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Em uma pequena torrefação industrial em Washington, D.C., o aroma convidativo do café torrado paira no ar. É onde a Lost Sock Roasters, uma empresa local, torra e embala seus grãos de café – destinados aos seus dois cafés, às casas dos clientes e às padarias e restaurantes locais.

Após quase uma década à frente da empresa com o cofundador Jeff Yerxa diz que o aroma forte do café mal se nota. “Não consigo nem sentir mais o cheiro”, diz ele, rindo.

Mas algo mais está chamando sua atenção ultimamente: as tarifas.

Em julho, o presidente Trump anunciou planos de aplicar uma tarifa de 50% sobre todos os produtos do Brasil – o maior produtor mundial de café e responsável por cerca de 30% das importações de café dos EUA. Isso se soma à tarifa de 10% que afeta quase tudo o que os EUA importam. Essa ameaça tarifária iminente causou um choque na indústria cafeeira americana, gerando receios especialmente entre pequenas torrefadoras como a Lost Sock.

“Quando as pessoas vão à cafeteria local, seja Starbucks ou qualquer outra, em geral provavelmente comprarão algum tipo de café brasileiro”, diz Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional. “Uma tarifa de 50% acabará com esse mercado.”

Embora as tarifas sobre as importações só comecem em 1º de agosto, a incerteza já está abalando o setor.

As ameaças tarifárias vão além das importações do Brasil: o governo Trump anunciou uma série de tarifas sobre importações de outros países produtores de café, como Vietnã (que produz 17% do café mundial), Colômbia (que produz 8%) e Etiópia e Indonésia (que produzem 6% cada).

Yerxa diz que está tentando não reagir até ter certeza de que os detalhes são definitivos, mas afirma que as margens de lucro já são pequenas. “A incerteza é provavelmente a pior.”

“No fim das contas, o consumidor é quem vai arcar com o peso”, diz ele. “Não quero aumentar os preços, mas estamos vendo um aumento de 30% nos custos do café, potencialmente.”

A mensagem de Trump soa vazia para os empresários

O governo Trump defende sua política comercial e as dezenas de tarifas impostas a vários países como necessárias para proteger empregos americanos, renegociar acordos comerciais e reduzir o déficit comercial.

Para torrefadores como Yerxa e Colby Barr, CEO da Verve Coffee Roasters grande parte do raciocínio do governo não se sustenta. Os EUA, com exceção de pequenas fazendas de café no Havaí e na Califórnia, não produzem café na mesma es-cala que os americanos consomem.

Por que o cliente pagará mais

Grande parte do café nos EUA vem do Brasil devido à capacidade de produção em larga escala do país, aos baixos custos, ao clima favorável e ao perfil de sabor, afirmam Yerxa e de Bolle.

“A maior parte da indústria depende desses cafés como a base de seus blends”, diz Yerxa, referindo-se à mistura de grãos de diferentes regiões.

A Lost Sock, por exemplo, é mais conhecida por seus cafés de origem única e de alta qualidade. Ela usa grãos brasileiros em alguns de seus blends – produtos que decorrem de seus relacionamentos de longa data com duas cooperativas no Brasil.

O transporte desses grãos do Brasil para Washington, D.C. é um processo longo que envolve parceiros internacionais, contratos negociados com meses a anos de antecedência e muito planejamento. A Lost Sock coordena com produtores e exportadores e faz pedidos para quantidades específicas de grãos específicos de fazendas brasileiras específicas, exporta o café e o armazena em um armazém nos EUA.

O importador adiciona uma margem para logística, e a Yerxa então contabiliza esse preço final por libra nos preços de atacado e varejo da Lost Sock.

E onde entrariam as tarifas?

Inicialmente, isso é algo que o importador teria que pagar ao trazer os grãos pa-ra os EUA, diz ele. “Essa tarifa seria apenas mais um item no recibo que receberíamos quando liberássemos o café. E então, para nós, pegamos o preço do café e, novamente, ele é adicionado ao preço por libra desse café, quando definimos os preços para atacado e varejo.”

De Bolle explica que, se as tarifas entrarem em vigor em 1º de agosto, pode levar alguns meses até que os clientes sintam os aumentos de preços em cafés ou restaurantes. Isso porque essas empresas geralmente compram a granel e têm um estoque de café que pode durar bastante tempo – estoques como esse podem durar alguns meses, diz ela. Pessoas que compram seus grãos de café no supermercado podem sentir os impactos das tarifas mais rapidamente.

“Para quem não tem estoque, ou seja, o consumidor comum que vai ao supermercado… e compra seu café, talvez esses aumentos de preços sejam sentidos mais cedo”, diz de Bolle, acrescentando que o café é perecível e estocar grãos só pode beneficiar uma empresa, ou consumidor, até certo ponto.

Os efeitos em cascata

A longo prazo, se essas tarifas parecerem válidas, a Lost Sock pode ter que considerar abandonar o uso de cafés brasileiros em alguns blends, diz Yerxa. Abandonar parcerias de longa data no Brasil, no entanto, não é uma opção para ele.

Mas se os preços do café no Brasil subirem, os torrefadores correrão para comprar de outras fontes, alerta Barr, da Verve Coffee. E esses outros países produtores de café, como o Vietnã, também estão enfrentando tarifas.

“É muito, muito difícil, e quase impossível, se preparar para isso”, diz Barr. “Tarifas não ajudam o produtor de café. Não ajudam as pequenas e médias empresas em todo o país e não ajudam o consumidor. Por que estamos fazendo isso?”

Fonte: npr.org por Jaclyn Diaz

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