A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registrou 145 notificações suspeitas de pancreatite associadas ao uso de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. Desse total, seis notificações tiveram desfecho suspeito de óbito informado pelos próprios notificadores, segundo a agência. O tema voltou ao centro do debate após o crescimento do uso desses fármacos no país e alertas recentes de autoridades sanitárias no exterior.
Os dados foram divulgados originalmente por O GLOBO, que obteve o levantamento junto à Anvisa. A agência ressalta que se trata de notificações de suspeitas registradas no sistema de farmacovigilância e que isso não significa, automaticamente, comprovação de relação causal entre o medicamento e os casos.
De acordo com o levantamento, as notificações envolvem princípios ativos como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida, usados no tratamento de diabetes e obesidade. Considerando também registros provenientes de pesquisas clínicas, o total chega a 225 notificações no período analisado. Os dados fazem parte do VigiMed, sistema utilizado pela Anvisa para monitorar eventos adversos relacionados a medicamentos em uso no país.
A série histórica aponta crescimento contínuo das notificações. Em 2020, houve apenas um registro. Em 2021, o número subiu para 21; em 2022, foram 23; em 2023, 27; em 2024, 28; e, em 2025, ocorreu um salto para 45 notificações, alta de 60,7% em relação ao ano anterior. Para a Anvisa, esse aumento acompanha a expansão do uso desses medicamentos, inclusive fora das indicações originais e, em alguns casos, no mercado irregular.
Em resposta ao jornal, a agência enfatizou a cautela na interpretação dos números. “É importante destacar que os casos se referem à notificações de suspeitas relatadas para a Anvisa. Não podemos afirmar que se tratam de casos comprovados.” A pancreatite já consta nas bulas desses medicamentos como possível efeito adverso, e o risco é monitorado pelas autoridades regulatórias.
No cenário internacional, o tema também ganhou atenção. A agência reguladora de saúde do Reino Unido, a MHRA, emitiu recentemente um alerta sobre o risco de pancreatite aguda grave em usuários de medicamentos para obesidade e diabetes, como Mounjaro, da Eli Lilly, e Wegovy, da Novo Nordisk. Embora os casos graves sejam considerados raros, a autoridade britânica reforçou que médicos e pacientes devem estar atentos, após identificar episódios particularmente severos.
A pancreatite aguda é um processo inflamatório do pâncreas causado pela autodigestão do órgão por suas próprias enzimas. A doença pode ser classificada em forma leve ou grave. Nos quadros leves, as alterações sistêmicas são limitadas, mas, nas formas graves, podem surgir falência de órgãos, como insuficiência respiratória, renal, hipotensão e sangramentos, além de complicações locais como necrose, abscessos e pseudocistos pancreáticos.
Segundo especialistas, os sintomas costumam começar com dor abdominal difusa, geralmente na parte superior do abdômen, que pode irradiar para as costas e aumentar de intensidade ao longo de minutos ou horas. A dor costuma não melhorar com analgésicos e frequentemente vem acompanhada de náuseas e vômitos. Também podem ocorrer febre, desidratação, taquicardia e sensibilidade abdominal, além de manchas arroxeadas na pele em casos mais graves.
As causas da pancreatite são variadas e incluem, além de alguns medicamentos, condições como pancreatite hereditária, distúrbios hormonais, alterações metabólicas, infecções virais, doenças vasculares e até procedimentos cirúrgicos. No tratamento, a prioridade é manter o paciente estável, com hidratação adequada e controle da dor, enjoos e vômitos. Em situações mais graves, é necessário tratar complicações como infecções, problemas respiratórios, renais ou queda de pressão, e cirurgias podem ser indicadas em casos específicos.
A Novo Nordisk, uma das principais fabricantes de medicamentos à base de análogos de GLP-1, enviou nota ao portal 247 em 2 de fevereiro de 2026, na qual afirma que a segurança dos pacientes é prioridade e que a empresa leva “muito a sério todos os relatos de eventos adversos associados ao uso de seus medicamentos”. No comunicado, a companhia lembra que existe “uma advertência de classe para todas as terapias baseadas em incretina” em relação ao risco de pancreatite e que a pancreatite aguda está listada como reação adversa nas bulas de produtos como Ozempic®, Rybelsus®, Wegovy®, Victoza® e Saxenda®.
A empresa também orienta que os pacientes sejam informados sobre os sintomas característicos e que interrompam o tratamento em caso de suspeita de pancreatite, além de recomendar cautela em pessoas com histórico da doença. Segundo a nota, “a frequência e a proporção de participantes que apresentaram pancreatite confirmada foram similares entre semaglutida e comparador nos programas clínicos de fase 3 (SUSTAIN, PIONEER, STEP)”, e a maioria dos eventos foi classificada como pancreatite aguda leve. A companhia acrescenta que a semaglutida foi estudada em programas clínicos com mais de 54 mil pacientes e que a exposição pós-comercialização supera 33 milhões de pacientes/ano, com monitoramento contínuo em colaboração com autoridades regulatórias.
Para a Anvisa, o cenário reforça a importância da prescrição responsável e do acompanhamento médico regular, especialmente diante da popularização desses medicamentos para além das indicações originais. Enquanto as investigações e o monitoramento continuam, especialistas e autoridades de saúde destacam que qualquer sintoma sugestivo de pancreatite deve ser avaliado rapidamente, e que a notificação de eventos adversos é essencial para aprimorar a segurança do uso desses tratamentos.
Fonte: brasil247.com
