Existe uma pílula que eu possa tomar por dia para me manter saudável?
Essa é uma pergunta que a Dra. Chloe Orkin ouve com frequência de seus pacientes idosos com HIV, que tomam vários medicamentos diariamente para manter o vírus sob controle.
“Eles ficam perguntando: ‘Por que não posso tomar um comprimido só? Ou por que posso tomar injeções?’ E a gente tem que continuar dizendo: ‘Não'”, explica Orkin, médica e pesquisadora da Queen Mary University de Londres.
Não é um sonho impossível. A maioria dos 40 milhões de pacientes com HIV no mundo já pode tomar um comprimido por dia para manter o vírus sob controle ou injeções a cada dois meses.
Mas essas opções de tratamento não funcionam para muitos dos pacientes de Orkin, especialmente aqueles diagnosticados no início da epidemia de AIDS, nas décadas de 80 e 90, “enquanto ainda estávamos aprendendo a tratar o HIV”, diz Orkin. “Eles usavam medicamentos que não funcionavam tão bem e, por isso, desenvolveram resistência a esses remédios.”
Outro grupo de pacientes com HIV que desenvolveu resistência são aqueles que não conseguiram tomar seus medicamentos antirretrovirais de forma consistente.
O resultado? Essas pessoas precisam tomar muitos comprimidos, várias vezes ao dia, para manter o vírus sob controle. Orkin afirma que isso representa um desafio logístico, mas também porque alguns medicamentos têm efeitos colaterais — como diarreia — e alguns pacientes tomam remédios para outras condições que podem interagir de forma problemática com os medicamentos antirretrovirais. Por exemplo, diz Orkin, um tipo de medicamento antirretroviral, chamado inibidor de protease potencializado, pode fazer com que a pessoa sofra efeitos colaterais piores com outros medicamentos não relacionados ao HIV.
Dezenas de milhares de pacientes com HIV nos EUA seguem esses regimes complexos e muitos mais em todo o mundo, embora Orkin e outros especialistas afirmem ser difícil precisar um número exato.
“A ciência avançou para todos os outros, exceto para eles”, diz Orkin. “Eles são como uma população esquecida.”
Mas em breve, Orkin espera poder atender aos pedidos de seus pacientes por um único comprimido diário com uma nova resposta: Sim! Aqui está.
Uma nova pesquisa, publicada online em 25 de fevereiro no periódico médico The Lancet, testou um novo comprimido único diário, desenvolvido para substituir os complexos tratamentos com múltiplos comprimidos que alguns pacientes com HIV precisam tomar.
“O medicamento funcionou tão bem quanto o regime complexo”, afirma Orkin, autora principal do estudo que testou o novo comprimido único em um grupo de 550 pacientes com HIV que seguiam os regimes complexos. “E se funciona nessas pessoas, então realmente funciona.”
O comprimido é fabricado pela Gilead Sciences e combina dois de seus medicamentos para HIV — Bictegravir e Lenacapavir — em um único comprimido menor que um multivitamínico.
A Gilead apoiou a pesquisa, mas ela foi realizada por acadêmicos e médicos em mais de 90 locais independentes, da África do Sul à República Dominicana, do Japão à França. Outro estudo — apresentado na semana passada na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, realizada em Denver — descobriu que este novo comprimido é tão eficaz quanto o comprimido único Biktarvy, um dos tratamentos para HIV mais prescritos nos EUA e recomendado como opção de primeira linha nas diretrizes de tratamento americanas.
“Esta boa notícia é fantástica”, afirma a Dra. Linda-Gail Bekker. Bekker, diretora do Centro Desmond Tutu para HIV na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, não participou do estudo.
Ela diz que o valor deste novo comprimido vai muito além de seu potencial para melhorar as opções de tratamento para pacientes resistentes aos atuais tratamentos com comprimido único. “Essa pequena parcela vai crescer”, explica.
“Quando as pessoas precisam tomar algo pelo resto da vida, o ideal é simplificar ao máximo. Assim, chega-se a um ponto em que cada vez mais pessoas conseguem [continuar tomando seus medicamentos] e incorporá-los ao seu estilo de vida.” Isso, por sua vez, ajuda a impedir a propagação do HIV, já que a carga viral de um paciente em tratamento medicamentoso diminui o suficiente para que ele não consiga transmitir o vírus.
Além disso, ela afirma que o vírus HIV está sempre sofrendo mutações, portanto, novos medicamentos são essenciais.
“Precisamos estar um passo à frente”, diz ela. “Não podemos parar. Fizemos isso com a tuberculose, certo? Conseguimos quatro medicamentos. Pronto. E então nos metemos em grandes problemas.” O mundo agora luta contra a tuberculose extremamente resistente a medicamentos. Para evitar um destino semelhante para o HIV, diz Bekker, esse tipo de pesquisa que desenvolve novos medicamentos e novas combinações de medicamentos é fundamental.
A Gilead Sciences afirmou em um comunicado que apresentará um pedido à Food and Drug Administration (FDA) dos EUA “em breve” para obter a licença do novo comprimido. Se aprovado, espera-se que seja lançado no segundo semestre deste ano.
Decisões futuras sobre o preço e a disponibilidade em países de baixa renda — onde se concentra a maior parte da carga do HIV/AIDS — serão cruciais. Mas Bekker afirma que, num passado recente, a comunidade HIV/AIDS tem sido uma defensora eficaz da melhoria do acesso quando necessário.
Por enquanto, Bekker diz que está apenas feliz em ver os resultados do estudo. O último ano foi difícil, afirma, com cortes na ajuda internacional causando grandes transtornos nos sistemas de atendimento e dados relacionados ao HIV. Portanto, diz ela, é um alívio para a comunidade de HIV/AIDS receber uma notícia “muito boa”.
Fonte: npr.org
