Davi Alcolumbre já não pode dizer que está esperando o Supremo Tribunal Federal. Esperou. O Supremo reuniu-se, discutiu, trocou acusações e terminou sem responder à questão fundamental: existem ou não elementos suficientes para investigar Alexandre de Moraes?
Enquanto isso, os fatos continuaram chegando. Vieram mensagens de Daniel Vorcaro, encontros, contratos milionários envolvendo o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes e referências a pedidos de ajuda junto a autoridades. Agora veio até um vídeo.
E, no Senado, permanece a mesma pergunta: até quando, Alcolumbre?
Nesse domingo, 20 de setembro, foi divulgado um vídeo de Alexandre de Moraes e sua esposa desembarcando no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, de um Legacy 650 operado pela Prime Aviation, empresa ligada a Daniel Vorcaro. As imagens são de agosto de 2025.
O escritório Barci de Moraes confirmou a utilização de serviços de táxi aéreo da empresa e informou que, em algumas viagens, Viviane esteve acompanhada pelo marido. Sustenta que eram contratações comerciais, que a escolha das aeronaves cabia às operadoras e que Vorcaro jamais esteve nesses voos. A explicação precisa ser considerada.
O problema é que o vídeo não surgiu isoladamente. A Polícia Federal encontrou duas minutas relacionadas a um possível contrato de R$ 50 milhões entre Vorcaro e o escritório Barci de Moraes. Desse total, R$ 40 milhões poderiam ser pagos mediante ativos vinculados a um Legacy 650 e a um helicóptero.
Ao discutir a forma de transferência desses ativos, Vorcaro foi categórico: “Os ativos são deles já.” Em outra conversa, Viviane foi questionada sobre a utilização “das cotas de vocês”. Respondeu: “Sim, estamos gostando muito.”
Há mais. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que, na véspera do voo em que Moraes e Viviane seriam posteriormente filmados, surgiu um conflito porque Vorcaro também pretendia utilizar a aeronave. Informado de que havia um voo destinado ao escritório Barci, o banqueiro teria determinado que aquele atendimento fosse preservado. No dia seguinte, Moraes e a esposa foram registrados desembarcando do Legacy no Santos Dumont.
E existe um detalhe impossível de ignorar: o avião do qual o casal aparece desembarcando é justamente o Legacy 650 PP-NLR citado nas negociações encontradas pela PF.
Isso significa que a aeronave pertencia ao casal? Não é possível afirmar. O escritório sustenta que a proposta não foi aceita, nenhum contrato foi assinado e nenhuma transferência ocorreu.
Mas então surgem perguntas inevitáveis: por que Vorcaro dizia que os ativos já eram “deles”? O que significava a referência às “cotas de vocês”? E qual era exatamente a natureza econômica da utilização das aeronaves?
É para responder perguntas assim que existem investigações.
A Constituição atribui ao Senado Federal a competência para processar e julgar ministros do Supremo nos crimes de responsabilidade. E os pedidos contra Moraes vêm se acumulando.
Somente entre 1º e 16 de setembro, o Senado recebeu 14 novos pedidos de impeachment contra o ministro. Levantamentos publicados neste mês apontavam dezenas de solicitações registradas desde 2021. Alcolumbre prefere destacar que existem mais de uma centena de pedidos envolvendo diferentes ministros do Supremo.
Quando questionado sobre as revelações envolvendo Moraes e Vorcaro, respondeu: “Eu não achei nada, eu não devo achar nada.”
A frase foi pronunciada em 1º de setembro. Desde então, apareceram novos documentos, novas mensagens e novas informações sobre contratos. O STF realizou uma sessão tumultuada e não decidiu o mérito da investigação. E agora surgiu o vídeo.
Por isso, a pergunta precisa ser refeita: Alcolumbre continua não achando nada?
A questão não é exigir que o presidente do Senado condene Alexandre de Moraes. Dar andamento a uma denúncia não significa decretar impeachment. Investigar não significa condenar. Mas existe uma enorme diferença entre rejeitar fundamentadamente um pedido e impedir indefinidamente que ele seja examinado.
E a conta desse impasse começa a chegar ao próprio Senado. Parlamentares da oposição anunciam uma estratégia de obstrução caso Alcolumbre continue sem dar andamento aos pedidos. A intenção declarada é dificultar votações e trabalhos legislativos até que haja uma resposta. A paralisação ainda não ocorreu; trata-se de uma estratégia política anunciada.
Mas a pressão já ultrapassou o campo dos discursos. O senador Carlos Viana protocolou no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar uma denúncia contra o próprio Davi Alcolumbre. A PCE 17/2026 pede a abertura de procedimento disciplinar por suposta quebra de decoro e sustenta que o presidente do Senado estaria sendo omisso diante dos pedidos relacionados a Moraes. Viana também pediu o afastamento cautelar de Alcolumbre da presidência enquanto o caso fosse analisado. O procedimento consta oficialmente como em tramitação e aguarda a designação dos membros do Conselho de Ética.
Surge, então, uma situação no mínimo peculiar: o presidente do Senado, que mantém sem andamento os pedidos contra Moraes, passa ele próprio a ser alvo de um procedimento motivado justamente pela alegada omissão diante desses pedidos.
O risco existe. E, se o Senado entrar numa guerra de obstrução, quem pagará o preço não será apenas Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre ou a oposição. Será o país.
Há orçamento, projetos econômicos, indicações, políticas públicas e dezenas de matérias que dependem do Congresso. É justamente por isso que o presidente do Senado não pode permitir que o impasse se eternize.
Qual é o critério?
Talvez essa seja hoje a pergunta mais importante. Alcolumbre não precisa concordar com os pedidos de impeachment. Pode considerá-los juridicamente inconsistentes. Pode entender que as condutas reveladas não configuram crime de responsabilidade.
Mas precisa explicar qual é o critério.
Quantas mensagens são necessárias? Quantos contratos? Quantos encontros? Quantas revelações da Polícia Federal? Quantos pedidos protocolados? Quantos fatos novos precisam aparecer para que pelo menos uma denúncia seja formalmente examinada?
Nenhum dos episódios conhecidos, isoladamente, estabelece a responsabilidade de Moraes. Mas também é difícil compreender qual seria o nível de evidência necessário sequer para permitir que o Senado exerça sua competência constitucional.
E há um risco institucional maior. Se o Senado deixa de exercer o mecanismo de controle que a Constituição lhe atribuiu, cria-se a percepção de que ministros da Suprema Corte podem se tornar, na prática, inalcançáveis pelo sistema concebido para fiscalizá-los.
Até quando?
Há poucas semanas havia mensagens e contratos. Depois vieram informações sobre as aeronaves. Agora temos Vorcaro dizendo que “os ativos são deles já” e Viviane respondendo que estavam “gostando muito” da utilização das cotas. Temos ainda mensagens indicando que, diante de um conflito de agenda, Vorcaro teria determinado que o atendimento ao escritório Barci fosse preservado.
E temos Moraes e a esposa registrados em vídeo desembarcando justamente do Legacy citado na negociação investigada pela Polícia Federal.
O escritório apresentou sua versão. Ela deve ser considerada e confrontada com os demais elementos. Mas alguém precisa decidir se tudo isso merece ou não ser formalmente examinado sob a ótica dos crimes de responsabilidade.
A Constituição já definiu qual instituição possui essa atribuição: o Senado Federal.
Davi Alcolumbre não precisa declarar Alexandre de Moraes culpado. Precisa explicar ao país por que os pedidos permanecem parados e qual critério utiliza para decidir se algum deles merece prosseguir. E essa cobrança já não vem apenas de fora: a própria conduta do presidente diante desses pedidos foi formalmente levada ao Conselho de Ética do Senado.
Depois de tudo o que veio a público, talvez já não seja suficiente repetir: “Eu não achei nada.”
A pergunta agora é outra:
O que ainda precisa acontecer para que o presidente do Senado ache que há alguma coisa a ser examinada?
Até quando, Alcolumbre?
FÁBIO PAIVA
Jornalista, escritor, designer gráfico
e analista de conteúdo multiplataforma
