de que o conhecimento só cumpre plenamente sua função quando contribui para tornar a sociedade mais livre, mais justa e mais humana.
Fonte: brasil247.com
