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O Brasil comemorou nessa segunda-feira os 204 anos de sua Independência. Em Brasília, como manda a tradição, autoridades se reuniram na Esplanada dos Ministérios para acompanhar o desfile de 7 de Setembro.

Na tribuna de honra estavam Lula, o presidente do STF, Edson Fachin, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o presidente da Câmara, Hugo Motta, além de outras autoridades.

Nas arquibancadas e ao longo da Esplanada, porém, as imagens provocaram outra discussão.

O governo divulgou estimativa de cerca de 70 mil pessoas no evento. As imagens exibidas, entretanto, mostraram diversos espaços com baixa ocupação, levando ao questionamento sobre a dimensão real do público.

Talvez a discussão sobre quantas pessoas estavam ali seja menos importante que a imagem produzida.

Porque o vazio que deveria preocupar Brasília não é apenas o das arquibancadas.

É o vazio da confiança.

O desfile ocorre justamente quando algumas das principais instituições brasileiras enfrentam uma crise de credibilidade que parece crescer a cada nova revelação.

Poucas delas estão tão expostas quanto o Supremo Tribunal Federal.

Há poucos dias, escrevi sobre as revelações envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Desde então, a situação só piorou.

Vieram a público mensagens nas quais Vorcaro, pouco antes de ser preso, pergunta a Moraes se deveria estar “fora” do país. Em outras, questiona se seria possível “reverter” determinada situação com “Paulo ou Andrei”, referências associadas ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Também perguntou se “com Andrei dá pra segurar”.

Os pedidos não provam que Moraes, Gonet ou Andrei tenham interferido na investigação. Mas permanece uma questão que ainda não recebeu resposta satisfatória: por que Vorcaro acreditava que poderia recorrer a um ministro do Supremo para tentar atuar justamente sobre as duas principais autoridades da PGR e da Polícia Federal?

Há ainda o contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, as alterações feitas por Moraes na minuta, a proposta envolvendo aeronaves e os cartões de crédito com limite de R$ 300 mil emitidos pelo Master para dois filhos do magistrado — cartões que, segundo o escritório, nunca foram utilizados.

Cada episódio pode ter sua explicação.

O problema continua sendo explicar o conjunto.

E a crise ganhou uma dimensão ainda maior quando André Mendonça retirou o sigilo do relatório da Polícia Federal.

Moraes reagiu acusando o próprio colega de irregularidades e pediu que ele fosse investigado.

O presidente do Supremo precisou intervir. Fachin determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues prestassem esclarecimentos sobre diferentes aspectos do caso.

Mas Mendonça foi além.

Neste fim de semana, liberou para julgamento pelo plenário do STF o relatório da Polícia Federal envolvendo Moraes e Vorcaro. Caberá agora a Fachin decidir quando o assunto será submetido aos demais ministros.

Ou seja: o Supremo terá diante de si talvez um de seus maiores testes institucionais.

Será capaz de investigar um dos seus?

E existem outras duas perguntas igualmente incômodas.

Paulo Gonet e Andrei Rodrigues têm condições de participar de uma investigação na qual seus próprios nomes aparecem?

A dúvida se tornou ainda mais concreta depois que cerca de 2 mil delegados da Polícia Federal divulgaram uma mensagem defendendo o afastamento de Paulo Gonet da condução do caso. O pedido não equivale a uma condenação nem prova, por si só, qualquer irregularidade. Mas revela que a crise de confiança já alcançou o interior da própria instituição responsável por parte da apuração.

Isso não significa acusá-los de qualquer crime.

Significa reconhecer um princípio elementar: uma investigação dessa magnitude precisa não apenas ser independente. Precisa parecer independente aos olhos da sociedade.

Se aqueles responsáveis por investigar também precisam prestar esclarecimentos sobre fatos relacionados à própria investigação, seus afastamentos da condução específica do caso deveriam ao menos ser discutidos.

Não como punição antecipada.

Como proteção à credibilidade da apuração.

E então chegamos ao Senado.

Davi Alcolumbre estava na tribuna de honra do 7 de Setembro.

É justamente ele quem ocupa a posição institucional decisiva diante dos sucessivos pedidos de impeachment de ministros do Supremo.

Mesmo após as revelações do caso Master, Alcolumbre continua resistindo ao avanço de um processo contra Moraes.

Pode considerar as acusações insuficientes. Pode exigir provas. Pode defender prudência.

Mas prudência não pode se transformar em paralisia permanente e omissão.

Afinal, se o STF enfrenta dificuldades para investigar seus próprios integrantes e o Senado se recusa a exercer seu papel de fiscalização, quem fiscaliza os fiscalizadores?

A pressão já começa a alcançar o próprio presidente do Senado.

Há pedido de afastamento cautelar de Alcolumbre da Presidência da Casa e crescente cobrança de parlamentares para que deixe de funcionar como barreira aos processos envolvendo ministros do Supremo.

O problema, portanto, tornou-se muito maior que Moraes.

Temos um ministro do STF sob questionamento. Outro ministro acusando-o e sendo acusado por ele. O procurador-geral e o diretor-geral da PF tendo de prestar esclarecimentos. Cerca de 2 mil delegados da Polícia Federal pedindo o afastamento de Gonet da condução do caso. O presidente do Supremo tentando administrar uma crise interna. E o presidente do Senado resistindo a permitir que o mecanismo constitucional de responsabilização avance.

Enquanto isso, cresce na sociedade a desconfiança em relação às instituições.

E é nesse cenário que chegamos ao 7 de Setembro.

Talvez por isso as imagens da Esplanada tenham tamanho simbolismo.

O governo afirma que 70 mil pessoas assistiram ao desfile. Pode ser, mas as imagens, inclusive dos veículos da mídia oficial, mostram um público muito aquém. A impressão que tive é que havia mais membros da força de segurança do que povo.

Mas governos deveriam se preocupar menos em disputar números e mais em compreender o que acontece quando parte crescente da população deixa de se sentir representada pelas instituições.

O problema não é apenas Lula.

Não é apenas Moraes.

Não é apenas Alcolumbre.

É a percepção de que Brasília se transformou em um mundo cada vez mais distante daquele vivido pelo cidadão comum.

Na tribuna, autoridades dos Três Poderes.

Fora dela, um país desconfiado.

O Supremo deveria proteger a Constituição. O Congresso deveria fiscalizar. A Polícia Federal deveria investigar. A Procuradoria-Geral deveria acusar quando houvesse provas. E o Executivo deveria governar.

Quando as fronteiras começam a se confundir, a confiança desaparece.

Instituições não entram em colapso apenas quando são fechadas.

Começam a ruir quando as pessoas deixam de acreditar nelas.

Talvez as arquibancadas deste 7 de Setembro fossem apenas arquibancadas.

Talvez.

Mas Brasília faria bem em olhar para os espaços vazios.

Porque existe um vazio muito mais perigoso crescendo no Brasil.

O vazio da confiança.

FÁBIO PAIVA
Jornalista, escritor, designer gráfico
e analista de conteúdo multiplataforma

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